Ponto de Vista: Terror (Fernando)
O rádio na minha cintura não parava de chiar.
— Visão, Chefe! Três viaturas descaracterizadas encostaram na subida do morro. É a milícia do coroa. Estão tudo armado até os dentes.
Apertei o botão do rádio, mantendo a voz tranquila, sem me alterar.
— Deixa subir até metade. Quando dobrarem a curva do beco, encurrala. Não é pra matar ninguém por enquanto, só dá o aviso. Metralha o pneu dos carros e manda eles voltarem pro asfalto.
Desliguei o rádio e dei uma tragada no cigarro. O Delegado estava desesperado. Ele sabia que cada hora que a Tasha passava aqui em cima era uma hora a mais com a podridão dele exposta. Ele não estava com medo de ela se machucar; estava com medo de ela falar.
Caminhei de volta para o quarto do cativeiro. Quando abri a porta, a Tasha estava em pé perto da janela pequena, olhando para as luzes da favela. Ela nem piscou quando entrei, mas vi o ombro dela tensionar.
— O teu pai mandou os cachorros dele tentarem a sorte — falei, encostando na parede. — Parece que ele tá com apressa de te buscar. Ou de calar a minha boca.
Ela se virou devagar. Tinha os olhos levemente vermelhos, mas a expressão continuava fechada, dura.
— E você vai fazer o quê? Vai transformar o morro num campo de guerra por causa de uma vingança pessoal? — a voz dela saiu firme.
— Eu não transformo nada, patricinha. Quem trouxe a guerra pra cá foi ele há dez anos — dei dois passos na direção dela. — Tu acha que eu queria ter essa vida? Tu acha que eu nasci querendo ser chamado de Terror?
— Todo mundo tem escolhas, Fernando — ela disparou, usando o meu nome de registro pela primeira vez.
O som do meu nome na boca dela soou estranho. Destoava de tudo aqui dentro. Fez um arrepio incômodo subir pela minha espinha.
Aproximei-me até ficar a poucos centímetros do rosto dela. A Tasha recuou um passo, mas a parede das minhas costas cortou a fuga dela. Ajoelhei o corpo ligeiramente para ficar na altura dos olhos dela, prendendo-a no meu campo de visão.
— Fernando morreu naquela cela escura quando o teu pai mandou me espancar até eu cuspir sangue, Tasha — sussurrei, a voz rouca. — O que sobrou foi o Terror. E o Terror não deixa nada pela metade.
— Você pode tentar fingir que é um monstro sem coração — ela encarou-me no fundo dos olhos, sem recuar um milímetro —, mas eu sei que você quer que ele pague pelo que fez. Não por dinheiro. Por justiça.
Dei uma risada curta, sem humor nenhum, embora o meu peito estivesse queimando com a audácia dela. Ela estava tentando ler a minha mente, tentando achar uma brecha na minha carcaça.
— Justiça é palavra de playboy na faculdade, garota — passei as costas dos meus dedos pelo rosto macio dela, sentindo-a estremecer com o meu toque áspero. — Aqui no morro, a gente chama isso de acerto de contas. E tu vai assistir de camarote o teu pai cair.
Antes que ela pudesse responder, o rádio na minha cintura voltou a tocar, cortando o ar pesado entre nós.
— Chefe! O Delegado tá na linha direta do rádio do resgate. Ele quer falar contigo agora!
Olhei para a Tasha. Um brilho de expectativa surgiu nos olhos dela, mas a frieza no meu rosto não mudou. Peguei o rádio, apertei o botão e coloquei no alto-falante.
— Fala, Delegado — disse, seco.
A voz do pai dela veio carregada de ódio e ruído de fundo:
— Fernando, seu desgraçado! Solta a minha filha agora ou eu vou derrubar esse morro tijolo por tijolo! Eu te mato, seu verme!
Dei um sorriso sombrio, olhando fixamente para a Tasha, que prendeu a respiração.
— Tu já tentou me matar uma vez numa cela, Delegado, e falhou — respondi no rádio, a voz baixa e ameaçadora. — Agora a tua filha tá aqui do meu lado. Ela já leu a tua pasta amarela. Ela já sabe o pai lixo que tem. Se tu der mais um passo no meu território, a história da tua milícia vai parar na capa de todos os jornais antes do amanhecer.
O silêncio do outro lado da linha foi imediato. O Delegado tinha travado.
Desliguei o rádio e olhei para a Tasha. A máscara de perfeição da família dela tinha acabado de ruir por completo.
— Viu só? — murmurei, aproximando-me do ouvido dela. — Ele não perguntou se tu tava bem. Ele só ameaçou. Tu ainda acha que ele se importa contigo?