Tasha Narrando.
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O silêncio do quarto parecia pesar toneladas.
Minhas mãos ainda tremiam enquanto meus olhos repassavam, pela décima vez, as assinaturas no rodapé daqueles papéis. A caligrafia era inconfundível. O carimbo do departamento, o símbolo da Polícia Civil... tudo ali era real. O homem que me levava ao parque nos fins de semana, que se orgulhava do meu ingresso na faculdade de Direito e que pregava sobre moralidade na mesa do jantar era o mesmo que financiava um império de extorsão e violência.
A sensação era de ter sido empurrada de um precipício sem fim. Tudo o que eu conhecia sobre a minha própria vida era uma mentira construída com o dinheiro e o sangue de outras pessoas.
Tentei engolir o choro, mas uma lágrima quente acabou escapando e pingando direto na pasta amarela. Limpei o rosto rapidamente com as costas da mão. Não. Eu não vou quebrar na frente dele.
Do lado de fora, o som de rajadas de fogos e o barulho alto de motores de moto cortavam a noite do morro. A qualquer momento, a polícia poderia invadir. A qualquer momento, o meu pai poderia mandar entrar atirando para destruir tudo — inclusive as provas que me matavam por dentro. E foi aí que o aviso dele ecoou na minha cabeça: “Ele prefere te ver no paletó de madeira do que ver o império dele ir pro ralo.”
O rangido da porta de ferro me fez erguer a cabeça num estalo.
Ele entrou sem fazer barulho. Tinha trocado o casaco por uma regata preta, deixando à mostra os braços fechados de tatuagens e as cicatrizes antigas no ombro. Trazia um prato com comida numa das mãos e uma garrafa de água na outra.
— Come aí — disse ele, colocando a bandeja em cima de uma mesa pequena de madeira perto da porta. — Não quero defunto no meu cativeiro.
— Eu não tô com fome — respondi, mantendo a voz fria, embora minha garganta estivesse seca.
Ele se encostou no batente da porta, cruzando os braços e me encarando com aquele olhar perturbadoramente calmo. Era assustador como ele não demonstrava raiva, pressa ou qualquer emoção humana básica. Ele só me observava, como um predador estudando a presa.
— Vai fazer greve de fome agora, patricinha? — deu um sorriso debochado de canto. — Guarda essa marra pra quando teu pai tentar invadir isso aqui. Porque quando a chapa esquentar, não vai ter papai pra te proteger.
— Se ele vier... você vai me matar? — perguntei direto, olhando bem no fundo dos olhos dele.
O dono do morro deu dois passos lentos na minha direção. O ar do quarto pareceu ficar mais pesado instantaneamente. Ele se inclinou na minha altura, tão perto que eu podia ver as pequenas cicatrizes perto da sobrancelha dele e sentir o calor da sua pele.
— Te matar? — ele murmurou, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Tu vale muito mais viva pra mim, garota. Tu é a única coisa que tá fazendo o teu pai surtar e perder o controle.
Ele estendeu a mão lentamente. Recusei-me a recuar, embora meu coração estivesse disparado. Os dedos grossos e ásperos dele tocaram o meu queixo, erguendo o meu rosto com uma firmeza que não me deixava opção a não ser encará-lo.
— Além disso... — ele continuou, o olhar descendo rapidamente para os meus lábios antes de voltar para os meus olhos —, eu gostei da tua banca. Todo mundo que entra aqui chora e se ajoelha. Tu não. Tu me olha como se fosse dona da p***a toda.
— Eu não tenho medo de você — menti, sustentando o toque dele com a cabeça erguida.
Ele soltou meu queixo devagar, mas não se afastou. Um brilho sombrio e possessivo passou pelos seus olhos.
— Deveria ter — sussurrou ele. — Porque do teu pai tu já descobriu a verdade. Mas de mim... tu não sabe nem metade do que eu sou capaz de fazer pra manter o que é meu.