Tasha Narrando
O sol nasceu alaranjado entre as frestas da janela alta, cortando a penumbra do quarto com filetes de luz quente. Não dormi um segundo sequer. O som distante das sirenes no asfalto misturado com o eco das vozes dos homens do morro mantiveram cada nervo do meu corpo em alerta máximo.
A ficha de que meu pai havia mandado homens armados atirarem sem se importar se eu estava ali dentro continuava cravada no meu peito como um pedaço de vidro. A dor não era só pelo medo de morrer; era a ruína completa de toda a minha identidade. Toda a minha vida de privilégios e orgulho tinha sido construída sobre a sujeira de uma farda.
A porta de ferro rangeu, quebrando o silêncio do ambiente.
O Terror entrou sem bater, trazendo um cheiro forte de café recém-passado e cigarro. Ele vestia uma camisa preta limpa, mas os olhos continuavam escuros, frios e atentos, carregando o peso da noite de guerra.
— Levanta, patricinha — disse ele, deixando uma caneca de alumínio fumaçando sobre a mesa pequena. — Tu não vai passar o dia mofando nesse quarto.
Olhei para ele com desconfiança, sem me mexer na beira do colchão.
— Para onde você vai me levar? — perguntei, tentando manter o tom firme.
— Tu vai ver o resultado da palhaçada do teu pai — respondeu seco, caminhando até a porta e fazendo um sinal com a cabeça. — E nem pensa em tentar gracinha. O morro inteiro tá com o cano quente hoje.
Ajeitei o casaco de grife no corpo e me levantei. Caminhar para fora daquele quarto pela primeira vez foi estranho. A casa do topo tinha um terraço amplo de cimento queimado que dava uma visão panorâmica e assustadora da comunidade. De lá de cima, dava para ver a fumaça preta ainda subindo do Beco do Fogo e marcas de projéteis em algumas paredes de tijolo aparente.
Havia homens armados posicionados nas lajes e nas vielas. Conforme eu caminhava ao lado dele, sentia todos os olhares caindo sobre mim. Eu era a intrusa, a filha do inimigo. Mas ninguém dizia uma palavra ou dava um passo em nossa direção; o respeito — ou o pavor — que eles tinham pelo Terror era absoluto.
— Eles têm medo de você — murmurei, mantendo o olhar firme no horizonte enquanto o vento do morro bagunçava meu cabelo.
Ele parou ao meu lado na amurada do terraço, acendendo um cigarro e soltando a fumaça devagar.
— Medo mantém as pessoas vivas por aqui, Tasha — a voz dele saiu baixa, rouca. — Respeito tu conquista, mas o medo garante que ninguém te adentre pelas costas.
— E você acha que pode controlar tudo assim? Pela força e pelo medo?
O Terror virou o rosto para me encarar. Ficamos tão próximos que pude ver o reflexo do sol nos olhos dele. Ele deu um passo largo na minha direção, me encurralando suavemente contra a mureta de cimento.
— Eu não acho nada, garota, eu faço — ele falou, a voz caindo para um tom perigosamente baixo, aproximando o rosto do meu. — O teu pai tentou controlar tudo com mentiras e farda. Eu controlo com a verdade crua. E a verdade é que hoje tu só tá respirando esse ar porque eu decidi te manter viva.
Engoli em seco, sentindo meu peito subir e descer rapidamente. O contraste entre a ameaça das palavras dele e o calor que o corpo dele emanava perto do meu me deixava completamente desorientada.
— Você não é o dono do mundo, Fernando — desafiei, usando o nome dele de novo, recusando-me a baixar a cabeça.
Um sorriso sombrio e quase imperceptível surgiu no canto dos lábios dele. Ele levou a mão até meu pescoço, pousando o polegar com leveza sobre a minha jugular, sentindo meu pulso acelerado.
— Do mundo não, patricinha... — sussurrou ele, o olhar fixo na minha boca. — Mas desse morro aqui, e de tudo o que tá dentro dele agora, eu sou.