O Recomeço e o Passado em Chamas
NARRADO POR CLARA
A vida nunca foi um morango para mim. Pelo contrário. Se hoje estou a um passo de ostentar o título de médica e vestir o jaleco que tanto batalhei para conquistar, foi à custa de muitas noites em claro, café frio e cicatrizes que o tempo não conseguiu apagar.
Ainda fecho os olhos e consigo ouvir o som rasgado e estridente daquela freada. O cheiro nauseante de pneu queimado, o calor asfixiante do óleo em chamas e a sensação das mãos de um desconhecido me arrancando das ferragens enquanto eu me estapeava, gritando em desespero para tirarem os meus pais de lá.
Até hoje, a causa daquele acidente permanece um mistério. Falha nos freios? Falta de manutenção? Ninguém soube me dar uma resposta decente. E o mais curioso de tudo? O dinheiro. A herança expressiva que meus pais deixaram simplesmente evaporou. Como eu era apenas uma adolescente traumatizada na época, tudo ficou sob o controle da minha tia Helena — a mulher que assumiu minha guarda a contragosto e que sempre fez questão de me encarar como um fardo indesejado.
Durante anos, eu me esquivei. Me afundei nos estudos e nos estágios exaustivos do curso de medicina só para não ter que pisar naquela casa. Ela nunca me procurava, e eu muito menos. Mas as coisas mudaram.
Hoje eu tenho 26 anos. Não sou mais aquela menina indefesa. Olho no espelho e vejo uma mulher forte, de 1,65 m de altura, cabelos loiros caindo em ondas suaves sobre os ombros e um corpo escultural que atrai olhares por onde passa — embora minha mente seja meu maior trunfo. Minha regra de vida é simples: não levo desaforo para casa de ninguém. Bateu, levou. E vou atrás do que é meu por direito, centavo por centavo.
Fiquei sabendo pelas redes sociais que a gloriosa Helena está com a vida ganha. Ela vai se casar em exatos seis meses com ninguém menos que Arthur Alencar, um CEO bilionário e dono de um império.
É o destino jogando suas cartas. Consegui uma vaga em um hospital renomado a poucos quarteirões da imponente Mansão Rodolf, onde eles estão morando. Como preciso de uma residência fixa perto do trabalho até me estabilizar de vez, decidi que é hora de me mudar para lá. Helena vai ter que me engolir.
Fecho o zíper da minha última mala com um estalo firme, sentindo uma mistura eletrizante de ansiedade e determinação percorrer minha espinha. Ajeito a postura, respiro fundo e dou uma última olhada no quarto antes de sair.
Estou pronta para o novo. Pronta para o trabalho que tanto lutei para alcançar e de braços abertos para o que o universo reservou para mim nessa jornada. Helena pensa que é a dona do jogo, mas ela não perde por esperar.
Jogos de Cena na Mansão Rudolf
NARRADO POR CLARA
O luxo da primeira classe do avião não me deslumbrava. Eu sabia exatamente por que Helena havia desembolsado aquela grana na passagem: para parecer a protetora perfeita aos olhos de quem visse. Ela pode tentar o truque que quiser, mas para mim é Helena e ponto final. Nada de "tia", "madrinha" ou qualquer rótulo afetuoso que ela não merece.
Já até previa o cinismo. Helena certamente viria com aquele teatrinho patético de saudades, tentaria me abraçar, me beijar no rosto e, assim que eu virasse as costas, correria para o banheiro para se lavar, como se eu fosse algum tipo de vírus contagioso. Mas ela que não se engane. Eu não sou mais a garotinha assustada de dez anos atrás. Vou colocar essa mulher exatamente no lugar dela.
Durante o voo, aproveitei para pesquisar mais sobre a cidade e olhar algumas fotos de Arthur Alencar. Um homem indiscutivelmente atraente, com traços marcantes e uma postura de puro poder. Mas minha mente logo voltou para a realidade que me esperava no hospital local. A situação da saúde na região estava caótica, com postos lotados de doentes e uma equipe médica fútil que parecia ter nojo dos pacientes. Pessoas que escolheram a medicina pelo status, não pela vocação. Bando de idiotas. Terei muito trabalho pela frente.
Assim que os pneus do avião tocaram o solo e eu desembarquei, dei de cara com dois homens gigantescos me esperando na pista.
— Quem são vocês? — perguntei, cruzando os braços e erguendo a sobrancelha.
— Seguranças. Estamos a mando da Sra. Helena para garantir a sua segurança.
Soltei uma risada alta e debochada.
— Dela, eu quero é distância — disse, passando por eles sem hesitar. Antes de entrar no carro luxuoso, olhei de relance para o motorista e soltei com ironia: — Só tomem cuidado para o carro de vocês não aparecer com nenhum "problema técnico" repentino...
Dentro do veículo, o insulfilm escuro me isolava do mundo lá fora. Peguei o celular e passei o trajeto encarando as fotos e mensagens de alguém que ficou para trás. Lucas. Ele foi uma pessoa extremamente importante na minha vida, alguém que me salvou quando eu mais precisei. Não sei se um dia conseguirei ter o que tínhamos de volta, mas a lembrança dele ainda apertava meu peito.
Quando o carro finalmente parou diante dos portões de ferro da imponente Mansão Rodolf, senti o peso daquela casa sobre mim. A governanta abriu a porta principal com uma reverência ensaiada.
Caminhei até a área externa e a primeira cena que vi foi na piscina: Helena e Arthur, abraçados na água, se beijando. Que repulsa. Que náuseas me deu ao ver aquela encenação.
Assim que Helena notou minha presença, saiu da água envolta em um roupão elegante e abriu os braços com um sorriso plastificado, pronta para o seu show particular.
— Minha querida! Que saudade! — ela exclamou, vindo em minha direção.
Eu me aproximei, permiti um abraço gélido de meio segundo e sussurrei bem perto do ouvido dela, o suficiente para que apenas ela ouvisse:
— Me poupe dos seus teatrinhos melodramáticos, Helena. Nós duas sabemos exatamente por que estou aqui.
Ela deu um sorriso tenso, os olhos faiscando de ódio sob a maquiagem impecável.
— Cuidado com o tom, Clara... — disse ela, numa chantagem velada, disfarçando o veneno sob uma voz doce. — Lembre-se de quem mantém as portas abertas para você nesta cidade.
Antes que eu pudesse responder, o barulho da água me fez virar. Arthur saía da piscina. A água escorria pelo peito largo e esculpido, desenhando cada músculo de seu corpo sob a luz do fim de tarde. Ele vestiu um ropão, ajeitou o cabelo molhado para trás e caminhou até nós com passos firmes e uma expressão totalmente séria, quase distante.
Ele me olhou nos olhos e estendeu a mão.
— Você deve ser a Clara. Seja bem-vinda à mansão — disse ele, com uma voz grave que ecoou pelo meu peito, mantendo uma postura totalmente fria, sem demonstrar a mínima importância para a minha chegada.
Toquei a mão dele para cumprimentá-lo. O contato foi rápido, mas a pele dele estava estranhamente quente. No mesmo instante, ao olhar no fundo daqueles olhos escuros, percebi algo muito errado. Havia uma névoa profunda naquele olhar, uma apatia rígida que não combinava com o homem forte à minha frente.
Ainda não sei o que é, mas meu instinto médico e minha intuição me dizem que há algo de muito sombrio por trás dessa paixão repentina por Helena. E eu vou descobrir.