Capítulo 2 — Gabriel Alves
Gael
Existem dois tipos de pessoas no Morro da Coroa.
As que acordam quando o despertador toca.
E as que acordam antes dele.
Eu fazia parte do segundo grupo.
Abri os olhos antes mesmo do celular vibrar.
Olhei para o relógio.
Cinco e meia da manhã.
Suspirei.
Mais um dia.
Passei a mão pelo rosto e me sentei na cama.
O quarto ainda estava escuro.
Por alguns segundos fiquei parado, organizando mentalmente tudo que precisava fazer.
A rotina era praticamente a mesma há anos.
Verificar movimentações.
Resolver problemas.
Organizar equipes.
Garantir que tudo funcionasse.
Enquanto muita gente da minha idade ainda estava descobrindo o que queria fazer da vida, eu já carregava responsabilidades suficientes para três pessoas.
E sinceramente?
Não reclamava.
Gostava da sensação de ser útil.
Gostava de saber que meu pai confiava em mim.
Gostava de conquistar meu espaço.
Levantei.
Tomei banho.
Vesti uma camiseta preta e uma bermuda cargo.
Calcei um tênis.
Peguei meu celular.
Quando desci, minha mãe já estava na cozinha.
Como sempre.
Carol parecia ter um talento sobrenatural para acordar antes de todo mundo.
— Bom dia.
Ela levantou os olhos do café.
— Bom dia, meu filho.
Me aproximei.
Beijei sua testa.
Ela sorriu.
— Vai comer alguma coisa.
Não era uma pergunta.
Era uma ordem.
— Mãe…
— Gabriel.
Suspirei.
Ela venceu.
Como sempre.
Sentei.
Comecei a comer enquanto ela terminava de arrumar algumas coisas.
— Seu pai já saiu?
— Faz meia hora.
Assenti.
Típico.
Falcão raramente parava.
Desde criança eu observava meu pai trabalhando.
Era impossível não admirá-lo.
Todo mundo respeitava o Falcão.
Mas não porque ele gritava.
Não porque impunha medo.
As pessoas respeitavam meu pai porque ele era justo.
Porque cumpria sua palavra.
Porque protegia quem estava ao lado dele.
E porque daria a vida pelo Imperador sem pensar duas vezes.
Eu cresci querendo ser como ele.
Talvez ainda quisesse.
— A Júlia vai perder a hora — minha mãe comentou.
— Normal.
Ela riu.
Terminei o café.
Peguei minhas chaves.
— Tô indo.
— Se cuida.
— Sempre.
Saí de casa.
O morro já estava acordando.
Comerciantes abrindo portas.
Pessoas indo trabalhar.
Crianças correndo pelas ruas.
Cumprimentei algumas pessoas pelo caminho.
Recebi cumprimentos de volta.
Aquilo nunca foi algo que eu buscasse.
O respeito.
Mas era bom saber que ele existia.
Cheguei ao ponto onde alguns rapazes já estavam reunidos.
Conversei com eles.
Resolvi pequenas questões.
Verifiquei informações.
Passei orientações.
Mais uma manhã comum.
Ou quase.
— Tá com cara de quem dormiu pouco.
Olhei para o lado.
VK.
Vinícius Rocha.
Meu melhor amigo.
Infelizmente.
— E você tá com cara de quem nasceu feio.
Ele colocou a mão no peito.
— Isso foi c***l.
— Mas verdadeiro.
VK começou a rir.
A amizade entre nós existia desde crianças.
Crescemos juntos.
Aprontamos juntos.
Apanhamos juntos.
E sobrevivemos juntos.
Ele era praticamente um irmão.
Um irmão irritante.
Mas ainda assim um irmão.
— Bora trabalhar — falei.
— Chato.
— E você fala demais.
Passamos boa parte da manhã resolvendo assuntos da rotina.
Nada grave.
Nada urgente.
Apenas o funcionamento normal da comunidade.
Era um trabalho que exigia atenção constante.
Um erro pequeno podia virar um problema enorme.
Por isso eu nunca relaxava completamente.
Perto do almoço encontramos um grupo de crianças jogando bola.
Uma delas correu até mim.
— Gabriel!
— Fala, campeão.
— Vai jogar?
Olhei para o relógio.
Depois para o garoto.
— Cinco minutos.
Ele abriu um sorriso enorme.
Às vezes era impossível dizer não.
VK já estava rindo.
— Tu é mole.
— Cala a boca.
— Mole.
— Cala a boca.
Joguei mesmo assim.
Cinco minutos.
Que viraram quinze.
Quando terminamos eu estava suado.
As crianças felizes.
E VK tirando sarro da minha cara.
Nada de novo.
Seguimos o dia.
E durante todo aquele tempo uma coisa era certa.
Eu não pensei na Isabela nem uma única vez.
Porque era assim que funcionava.
Nossas vidas simplesmente não se cruzavam.
Claro que eu a conhecia.
Impossível não conhecer.
Ela era filha do Imperador.
A princesa do morro.
Mas era só isso.
A filha do chefe.
Nada mais.
Nada menos.
Crescemos próximos fisicamente.
Mas distantes em todo o resto.
Enquanto eu passava os dias trabalhando.
Ela passava os dias estudando.
Enquanto eu lidava com problemas reais.
Ela reclamava porque o pai não deixava fazer alguma coisa.
Pelo menos era o que parecia.
Nunca parei para conhecê-la de verdade.
E ela também nunca demonstrou interesse.
Então cada um seguia sua vida.
Simples.
Ou deveria ser.
No início da tarde recebi uma ligação do meu pai.
— Onde você tá?
— Na rua principal.
— Vem aqui.
— Já tô indo.
Desliguei.
Quando Falcão falava daquele jeito, era melhor não demorar.
Cheguei poucos minutos depois.
Meu pai estava conversando com algumas pessoas.
Assim que me viu fez um sinal.
Esperei.
Quando terminou a conversa se aproximou.
— Preciso que você acompanhe uma entrega mais tarde.
— Tranquilo.
— Quero tudo conferido.
— Pode deixar.
Ele assentiu.
Era assim.
Sem discursos.
Sem enrolação.
Objetivo.
Eu gostava disso.
Passamos mais algum tempo conversando sobre trabalho.
Depois seguimos caminhos diferentes.
O restante da tarde foi tranquilo.
Quando finalmente comecei a voltar para casa, já estava cansado.
Aquele tipo de cansaço bom.
De quem passou o dia inteiro produzindo alguma coisa.
Cheguei em casa perto do início da noite.
Assim que entrei ouvi vozes vindo da cozinha.
Minha mãe.
Júlia.
E outra voz.
Isabela.
Nem estranhei.
Ela praticamente fazia parte da família.
Entrei.
— Boa noite.
— Finalmente apareceu — Júlia falou.
— Trabalhando.
— Desculpa, senhor trabalhador.
Ignorei.
Minha mãe riu.
Isabela estava sentada na bancada mexendo no celular.
Como sempre impecavelmente arrumada.
Ela levantou os olhos rapidamente.
— Oi, Gabriel.
— Oi.
Peguei uma garrafa de água.
Bebi alguns goles.
— Como foi o dia? — minha mãe perguntou.
— Normal.
— O dele sempre é normal — Júlia comentou.
— Porque diferente de certas pessoas eu trabalho.
Ela me mostrou o dedo do meio.
Sorri.
Isabela riu.
E por um instante percebi algo estranho.
Não nela.
Na situação.
Porque aquela cena parecia extremamente comum.
Nós quatro ali.
Conversando.
Brincando.
Como uma família.
Talvez porque, de certa forma, fosse isso mesmo.
As famílias do Falcão e do Imperador estavam ligadas há anos.
Muito antes de eu nascer.
Muito antes de Isabela nascer.
Muito antes de qualquer um de nós imaginar como a vida seria.
— Ju, você viu aquele vestido? — Isabela perguntou.
Pronto.
Lá vinha assunto que eu não entendia.
E nem queria entender.
— Vi.
— Perfeito, né?
— Perfeito.
— Caríssimo — minha mãe respondeu.
As duas ignoraram.
Continuei bebendo água.
— Mulheres — murmurei.
— Homens — Júlia rebateu.
Revirei os olhos.
Minha mãe começou a rir novamente.
Depois de alguns minutos subi para meu quarto.
Precisava de um banho.
Precisava descansar.
Precisava de silêncio.
Joguei o celular na cama.
Tirei a camiseta.
Passei a mão pelos cabelos.
E me deixei cair no colchão.
O teto branco ficou diante dos meus olhos.
Pela primeira vez no dia realmente parei.
Sem trabalho.
Sem responsabilidades.
Sem ninguém me chamando.
Apenas eu.
Fechei os olhos.
E pensei em como a vida estava exatamente onde deveria estar.
Minha família estava bem.
Meu pai confiava em mim.
Minha mãe estava feliz.
Júlia continuava sendo uma pestinha.
E o morro seguia em paz.
Naquele momento eu acreditava que nada iria mudar.
Que os dias continuariam iguais.
Que minha rotina seguiria exatamente como sempre foi.
Mal sabia eu que estava completamente errado.
Porque em breve uma simples ordem do Imperador transformaria tudo.
Minha rotina.
Minha paciência.
Minha paz.
E principalmente…
Minha relação com Isabela Monteiro.
A garota que, até aquele momento, era apenas a filha do chefe.
Nada mais.
Nada menos.
Ou pelo menos era isso que eu pensava.