Mia Sterling
Estaciono o carro em frente Ă escola do Theo com o meu melhor sorriso vitorioso no rosto. Aquele sorriso de quem já venceu uma batalha invisĂvel. Hoje tem hambĂşrguer com fritas, sim, senhor. Quer o Cael goste ou nĂŁo.
Desligo o motor, ajeito o óculos escuro no topo da cabeça e respiro fundo antes de sair. O sol da tarde bate quente no asfalto, e por um instante penso que talvez eu esteja mesmo criando um pequeno caos ambulante. Mas logo abandono o pensamento. A vida já é séria demais. Criança também merece gordura trans e felicidade ocasional.
Saio do carro como de costume e caminho em direção à entrada da escola, acenando para a recepcionista e para dois funcionários que já me conhecem pelo nome. Noventa por cento das vezes sou eu quem busca o Theo, afinal. A essa altura, se um dia eu não aparecer, provavelmente vão achar que o apocalipse começou.
Entro no corredor familiar, o som de vozes infantis ecoando pelas paredes coloridas. Sigo atĂ© a sala do Theo, porque já está na hora da saĂda. Antes mesmo de chegar Ă porta, já consigo ouvir risadinhas, o barulho inconfundĂvel de pecinhas de lego se chocando contra o chĂŁo e aquela energia caĂłtica que sĂł crianças tĂŞm.
Meu anjinho está sentado no tapete com mais dois coleguinhas, concentrado como se estivesse arquitetando a oitava maravilha do mundo. Aproximo-me da professora, troco algumas palavras educadas, aquele pequeno ritual social que diz “sou uma adulta responsável”, mesmo que isso seja uma meia-verdade conveniente.
— Ele está indo muito bem — ela comenta, falando sobre o desenvolvimento do Theo, sobre como ele é curioso, comunicativo, como gosta de montar coisas.
Sorrio, assentindo, inflando o peito com um orgulho que não é tecnicamente meu, mas eu reivindico mesmo assim. Afinal de contas, que tipo de tia eu seria se não me preocupasse com a educação do meu sobrinho? Uma tia legal. Mas não uma tia negligente. São coisas diferentes. Eu tenho limites. Poucos, mas tenho.
Me aproximo do tapete no exato momento em que os olhos verdes e atentos do Theo me notam. É quase cômico como o rosto dele se ilumina inteiro, como se eu tivesse acendido todas as luzes do mundo de uma vez.
Ele se levanta num pulo, correndo no seu jeito desengonçado, tropeçando nos próprios pés e praticamente se jogando contra mim, agarrando minhas pernas com força.
— Tia Mia! Tia Mia! — ele repete, a empolgação transbordando da voz. — Vem ver o que a gente fez!
Meu coração derrete. Sempre. Toda vez. Eu deixo que ele me puxe pela mĂŁo atĂ© o tapete, onde os trĂŞs meninos construĂram uma torre de lego tĂŁo alta que parece desafiar as leis da gravidade infantil.
— Uau, meninos… isso tá muito incrĂvel. — digo, genuinamente impressionada. — Foram vocĂŞs trĂŞs que fizeram?
Os rostinhos se iluminam em unĂssono, os sorrisos se alargando com um orgulho quase palpável.
— Eu vou construir prédios igual meu pai quando eu crescer — diz David, inflando o peito como se já fosse um pequeno engenheiro visionário.
— Seu pai vai ficar muito orgulhoso de você, meu amor. — digo, apertando de leve a bochecha dele, que ri sem qualquer pudor.
— Eu vou ser um super-herói como o papai, tia — anuncia Henry, meu afilhado, com a convicção de quem já escolheu o próprio destino.
— Eu tenho certeza que seu pai vai ficar muito feliz, meu pequeno. — respondo, bagunçando os cabelos dele com carinho. — A conversa tá muito boa, mas agora a gente precisa ir.
Theo faz um biquinho dramático, do tipo que já vi o Cael fazer em reuniões importantes — claramente genĂ©tica da famĂlia —, mas obedece. Ele se despede dos amiguinhos com abraços apressados, promessas de “amanhĂŁ a gente termina a torre”, enquanto eu me despeço das crianças e da professora.
E eu sei, com uma convicção quase criminosa, que eles me adoram.
Porque eu sou a melhor madrinha e a melhor tia do mundo.
Mesmo que isso signifique, Ă s vezes, ser a pior influĂŞncia da famĂlia Sterling.
Assim que saĂmos da escola, como era de se esperar, meu pequeno me lança aquele olhar esperto que já vem carregado de intenção.
— A gente vai na lanchonete? — ele pergunta, tentando soar casual, mas falhando miseravelmente.
— Vai sim, senhor. — respondo sem nem fingir resistência. — Porque sim. E porque eu posso.
O sorriso dele se abre tão largo que parece querer engolir o rosto inteiro. Um sorriso sem reservas, desses que aquecem o peito da gente por dentro, como se alguém tivesse acendido uma lareira no meio do coração.
Eu sinceramente amo esse garoto com todas as minhas forças.
Ajudo o Cael a cuidar do Theo desde que ele tinha seis meses de vida. Troquei fralda, balancei madrugada, cantei músicas idiotas para fazê-lo dormir, segurei febre, segurei choro, segurei o mundo quando ele ainda cabia inteiro nos meus braços. E, mesmo que eu não tenha parido esse menino, ele me escolheu como porto seguro. E eu aceitei sem pensar duas vezes.
Eu amo crianças. Amo meus sobrinhos.
E, claro, na opiniĂŁo deles, eu sou a melhor tia do mundo.
Modéstia à parte… eu sou mesmo.
Eu os amo como se fossem meus filhos. Talvez porque, no fundo, alguma parte de mim sempre soube que nunca teria os meus prĂłprios.
Quer dizer… tecnicamente eu poderia adotar, eu sei. Não sou ignorante quanto às possibilidades do mundo. Mas isso não está nos meus planos agora. Mesmo que ser mãe sempre tenha sido um sonho antigo, quase infantil, desses que a gente guarda no bolso como um bilhete amassado de algo que um dia quis muito.
Eu nĂŁo posso engravidar.
Meu Ăştero foi removido há cerca de cinco anos, por conta de uma doença que quase levou mais do que eu estava disposta a perder. Minha famĂlia nĂŁo sabe. Eu estava morando na Alemanha na Ă©poca, tentando fingir que minha vida era um filme europeu cult enquanto meu corpo me traĂa nos bastidores. Passei por todo o processo sozinha. Hospital, cirurgia, recuperação, noites em claro olhando para o teto e tentando entender como se vive depois que um sonho morre sem fazer barulho.
Sempre fui do tipo que nĂŁo gosta de atrapalhar os outros com os prĂłprios problemas.
Mesmo que meus irmãos insistam em me tratar como uma boneca de porcelana, frágil demais para o mundo.
Coisa de irmĂŁos mais velhos. Eles protegem exagerando. Eu sobrevivo fingindo que nĂŁo preciso.
Eu e Theo caminhamos de mĂŁos dadas em direção Ă enorme lanchonete temática, posicionada logo ali, quase colada Ă escola. Ele adora esse lugar. E nĂŁo dá pra culpá-lo. É uma mistura caĂłtica de super-herĂłis, mundos mágicos, animes e criaturas que parecem ter saĂdo de um delĂrio coletivo de designers criativos demais.
Eu nĂŁo julgo.
Eu também adoro isso aqui.
Assim que as portas de vidro se abrem, somos recebidos por uma explosĂŁo de cheiros: milk-shake doce demais, açúcar queimado, chocolate derretendo, fritura recĂ©m-saĂda da cozinha. As vitrines do balcĂŁo estĂŁo cobertas de cupcakes coloridos e doces que parecem mais enfeites de festa do que comida de verdade.
Theo aperta minha mão por um instante, os olhos vasculhando o lugar com aquela curiosidade elétrica de quem entra num pequeno universo particular. Até que ele encontra o que procura.
— Tia, eu posso ir lá cumprimentar a Naná? — pergunta, já meio inclinado para frente, pronto para correr.
— Vai lá. — respondo, soltando sua mão. — Mas sem atropelar ninguém, velocista.
De longe, observo enquanto ele corre até uma das garçonetes, abraçando as pernas dela com força. Ela se assusta por um segundo, o corpo retesando no reflexo, mas logo reconhece quem é e se agacha para puxá-lo para um abraço apertado.
O nome dela Ă© Hannah.
Mas, na cabeça do Theo, “Naná” é muito mais legal.
Ela é jovem, bonita — apesar dos olhos cansados, daquelas olheiras que não vêm só de noites m*l dormidas, mas de uma vida que pesa mais do que deveria para alguém tão novo. Ainda assim, está sempre com um sorriso no rosto. Um sorriso que parece resistência disfarçada de gentileza.
Conhecemos a Hannah há cerca de seis meses… sete, talvez. Desde que o Theo começou a escola e nós começamos a vir para cá com frequência demais para não virar rotina.
Teve uma ocasiĂŁo em especial.
Theo estava chateado porque o Cael prometeu que iria buscá-lo e não apareceu. Eu nunca vi meu anjinho tão triste. Ele ficou quieto demais, o tipo de silêncio que grita. Não quis comer, não quis brincar, só ficou encarando o copo de suco como se tivesse sido abandonado por ele também.
E entĂŁo a Hannah entrou em cena.
Ela trouxe o lanche, mas trouxe tambĂ©m um livro de colorir, alguns lápis de cera, um sorriso doce e uma miniatura do mascote da lanchonete. Sentou-se por um minuto ao lado dele, falou sobre coisas bobas, fez caretas ridĂculas atĂ© arrancar um meio-sorriso.
Foi assim que começou essa amizade inusitada.
Uma criança carente de promessas cumpridas.
E uma garota cansada demais do mundo, mas ainda disposta a oferecer um pouco de luz onde ninguém pediu.
E, de algum jeito estranho, eu gosto de pensar que aquele encontro também salvou um pedacinho de nós três.