Nicolly...
Minha cabeça já estava explodindo de tanta dor.
Eu estava ali, no chão do meu quarto, amarrada e só chorava — pra c*****o.
E o que mais pesava era saber que o meu pai sabia que eles viriam e nem sequer moveu um dedo pra me tirar de casa.
O meu próprio pai simplesmente sumiu, me deixando na mão de vários traficantes.
Quando percebi, fui surpreendida por um cara entrando armado no meu quarto. Naquela hora, minha única reação foi tentar correr, mas senti a mão dele puxando meu cabelo, e logo em seguida eu fui jogada no chão.
E eu só queria que esse inferno acabasse logo.
— Tu é mó princesa, né? Aposto que os caras ficam doidos por tu... — ele disse.
Fechei os olhos, deixando as lágrimas caírem novamente, e senti a mão dele sobre as minhas costas.
Tentei me afastar, mas ele me puxou com mais força ainda, e lambeu meu pescoço.
Eu só sentia nojo de mim mesma por não conseguir fazer nada.
Não conseguia sair dali.
Eu estava trancada nesse quarto com esse cara havia horas. Ele sempre tentava alguma coisa, mas eu sempre me esquivava.
Eu só torcia pra alguém entrar ali e me tirar desse inferno.
A porta do meu quarto se abriu e olhei assustada. Era o homem que todos chamavam de chefe. Ele estava com uma máscara cobrindo o rosto, mas nos olhos... dava pra ver ódio.
— Que p***a tá acontecendo aqui, Nk? — ele perguntou alto, fazendo o outro se afastar de mim.
— Não era nada não, pô. Fica de boa — respondeu o tal Nk.
— Qual foi, tu tá querendo meter o louco pro meu lado, Nk? Se tem uma parada que eu não permito, é forçar mina a fazer o que ela não quer. Ainda mais a menina que tá de refém. E tu vem com caô pro meu lado?
— Pô, foi m*l, ZL. Não vai acontecer de novo.
— Não vai mesmo! Assim que a gente chegar no morro, tu vai pra salinha. Quero ver se lá tu é homem pra forçar mulher a fazer as paradas.
Não era a ajuda que eu esperava, mas me salvou das mãos daquele desgraçado.
O chefe falou mais algumas coisas que eu nem entendi direito, e o menino saiu bolado dali.
Ele veio na minha direção, tirou a fita da minha boca e me puxou, me colocando sentada na cama.
— Quer alguma coisa? Água, comida, sei lá... Tu tá há horas sem comer ou beber nada.
— Eu não quero nada de vocês — respondi, com raiva.
— Suave, pô — ele fez um gesto com a mão. — Eu só ofereço uma vez. Comigo não tem essa de fazer pirraça, não. Fica na ativa aí que já já a gente tá partindo.
— Como assim? Vocês vão me levar com vocês? Pra onde a gente vai? — perguntei várias coisas de uma vez.
Ele me olhou enquanto abria a porta do quarto.
— Vamo dar um passeio por aí, até o seu pai resolver aparecer. E ah... reza pra ele não demorar.
Ele disse isso e bateu a porta, me deixando sozinha.
Eu estava tonta, cansada. Não tinha forças nem pra gritar, muito menos tentar fugir.
Me encostei na cabeceira da cama e tentei me acalmar, mesmo que fosse impossível.
Depois de um tempo, o mesmo cara que tinha tentado me agarrar voltou.
Ele desfez o nó da corda que me prendia, me levantou segurando forte no meu braço e, logo em seguida, eu só senti um peso na minha cabeça.
Ele me deu uma coronhada com a arma... e depois disso, eu não me lembro de mais nada.
[. . .]
Acordei sentindo tudo girar. Minha cabeça doía e a vontade de chorar voltou na hora.
Abri os olhos e vi que estava num quarto com pouca luz, mas dava pra enxergar alguma coisa por causa da claridade da rua.
Tentei me levantar, olhei pro lado... e vi que minha mão esquerda estava algemada na cama.
Inacreditável como as coisas só pioravam.
Ouvi várias vozes do lado de fora. A porta se abriu e a luz forte bateu no meu rosto, me fazendo fechar os olhos.
— Achei que nunca mais fosse te ver, Nicolly. Mas graças ao seu pai, esse encontro aconteceu novamente — ouvi aquela voz grossa.
Abri os olhos e vi que era o Vh.
Um dos maiores traficantes que meu pai prendeu anos atrás.
Eu era nova na época, mas lembro bem...
Recebi ameaças de morte, tive que estudar fora do país, escondida. Não podia sair na rua porque meu pai colocou atrás das grades o homem mais temido de Heliópolis.