CAPITULO 4

811 Words
Ponto de Vista: Terror (Fernando) ​O rádio na minha cintura não parava de chiar. ​— Visão, Chefe! Três viaturas descaracterizadas encostaram na subida do morro. É a milícia do coroa. Estão tudo armado até os dentes. ​Apertei o botão do rádio, mantendo a voz tranquila, sem me alterar. ​— Deixa subir até metade. Quando dobrarem a curva do beco, encurrala. Não é pra matar ninguém por enquanto, só dá o aviso. Metralha o pneu dos carros e manda eles voltarem pro asfalto. ​Desliguei o rádio e dei uma tragada no cigarro. O Delegado estava desesperado. Ele sabia que cada hora que a Tasha passava aqui em cima era uma hora a mais com a podridão dele exposta. Ele não estava com medo de ela se machucar; estava com medo de ela falar. ​Caminhei de volta para o quarto do cativeiro. Quando abri a porta, a Tasha estava em pé perto da janela pequena, olhando para as luzes da favela. Ela nem piscou quando entrei, mas vi o ombro dela tensionar. ​— O teu pai mandou os cachorros dele tentarem a sorte — falei, encostando na parede. — Parece que ele tá com apressa de te buscar. Ou de calar a minha boca. ​Ela se virou devagar. Tinha os olhos levemente vermelhos, mas a expressão continuava fechada, dura. ​— E você vai fazer o quê? Vai transformar o morro num campo de guerra por causa de uma vingança pessoal? — a voz dela saiu firme. ​— Eu não transformo nada, patricinha. Quem trouxe a guerra pra cá foi ele há dez anos — dei dois passos na direção dela. — Tu acha que eu queria ter essa vida? Tu acha que eu nasci querendo ser chamado de Terror? ​— Todo mundo tem escolhas, Fernando — ela disparou, usando o meu nome de registro pela primeira vez. ​O som do meu nome na boca dela soou estranho. Destoava de tudo aqui dentro. Fez um arrepio incômodo subir pela minha espinha. ​Aproximei-me até ficar a poucos centímetros do rosto dela. A Tasha recuou um passo, mas a parede das minhas costas cortou a fuga dela. Ajoelhei o corpo ligeiramente para ficar na altura dos olhos dela, prendendo-a no meu campo de visão. ​— Fernando morreu naquela cela escura quando o teu pai mandou me espancar até eu cuspir sangue, Tasha — sussurrei, a voz rouca. — O que sobrou foi o Terror. E o Terror não deixa nada pela metade. ​— Você pode tentar fingir que é um monstro sem coração — ela encarou-me no fundo dos olhos, sem recuar um milímetro —, mas eu sei que você quer que ele pague pelo que fez. Não por dinheiro. Por justiça. ​Dei uma risada curta, sem humor nenhum, embora o meu peito estivesse queimando com a audácia dela. Ela estava tentando ler a minha mente, tentando achar uma brecha na minha carcaça. ​— Justiça é palavra de playboy na faculdade, garota — passei as costas dos meus dedos pelo rosto macio dela, sentindo-a estremecer com o meu toque áspero. — Aqui no morro, a gente chama isso de acerto de contas. E tu vai assistir de camarote o teu pai cair. ​Antes que ela pudesse responder, o rádio na minha cintura voltou a tocar, cortando o ar pesado entre nós. ​— Chefe! O Delegado tá na linha direta do rádio do resgate. Ele quer falar contigo agora! ​Olhei para a Tasha. Um brilho de expectativa surgiu nos olhos dela, mas a frieza no meu rosto não mudou. Peguei o rádio, apertei o botão e coloquei no alto-falante. ​— Fala, Delegado — disse, seco. ​A voz do pai dela veio carregada de ódio e ruído de fundo: ​— Fernando, seu desgraçado! Solta a minha filha agora ou eu vou derrubar esse morro tijolo por tijolo! Eu te mato, seu verme! ​Dei um sorriso sombrio, olhando fixamente para a Tasha, que prendeu a respiração. ​— Tu já tentou me matar uma vez numa cela, Delegado, e falhou — respondi no rádio, a voz baixa e ameaçadora. — Agora a tua filha tá aqui do meu lado. Ela já leu a tua pasta amarela. Ela já sabe o pai lixo que tem. Se tu der mais um passo no meu território, a história da tua milícia vai parar na capa de todos os jornais antes do amanhecer. ​O silêncio do outro lado da linha foi imediato. O Delegado tinha travado. ​Desliguei o rádio e olhei para a Tasha. A máscara de perfeição da família dela tinha acabado de ruir por completo. ​— Viu só? — murmurei, aproximando-me do ouvido dela. — Ele não perguntou se tu tava bem. Ele só ameaçou. Tu ainda acha que ele se importa contigo?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD