CAPÍTULO 10

597 Words
Ponto de Vista: Delegado Roberto Enchi o copo de uísque barato até a metade e joguei o líquido goela abaixo de uma vez só, sentindo a garganta queimar. A janela do meu gabinete no departamento dava para as luzes da zona sul, mas a minha cabeça estava presa no topo daquele morro maldito. — O senhor precisa se acalmar, Delegado — disse Dr. Hermes, meu advogado, ajustando os óculos no nariz enquanto fechava a pasta de documentos. — O Fernando não aceitou a proposta da internação. O garoto é irredutível. — Aquele verme desgraçado... — rosnuei, socando a mesa de p*u-brasil com força suficiente para fazer os papéis saltarem. — Eu devia ter estourado os miolos dele há dez anos! Deixei ele vivo por pena, por achar que ele era só mais um pé de chinelo, e agora aquele favelado tá achando que me tem nas mãos! Caminhei até o quadro de avisos na parede e encarei a foto da Tasha. A minha filhinha perfeita. A garota que eu criei num berço de ouro, pagando a melhor faculdade de Direito com o dinheiro que cobrava da milícia para fechar os olhos na periferia. Ela leu a pasta amarela. Eu sabia disso no segundo em que ouvi a voz daquele desgraçado no rádio. — E a menina, doutor? — perguntou Hermes, baixo. — Se ela abrir a boca para o Ministério Público ou para a Corregedoria... — A Tasha não sabe nada do mundo real — interrompi, a voz fria como gelo. — Ela é mimada, romântica, achava que o pai era um herói de filme. Ela tá em choque. Mas se ela ousar me trair por causa daquele bandido, não vai ter laço de sangue que a salve. O meu plano inicial de resgate no Beco do Fogo tinha sido um fracasso por causa do afobamento dos meus homens. Eles subiram o morro igual bicho tonto e foram recebidos a tiro de fuzil. Eu não podia cometer o mesmo erro duas vezes. Se o morro virasse uma praça de guerra de novo, a imprensa ia em cima, a Corregedoria ia começar a checar as minhas chamadas e o meu império desmoronaria em 48 horas. Eu precisava de estratégia. — O que o senhor vai fazer agora? — perguntou o advogado, apreensivo. Voltei para trás da minha mesa e me sentei, tamborilando os dedos na madeira fria. Um sorriso c***l e bem desenhado começou a surgir nos meus lábios. — O Fernando acha que é o dono da razão porque tá com a minha filha e com a pasta — falei, pegando o telefone confidencial na gaveta. — Mas ele esquece que o morro não é feito só de aliados. Todo favelado tem um inimigo no morro vizinho querendo a cabeça dele. — O senhor vai se aliar com a facção rival? — Eu vou mandar o BOPE e o Choque cercarem as saídas do morro no final da semana, cortando a água e o sinal de celular. Enquanto o Fernando estiver focado na polícia no pé do morro, os caras da favela rival entram por trás, pelo matal. Eles querem o ponto, e eu quero a cabeça do Fernando e a Tasha trancada num carro blindado antes do amanhecer. Peguei o copo de uísque e o ergui na direção da janela. — Ele acha que tá jogando xadrez comigo... mas esquece que fui eu que ensinei esse jogo pra ele. A Tasha vai pra clínica, por bem ou por m*l, e o Fernando vai terminar o serviço que eu comecei há dez anos: dentro de uma vala.
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