Capítulo 1 — A Princesa do Morro
Isabela Monteiro
Ser chamada de princesa parece incrível quando você é criança.
Quando eu era pequena, adorava.
Adorava quando as pessoas me chamavam de princesa.
Adorava quando meu pai me colocava nos ombros durante as festas da comunidade.
Adorava quando ganhava presentes sem precisar pedir.
Adorava quando todo mundo sorria para mim.
Mas ninguém conta que toda princesa vive presa dentro de um castelo.
E que, às vezes, as grades são invisíveis.
Meu nome é Isabela Monteiro.
Tenho dezenove anos.
Sou filha de Leonardo Monteiro.
Mas ninguém chama meu pai de Leonardo.
Para o morro inteiro ele é apenas uma coisa:
Imperador.
O dono.
O chefe.
O homem que todos respeitam.
Ou temem.
Dependendo do lado em que você está.
Nasci e cresci no Morro da Coroa.
Conheço cada rua, cada viela, cada escadão daquele lugar.
Mas, ao mesmo tempo, sinto que nunca conheci nada de verdade.
Porque meu pai sempre fez questão de me manter protegida de tudo.
Principalmente depois que minha mãe morreu.
Ela faleceu no dia em que eu nasci.
Nunca ouvi sua voz.
Nunca senti seu abraço.
Nunca tive uma única lembrança dela.
Tudo que possuo são algumas fotografias guardadas em uma caixa dentro do meu quarto.
Fotografias que já vi tantas vezes que poderia desenhá-las de olhos fechados.
Meu pai raramente falava sobre ela.
Era um assunto que parecia machucá-lo.
Então aprendi a não perguntar.
Quem acabou ocupando aquele espaço foi outra pessoa.
Carol.
Carolina Alves.
Esposa do Falcão.
Mãe da Júlia e do Gabriel.
Minha segunda mãe.
Talvez até minha primeira, em alguns momentos.
Foi ela quem me ensinou a fazer tranças.
Quem cuidou de mim quando eu ficava doente.
Quem me levava para a escola quando meu pai estava ocupado.
Quem me ensinou a cozinhar um ovo sem colocar fogo na cozinha.
E, principalmente, quem me dava bronca quando eu precisava.
Porque meu pai nunca soube dizer não para mim.
Abri os olhos ao sentir a claridade atravessando as cortinas do quarto.
Estiquei os braços e olhei para o relógio.
Sete e meia.
Soltei um gemido.
Eu odiava acordar cedo.
Virei para o lado.
Fechei os olhos.
Tentei dormir mais cinco minutos.
Não consegui.
O celular vibrou.
Peguei o aparelho na cabeceira.
Uma mensagem da Júlia.
“Já acordou, bela adormecida?”
Revirei os olhos.
“Infelizmente.”
A resposta veio quase instantaneamente.
“Carol fez bolo.”
Sorri.
Aquilo era golpe baixo.
“Tô indo.”
Levantei da cama.
Meu quarto era enorme.
Meu pai insistia em me dar tudo.
Tudo mesmo.
Mas, às vezes, eu trocaria metade das coisas por um pouco mais de liberdade.
Fui para o banheiro.
Tomei banho.
Escovei os dentes.
Arrumei o cabelo.
Passei uma maquiagem básica.
Vesti um conjunto confortável.
Peguei minha bolsa.
Quando desci as escadas encontrei meu pai tomando café.
Ele estava sentado à mesa lendo mensagens no celular.
Mesmo aos quarenta e poucos anos ainda impunha respeito.
Alto.
Forte.
Olhar sério.
Aquele tipo de homem que entrava em um lugar e fazia todo mundo prestar atenção.
— Bom dia.
Ele levantou os olhos.
O rosto endurecido suavizou imediatamente.
— Bom dia, princesa.
Sorri.
Mesmo depois de todos aqueles anos ele ainda me chamava assim.
— Vai para a faculdade depois?
— Vou.
— Motorista vai te levar.
Suspirei.
Lá estava.
A superproteção diária.
— Pai…
— Nem começa.
— Eu sei dirigir.
— E eu sei que o motorista vai te levar.
Revirei os olhos.
— Você é impossível.
— Você também.
Acabei rindo.
Era sempre assim.
Meu pai era firme com o mundo inteiro.
Comigo, nem tanto.
Mas compensava sendo absurdamente protetor.
Peguei uma fruta.
Beijei seu rosto.
— Vou para casa da Carol.
— Tá bom.
— Te amo.
— Também te amo, princesa.
Saí antes que ele resolvesse aumentar minha lista de proibições do dia.
A casa de Carol ficava a poucos minutos dali.
Quando cheguei nem precisei bater.
Entrei direto.
Como fazia desde criança.
— Carol!
— Na cozinha!
Sorri.
O cheiro de bolo já tomava conta da casa inteira.
Entrei e encontrei Carol tirando uma forma do forno.
— Bom dia, minha menina.
Ela abriu os braços.
Fui abraçá-la.
— Isso é covardia.
— O quê?
— Fazer bolo logo cedo.
Ela riu.
— Senta.
Obedeci.
Poucos segundos depois Júlia apareceu.
— Finalmente.
— Cala a boca.
Ela sentou ao meu lado.
Júlia era minha melhor amiga desde sempre.
Praticamente uma irmã.
Crescemos juntas.
Dividimos segredos.
Crushes.
Notas ruins.
Problemas.
Tudo.
— Tem aula hoje? — ela perguntou.
— Infelizmente.
— Eu também.
Fizemos uma careta ao mesmo tempo.
Carol balançou a cabeça.
— Duas preguiçosas.
— Somos estudantes cansadas.
— Claro.
Começamos a rir.
Era fácil estar ali.
Sempre foi.
Aquela casa parecia um refúgio.
Um lugar normal.
Um lugar onde eu podia ser apenas Isabela.
Não a filha do Imperador.
Não a princesa do morro.
Apenas eu.
Estávamos conversando quando ouvi passos.
Nem precisei olhar.
Sabia quem era.
Gabriel.
Ele entrou na cozinha já mexendo no celular.
Alto.
Moreno.
Camiseta preta.
Cara fechada de sempre.
Carol apontou para a mesa.
— Come alguma coisa.
— Depois.
— Gabriel.
— Mãe.
Ela cruzou os braços.
Ele suspirou.
Pegou um pedaço de bolo.
Eu quase ri.
Carol era provavelmente a única pessoa capaz de mandar naquele homem.
Gabriel pegou uma chave em cima da bancada.
— Tô saindo.
— Se cuida — Carol respondeu.
Ele assentiu.
Cumprimentou a irmã.
— Ju.
— Chato.
Depois olhou para mim.
— Bela.
— Gabriel.
E foi isso.
Como praticamente todas as nossas interações.
Ele saiu.
Eu continuei tomando café.
Fim.
Nunca tivemos i********e.
Nunca tivemos amizade.
Nunca tivemos nada.
Eu o conhecia desde criança.
Mas nossas vidas sempre seguiram caminhos diferentes.
Enquanto eu estava na faculdade.
Ele trabalhava.
Enquanto eu passava horas escolhendo roupas.
Ele passava horas resolvendo problemas.
Enquanto eu reclamava da superproteção do meu pai.
Ele ajudava na segurança do morro.
Éramos completos opostos.
E sinceramente?
Eu nunca tinha parado para pensar muito nele.
— Tá olhando o quê? — Júlia perguntou.
— Nada.
— Hum.
Ignorei.
Porque realmente não era nada.
Depois do café fomos para a faculdade.
Passamos a manhã entre aulas, trabalhos e professores que pareciam amar testar nossa paciência.
Quando finalmente fomos liberadas, eu já estava exausta.
— Academia depois? — Júlia perguntou.
— Você sabe que eu odeio.
— E mesmo assim vai.
— Infelizmente.
Ela riu.
O restante do dia seguiu como qualquer outro.
Sem grandes emoções.
Sem acontecimentos importantes.
Sem imaginar que aquela rotina aparentemente comum estava perto de mudar.
Muito perto.
Naquela noite voltei para casa.
Jantei com meu pai.
Conversei sobre a faculdade.
Escutei suas recomendações exageradas de sempre.
Subi para o quarto.
Tomei banho.
Vesti um pijama confortável.
E fui para a varanda.
De lá eu conseguia ver boa parte do morro iluminado.
As luzes espalhadas pelas casas.
As pessoas voltando do trabalho.
As crianças brincando.
Os sons da comunidade.
Eu amava aquele lugar.
De verdade.
Mas às vezes sentia que estava presa.
Como um passarinho em uma gaiola bonita.
Tinha tudo.
Menos liberdade.
Apoiei os braços no parapeito.
Observei o céu escuro.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Sem saber que minha vida estava prestes a mudar.
Sem saber que, em breve, eu seria obrigada a conviver com a última pessoa que escolheria para passar vinte e quatro horas por dia.
Sem saber que Gabriel Alves deixaria de ser apenas o irmão da minha melhor amiga.
E se tornaria a maior confusão da minha vida.
Mas isso ainda estava longe de acontecer.
Naquela noite…
Eu era apenas Isabela Monteiro.
A Princesa do Morro.