CAPÍTULO 1
Tasha Narrando
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O ar-condicionado do restaurante universitário não dava conta do calor abafado do fim de tarde, mas para mim, o clima frio do lado de fora parecia ainda mais distante. Terminei de arrumar o caderno na mochila, ajeitando o casaco de grife no braço. A aula de Direito Penal tinha terminado há dez minutos, e a minha cabeça ainda fervia com os debates sobre justiça, leis e dever social.
Lá fora, o pátio da faculdade privada estava movimentado. Carros importados, conversas fúteis sobre festas de fim de semana e risadas altas. O meu mundo sempre foi esse: limpo, organizado, protegido. Filha de um dos delegados mais respeitados do Estado, eu cresci sabendo que o nome da minha família carregava autoridade e respeito.
Caminhei até o estacionamento privativo, pegando o celular na bolsa para avisar o motorista que já estava saindo. O sol começava a se pôr no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e escuros.
Foi quando percebi o silêncio estranho no canto do estacionamento.
Duas figuras surgiram de trás do utilitário preto estacionado logo ao lado do meu carro. Eram homens altos, de postura rígida e panos escuros cobrindo metade dos rostos. Antes que eu pudesse dar um passo para trás ou gritar, um deles se aproximou com uma rapidez assustadora, segurando o meu braço com a força de uma prensa de ferro.
— Fica quietinha, patricinha. Nem pensa em dar um piu — um deles rosnou, a voz grave e áspera, mostrando o cabo de uma pistola preta presa na cintura.
O meu coração disparou, batendo contra as minhas costelas como um animal enjaulado. A minha mente de estudante de Direito tentou processar a cena: Sequestro relâmpago? Assalto?
— Vocês não sabem o que estão fazendo — consegui dizer, tentando manter a voz firme, embora as minhas mãos tremessem. — O meu pai é o delegado. Se vocês me tocarem...
Uma risada baixa e fria ecoou de trás de mim.
Não era a voz do homem que me segurava. Era uma voz diferente. Pausada, profunda, sem pressa nenhuma.
Um terceiro homem deu um passo à frente, saindo da sombra da van. Ele vestia um casaco escuro da Lacoste, corrente pesada de ouro no pescoço e trazia o olhar mais frio que eu já tinha visto na vida. Não havia máscara no rosto dele. Ele não fazia questão nenhuma de esconder quem era. Ele me encarava como se eu fosse um objeto que ele tinha acabou de comprar.
ele se aproximou devagar, parando a centímetros de mim. O cheiro de perfume amadeirado misturado com fumo exalava dele.
— O teu pai é o delegado? — ele perguntou, dando um sorriso fraco, que não chegou nem perto dos olhos. — É exatamente por isso que tu tá entrando nesse carro agora, garota.
— Solta ela, Chefe? — o homem ao lado perguntou.
— Coloca ela no banco de trás. Sem palhaçada.
Antes que eu pudesse reagir ou tentar se soltar, fui empurrada para dentro do veículo de vidros filmados. A porta de correr bateu com um estrondo seco, e o motor roncou forte antes do carro acelerar aceleradamente, deixando para trás a faculdade, a minha rotina e a ilusão de segurança em que vivi a minha vida inteira.
O trajeto pareceu durar uma eternidade. O carro subia ladeiras íngremes, fazia curvas fechadas e o som de buzinas e conversas da rua foi gradativamente substituído pelo eco característico das vielas do morro. Eu conhecia aquela fama. Todo mundo na cidade sabia quem mandava ali em cima.
Quando o carro finalmente parou, fui tirada de lá e guiada rapidamente por uma escadaria de cimento até uma casa no topo da comunidade. O lugar era limpo, mas rústico. Paredes de tijolo aparente, uma porta de ferro pesada e pouca iluminação.
Fui deixada sozinha num quarto com apenas uma cama de solteiro e uma cadeira.
A minha respiração estava descontrolada, mas recusei-me a chorar. Limpei o suor da testa e sentei-me na borda da cama, mantendo o queixo erguido. Eu sou filha do Delegado. O meu pai vai encontrar este lugar. Ele vai acabar com cada um deles.
Minutos depois, o som de passos lentos e pesados no piso de cimento anunciou a chegada dele. A porta de ferro rangeu ao abrir, mas eu não me encolhi.
Ele parou a poucos passos de distância. Tinha as mãos nos bolsos do agasalho e aquele mesmo olhar desprovido de qualquer traço de humanidade.
— Vai ficar me encarando com essa cara de braba até quando, patricinha? — a voz dele saiu baixa, sem pressa nenhuma.
— O meu pai vai revirar este morro de ponta-cabeça — disparei, mantendo o tom firme. — Ele é delegado. Vai colocar a polícia toda aqui dentro. Se você acha que vai me usar de refém pra conseguir alguma coisa, tá muito enganado. Ele caça gente como você no café da manhã.
O dono do morro encarou-me em silêncio por alguns segundos. Depois, deu uma risada curta, debochada, sem nenhuma sombra de humor.
— Teu pai caça quem, garota? — ele deu dois passos pra frente, se inclinando na minha direção. — Teu pai é o mesmo comédia que me mandou dar um p*u desgarçado numa cela escura quando eu tinha dezessete anos. Sabe por quê? Porque eu não quis fechar no esquema de propina e na milícia dele. O teu "coroa exemplar" é só um bandido de farda, da pior espécie.
Senti o meu peito dar um nó.
— Você tá mentindo. Tá inventando essa história podre pra tentar justificar a m**** que tá fazendo.
Ele tirou a mão do bolso, pegou uma pasta amarela grossa que estava debaixo do braço e jogou em cima do colchão, do meu lado.
— Abre essa p***a aí — ordenou, seco.
— Eu não vou abrir nada que venha de você.
— Abre a p***a da pasta! — cortou ele, o olhar escurecendo na hora. — Dá uma olhada no dinheiro que pagou tua faculdade de playboy, teus carros e tuas viagens. Tudo contabilidade da milícia dele, fotos, recibo de extorsão contra morador que não tinha nem o que comer. Tudo assinado pelo teu pai.
Com as mãos tremendo, peguei na pasta e abri. Conforme passava as páginas — papéis com o símbolo da polícia, relatórios e comprovantes —, a cor do meu rosto foi sumindo por completo.
— Isso... isso não prova nada. Podem ter armado pra ele... — a minha voz vacilou pela primeira vez.
Ele deu mais um passo, ficando em cima de mim. Apoiou a mão na parede do lado da minha cabeça, prendendo-me ali.
— Teu pai não tá vindo te salvar não, patricinha. Ele vem pra me apagar. Porque se essa pasta cai na rede, a farda dele não vale bosta nenhuma. Ele prefere te ver no paletó de madeira do que ver o império dele ir pro ralo.
Olhei bem nos olhos dele, procurando alguma hesitação, mas só encontrei uma frieza absurda.
— E você? O que você quer de mim? — perguntei, engolindo em seco.
O dono do morro olhou pra minha cara, reparando em como eu ainda segurava o choro e mantinha a marra. Um canto da boca dele subiu num sorriso sombrio.
— No começo, eu só queria ver o teu pai de joelhos, comendo poeira — disse ele, baixando a voz. — Mas agora? Agora eu quero ver até onde vai essa tua banca quando tu se tocar que tua vida inteira foi uma mentira. Tu não sai daqui até aprender quem é que manda nessa p***a.
Cresci acreditando que meu pai era o herói da cidade e que o mundo era dividido estritamente entre o certo e o errado. Fui criada no luxo, estudo Direito Penal na melhor faculdade e sempre tive meu futuro desenhado passo a passo. Mas minha vida perfeita ruiu no segundo em que fui arrastada para um carro no estacionamento da faculdade. Presa no topo do morro, descobri que minha vida inteira foi financiada por um monstro de farda. Agora, dividida entre a dor da traição do meu pai e a atração perigosa pelo meu captor, preciso encontrar uma forma de sobreviver sem me perder.