Ponto de Vista: Tasha
Minha respiração continuava descompassada muito tempo depois que a porta se fechou.
Pressionei as costas das mãos contra as bochechas quentes, tentando desacelerar o ritmo insano do meu coração. As marcas invisíveis do toque dele pareciam queimar na minha pele, especialmente na cintura e no pescoço, onde os dedos grossos e ásperos do Terror tinham se cravado.
Eu deveria sentir raiva. Deveria estar calculando uma rota de fuga ou pensando em como usar o Código Penal para sair daquele pesadelo. Mas a verdade nua e crua é que eu estava completamente hipnotizada. O perigo que ele exalava me atraía de uma forma perturbadora, arrancando a máscara de garota perfeita que eu usei a vida inteira.
Aproximei-me da pia e joguei água fria no rosto. Olhei para o espelho trincado acima da bancada: lábios avermelhados, pupilas dilatadas e o cabelo levemente bagunçado. Que diabos está acontecendo comigo?
Do lado de fora, ouvi passos pesados e decididos subindo a escada de concreto.
A porta se abriu com força, e o Terror passou pela soleira. Ele já tinha colocado uma regata preta limpa, mas a expressão no rosto dele era pura tempestade. Ele trazia um envelope pardo grande nas mãos.
— O que aconteceu? — perguntei, cruzando os braços para esconder a leve tremedeira nos meus dedos. — O que o advogado do meu pai queria?
Ele jogou o envelope em cima da mesa de madeira com um estalo seco.
— O teu pai é mais podre do que eu imaginava, Tasha — a voz dele veio baixa, num tom controlado que dava mais medo do que se ele estivesse gritando. — O advogado dele tentou negociar um acordo por fora. Disse que o coroa paga o valor que for pra eu te entregar... mas com uma condição.
Dei um passo à frente, sobressaltada.
— Que condição?
O Terror me encarou, os olhos escuros brilhando com um desprezo profundo.
— Que tu vá direto pra uma clínica no exterior, internada e incomunicável. Ele quer te declarar como incapaz mentalmente pra anular qualquer depoimento que tu possa dar sobre a pasta da milícia. Se tu pisar fora daqui, ele acaba com a tua vida de outro jeito. Te tranca num quarto branco pra sempre.
O chão pareceu sumir sob os meus pés. Senti a garganta fechar. Meu próprio pai preferia me internar como louca a ver o nome dele na lama.
Desta vez, não houve lágrimas. Apenas um frio congelante espalhando-se pelas minhas veias, transformando toda a mágoa em raiva pura.
O Terror caminhou até mim devagar, reduzindo a distância até parar bem na minha frente. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com toda a brutalidade dele, tirou uma mecha de cabelo do meu rosto.
— Tu percebeu agora? — murmurou ele, com o rosto a centímetros do meu. — Tu não tem mais pra onde voltar, patricinha. O teu mundo te descartou.
Olhei bem no fundo dos olhos dele, sustentando o olhar com uma firmeza que nem eu sabia que tinha.
— Então eu crio um mundo novo — respondi, com a voz firme. — Eu não vou pra clínica nenhuma. E não vou deixar aquele homem sair impune.
O Terror deu um sorriso lento, sombrio e carregado de uma satisfação perigosa. Ele segurou a minha nuca com a mão quente, puxando-me devagar para perto dele.
— É essa marra que me enlouquece... — sussurrou contra a minha boca, o hálito quente roçando os meus lábios. — Tu acabou de assinar o teu pacto com o d***o, Tasha. Agora tu é minha aliada. E o que é meu... ninguém toca.