CAPÍTULO 6

713 Words
Ponto de Vista: Terror (Fernando) O som dos tiros de fuzil ecoava pelas ruelas como trovões em sequência. O Beco do Fogo estava em chamas. Aquele desgraçado do Delegado achou mesmo que podia mandar a milícia dele entrar no meu território sem tomar o troco. Ele achou que eu era o mesmo moleque de dezessete anos que ele espancou e deixou sangrando numa cela escura. Mas hoje quem dava as cartas era eu. Desci a escadaria da casa do topo já com a arma em riste, o rádio gritando sem parar na minha cintura. — Visão, Chefe! Eles tão tentando avançar pelo lado da associação! Tão atirando em tudo! — Cerca a ruela da esquerda e tranca a saída do asfalto! — ordenei pelo rádio, a voz firme, sem pânico. — Ninguém entra, ninguém sai. Se tiver de farda ou com a cara coberta de miliciano, deita. Corri entre os becos, sentindo o cheiro de pólvora e fumaça impregnar o ar. Os cria já estavam posicionados na contenção, segurando o avanço dos caras. A milícia do coroa não veio pra resgatar ninguém; vieram igual bicho doido pra tentar me apagar e queimar qualquer prova antes que a mídia soubesse da pasta. Avistei dois carros pretos no pé do morro, com homens armados até os dentes atirando pra cima. Miro seco, sem hesitar. Puxo o gatilho. Dois disparos precisos. Um dos milicianos cai na hora, e o outro se joga atrás do capô, gritando de dor. — É O TERROR, p***a! — um dos meus cria gritou ao meu lado, metendo bronca no fuzil. — DAQUI VOCÊS NÃO PASSAM! Em menos de vinte minutos de confronto intenso, a milícia percebeu que tinha entrado numa armadilha. Sem o fator surpresa e vendo que o morro inteiro estava fechado com o comando, os carros deram ré cantando pneu, em pânico, voltando pro asfalto e deixando para trás o rastro de destruição. Respirei fundo, o peito subindo e descendo devagar, a adrenalina pulsando nas veias. O Delegado tinha falhado de novo. Mas o desespero dele me deu uma certeza: ele ia tentar uma loucura ainda maior. E a Tasha era a chave de tudo. Subi de volta para o topo do morro a passos largos. A minha cabeça não estava no confronto que tinha acabado de vencer; estava na garota que deixei trancada no quarto. Quando abri a porta de ferro com um estrondo, encontrei a Tasha de pé no meio do quarto. Os olhos dela estavam arregalados, o corpo tenso, a respiração acelerada pelo barulho dos tiros lá fora. Ela me olhou da cabeça aos pés, reparando no respingo de sangue no meu braço e na arma ainda quente na minha mão. — Você... você matou alguém? — a voz dela saiu num fio, trêmula. Aproximei-me dela devagar, guardando a pistola na cintura, o meu olhar cravado no dela. — Eu defendi a minha casa, patricinha — falei, a voz rouca por causa da fumaça. — O teu pai mandou os capangas dele queimarem o beco. Ele não tá nem aí se uma bala perdida atravessasse essa parede e te pegasse. Ela engoliu em seco, dando um passo para trás até encostar na cama, mas a expressão de pânico foi dando lugar a uma raiva dolorosa. A ficha de que o pai realmente não ligava para a vida dela estava caindo da pior forma possível. — Ele é um monstro... — ela murmurou, os olhos marejando, mas segurando as lágrimas com todas as forças. Cheguei perto, parando bem na frente dela. Ergui a mão e, com o polegar, limpei uma sujeira de fuligem na bochecha macia dela. Ela estremeceu com o toque, mas não se afastou. — Tu não precisa mais da proteção daquele safado, Tasha — sussurrei, me inclinando até o meu rosto ficar a milímetros do dela. — A tua vida antiga morreu no momento em que tu entrou naquele carro. Agora, a tua segurança sou eu que dou. — E quem me protege de você? — ela perguntou, sustentando o meu olhar com aquela marra que me enlouquecia. Dobrei o canto da boca num sorriso sombrio, sentindo o calor da pele dela contra a minha. — De mim? Ninguém. Tu já tá presa na minha rede, garota... e daqui tu não sai mais.
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