CAPITULO 03

1449 Words
Capítulo 3 - A Coroa Queima Meu nome é Leonardo Monteiro, mas faz tempo que ninguém me chama assim. Pro Morro da Coroa eu sou só Imperador. Pro resto do mundo, o homem que não se dobra. Pra mim mesmo, sou só um cara cansado carregando um caixão invisível nas costas. A coroa não veio com festa. Veio com terra na cara. Meu pai, Seu Antenor, morreu numa terça-feira de chuva. Tava com 62 anos e um tiro atravessado no peito. Dizem que foi queima de arquivo. Dizem que foi traição. Eu nunca quis saber. No dia que fecharam o caixão, chovia tanto que parecia que o céu tava lavando o morro inteiro. Eu tinha 28 anos, uma esposa grávida de seis meses e uma raiva que não cabia no peito. No velório, os homens mais velhos me olharam. Não perguntaram se eu queria. Só esperaram. Porque aqui no morro o poder é assim: ele escolhe você antes de você escolher ele. Quando jogaram a primeira pá de terra, eu senti. Não foi dor de luto. Foi peso. Um peso que desceu pela espinha e grudou na alma. Meu pai passou a herança sem testamento, sem discurso. Passou no sangue. Três semanas depois eu descobri o que era. Um cara veio me acertar com um facão no beco da padaria. A lâmina parou no ar, a um palmo da minha barriga, e entortou como se tivesse batido numa parede. O cara saiu correndo, cagado de medo, gritando que eu tava pactuado. Eu não tava. Eu só era filho do meu pai. Aprendi rápido que respeito aqui não vem de conversa. Vem de certeza. Se eu tremesse, o morro desabava. Então parei de tremer. Três meses depois, Isabela nasceu e minha mulher se foi. Ana morreu no parto, sorrindo pra mim e dizendo que a nossa filha ia ser a coisa mais linda do mundo. Foi. Mas levou a mãe junto. Enterrei a Ana do lado do meu pai. E naquele dia eu enterrei outra coisa também: a parte de mim que sabia amar mulher. Não é que faltou convite depois. Mulher bonita nunca faltou em volta de homem com poder. Só que eu não deixo. Não deixo chegar perto de casa, não deixo dormir na minha cama, não deixo conhecer meu cheiro de manhã. Quando o corpo aperta, quando a necessidade de homem fala mais alto, eu sumo. Pego o carro, desço a serra, vou pra cidade vizinha. Hotel sem nome na fachada, quarto com lençol áspero, nome falso na recepção. Uma noite e só. Sem café, sem “me liga”, sem olhar no olho no dia seguinte. É físico. É rápido. É longe da Isabela, longe do Biel, longe de tudo que é sagrado pra mim. Porque se eu deixar alguém entrar, eu abro brecha. E brecha aqui é cova. Minha rotina não tem folga. Acordo às cinco e meia com o barulho dele. Falcão. Não é ave. É Marcelo Alves, meu braço direito, meu irmão de alma. Mas o apelido pegou porque o desgraçado chega voando. Se não é na porta de casa, é no meu telefone. Se não é no telefone, é na minha cabeça, porque eu já espero a merda que ele vai me falar. Cinco e quarenta ele bate na porta da cozinha sem cerimônia. “Tá vivo, Imperador?” “Tô. Infelizmente.” Ele ri, coloca a garrafa térmica na mesa e senta como se fosse dono do lugar. E é. Falcão é o único homem no mundo que entra na minha casa armado e eu não me incomodo. Porque a arma dele sempre apontou pra fora, nunca pra mim. A gente toma café preto, sem açúcar. Fala do movimento, da boca, dos caras novos que tão querendo subir e não sabem a regra. Falcão me atualiza de tudo antes das sete. É leal de um jeito que dá raiva. Se eu mandar ele pular no fogo, ele pergunta de que altura. “Seu menino tá crescendo rápido”, ele diz, e eu sei que tá falando do Gabriel. Biel. Pra ele eu sou Imperador. Pra mim, ele é o filho que a vida não me deu. Veio no pacote quando o Falcão virou minha sombra, há vinte anos. Tinha três anos de idade, chorão, com o joelho ralado. Hoje tem 23, um metro e oitenta de músculos e uma cara fechada que é cópia do pai. Biel trabalha com a gente desde os quinze. Não porque o Falcão pediu. Porque ele quis. E porque eu deixei. Vi no moleque o mesmo fogo que eu tinha. A mesma vontade de provar que não tá aqui por sobrenome. Sete e dez ele encosta o carro no portão. Não buzina. Espera. Eu saio na varanda e vejo os dois: Falcão de braço cruzado, Biel com a prancheta na mão. “Relatório do turno da noite”, Biel fala, sem bom dia. Eu pego. Leio. Pergunto dois ou três detalhes só pra testar se ele sabe. Ele sempre sabe. “VT da entrada norte tá com interferência”, ele completa. “Já mandei trocar.” “Tá certo”, eu respondo. É só isso. Não tem abraço, não tem “bom trabalho, filho”. Não pode ter. Se eu amolecer com ele, os outros acham que é favoritismo. Se os outros acham, a ordem racha. E ordem rachada aqui é guerra. Mas eu vejo. Vejo quando ele protege a Júlia sem ninguém mandar. Vejo quando ele cobre o Falcão numa reunião. Vejo quando ele olha pra Isabela de longe, com aquela cara de quem acha que ela vive num mundo de vidro. Ele não fala, mas eu leio. Biel acha minha filha mimada. Acha que ela não sabe o preço das coisas. E talvez não saiba mesmo. Culpa minha. Eu paguei pra ela não saber. Depois do relatório, eu rodo o morro. Subo a laje, desço a viela, paro na quadra, escuto as mães, os donos de mercadinho, os moleques. Imperador não governa de dentro de casa. Governa no olho. Se eu não apareço, eles esquecem. Se esquecem, testam. Meio dia eu almoço sozinho. Carol sempre manda um prato, porque diz que homem não pode viver de café e raiva. Eu como e não agradeço. Não por maldade. Porque agradecer é criar dívida. E eu não devo nada pra ninguém. De tarde é reunião. Falcão do meu lado, Biel na porta, anotando. A gente decide quem sobe, quem desce, quem vai ter que aprender a respeitar. Minha voz não treme. Não pode tremer. Só de noite, quando o morro aquieta, eu subo pro quarto da Isabela. Ela quase nunca tá. Tem 19 anos e acha que a grade da janela é cadeia. E é. Só que é uma cadeia que mantém ela viva. Eu olho as fotos da Ana na parede. A única coisa que minha filha tem da mãe. “Eu tô tentando, Ana”, eu falo baixo. “Juro que tô.” Isabela chega às onze, com a Júlia. Sente meu cheiro no corredor e já revira os olhos. “Veio me vigiar, pai?” “Vim ver se você tá viva. Ainda posso?” Ela não responde. Bate a porta do quarto. Eu volto pro meu quarto e encaro o teto. O peso na espinha não alivia. Nunca alivia. Às vezes, de madrugada, eu lembro da Ana. Do cheiro dela, da risada, do jeito que ela falava meu nome sem título nenhum. Só Leonardo. Dói. Dói porque faz tempo demais. Aí eu levanto, abro a janela e olho o morro todo lá embaixo, iluminado. Cada luz é uma casa. Cada casa é uma vida que depende de mim não dormir. Falcão me manda mensagem às duas da manhã: “Dormiu?” “Não.” “Nem eu. VT da entrada norte já tá ok.” “Beleza.” É isso. Minha família. Um homem que morreria por mim, o filho dele que eu trato como soldado, e uma filha que me ama e me odeia na mesma medida. O poder que meu pai me deixou não veio com manual. Veio com regra: ou você segura o morro, ou o morro te engole. Eu seguro. Mesmo que pra isso eu tenha que ser pedra. Mesmo que pra isso eu nunca mais saiba o que é ter uma mulher me chamando de amor sem ser por medo ou interesse. Porque no dia que eu fraquejar, não sou só eu que caio. É a Isabela. É o Biel. É o Falcão. É a Carol. É a Júlia. É o Morro da Coroa inteiro. E eu não vou deixar. Nem que essa coroa me queime até o último osso.
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