Capítulo 10 — Fumaça narrando A fumaça subia devagar, espessa, serpenteando até o teto da cela. Eu traguei fundo, o gosto amargo da erva misturado com a raiva que eu carregava no peito. Estava sozinho por poucos minutos, mas naquele lugar, minutos de silêncio eram valiosos como ouro. Me sentei no canto do beliche de cimento, os pés apoiados no chão frio, o olhar perdido entre as grades. A madrugada anterior ainda queimava na minha pele. O gosto da Hellen na boca, o cheiro do cabelo dela grudado na minha memória. Ela era diferente. Não era só advogada, era faca de ponta dupla. Corajosa e imprudente na mesma medida. Tinha me encarado sem abaixar os olhos, mesmo sabendo onde estava. E ainda assim, veio. Não por mim, mas por justiça. Só que justiça é artigo de luxo onde a gente vive, e quem

