Terror Narrando.
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Desci a escadaria de cimento da casa do topo sentindo o vento frio da noite bater no meu rosto. Acendi um cigarro, soltando a fumaça devagar enquanto olhava a vista lá de cima. O morro estava aceso, o som de funk ecoando de fundo, os cria posicionados nas ruelas. Tudo sob controle. Do jeito que sempre foi.
Apertei o passo até a viela principal, onde o menor já me esperava encostado na contenção.
— E aí, Chefe? A patricinha deu muito trabalho? — perguntou, ajeitando o rádio na cintura.
— Tá achando que tá num filme — respondi, seco, tragando o cigarro. — Acha que o pai dela é herói de farda. Já joguei a pasta na mão dela pra parar de ser tonta.
— E o coroa? O rádio da polícia tá fervendo. O homem tá maluco, mandou fechar os acessos do asfalto.
Dei uma risada curta. O desespero do delegado era música para os meus ouvidos.
Eu passei dez anos esperando por esse momento. Dez anos com a marca daquele cassetete na minha costela e a lembrança de ficar jogado num chão mofado de cela só porque não me curvei pro esquema de propina dele. Naquela época, eu era só um moleque tentando sustentar minha família no morro. Ele tentou me quebrar pra eu virar bucha de canhão da milícia dele. Mas ele só conseguiu uma coisa: apagar qualquer resto de pena ou humanidade que tinha em mim.
Eu não sinto nada. Não sinto remorso, não sinto medo, não sinto amor por ninguém. Minha mente funciona na base da tática e da sobrevivência.
O plano era simples: pegar a garota, jogar as provas na cara dela, fazer o delegado surtar até ele cometer um erro e se entregar pra não ver a podridão dele exposta no jornal. Uma jogada fria de xadrez.
Mas tinha um detalhe fora da conta.
A garota.
Qualquer outra pessoa na posição dela já estaria chorando, implorando pela vida, sujando a roupa de pânico. Mas ela não. Mesmo quando a cor do rosto dela sumiu ao ver a assinatura do pai nos papéis da milícia, ela manteve o queixo erguido. Sustentou o olhar no meu sem piscar. Tinha uma fúria e uma coragem ali que não combinavam com o mundo de playboy de onde ela veio.
Subi de volta até o terraço da casa e fiquei olhando pela janela pequena da porta do quarto. Ela estava lá dentro, sentada na beira da cama, com as mãos na cabeça e a pasta aberta ao lado. Não tinha uma lágrima no rosto dela. Só o choque e a mente tentando juntar os pedaços de uma vida inteira de mentiras.
Apertei os punhos dentro do bolso do agasalho.
Pela primeira vez em anos, senti um arrepio estranho na espinha. Não era pena — eu não sei o que é isso. Era uma vontade sombria de dominar aquela marra toda. De ver até onde aquela garota aguentava antes de quebrar de vez. Ela achava que o pai era o dono da verdade dela, mas agora a vida dela estava na minha mão.
Ela não era mais só uma peça no meu jogo de vingança contra o delegado. Ela tinha virado minha prioridade.
Peguei o rádio na cintura e apertei o botão, sem tirar os olhos dela pela fresta.
— Dobra a segurança no topo do morro. Se a polícia tentar entrar, mete bala. A garota não sai daqui nem morta.
Registrado como Fernando, mas no morro só me chamam de Terror. Não sinto empatia, não sinto remorso e nunca senti amor por ninguém na vida. O que sou hoje foi moldado na dor e na violência de um passado onde um delegado corrupto tentou me matar só porque não me curvei à milícia dele. Hoje, eu comando tudo. Tenho meu império, minha lei e uma frieza cirúrgica para destruir quem atravessar meu caminho. Pegar a filha dele era só uma jogada fria de xadrez para cobrar uma dívida do passado... até ver que a patricinha não se curva a mim. Ela pensa que vai sair daqui ilesa, mas não sabe que se tornou minha maior obsessão.