Algumas semanas se passaram e finalmente chegara o dia em que Julia faria aquilo. Passei para busca-la de carro em frente à sua casa, dei a desculpa aos meus pais de que iríamos ao cinema, nunca me senti tão culpada em mentir como dessa vez.
Como buzinei 3 vezes e ninguém saiu, resolvi descer do carro e bater na porta.
– Julia! – Gritei.
Seu tio abriu a porta, ao invés dela. Julia tinha perdido seus dois pais muito nova, e seu tio, como o único irmão de sua mãe e também maior de idade, ficou como seu tutor. Depois de um tempo ele desenvolveu alcoolismo e Julia pensa que foi porque ele ficou sobrecarregado com ela. Eu não acredito nisso, mas não dava para mudar sua cabeça. Ela diz que tem um sonho de ser tão bem sucedida que poderá compensá-lo de alguma forma por isso. Seu tio quase nunca estava sóbrio, mas este era um desses dias.
– Oi, senhor Williams, a Julia está?
– Não. – Respondeu, rispidamente. – Quer esperar? Acho que ela não vai demorar muito.
Eu não queria ser grossa, mas não me sentia confortável em entrar e esperar sozinha com ele. Cocei minha garganta e respondi:
– Posso esperar por ela dentro do carro.
– Não, eu insisto – Ele afirmou.
Nesse momento, Julia chegou e meus ombros aliviaram. Eu sei que não deveria teme-lo, mas eu não conseguia em confiar em pessoas que bebiam demais.
– Já estou aqui, titio. – Ela disse, sorrindo.
Ele entrou novamente e eu ergui a sobrancelha.
– Nunca vi você tão simpática.
– Se eu não for, ele me expulsa de casa. – Ela deu um sorriso irônico.
– Está pronta? – Perguntei.
Julia deu um suspiro.
– Ainda pode desistir. – Acrescentei.
– Não – Julia disse, decidida. – Estou pronta.
Também passamos na casa do Dylan e buscamos ele. Era incrível o quanto ele ainda era imaturo e seu rosto tinha uma imagem estampada de que ele não sabia nada sobre a vida ainda, o que me estressava porque “crianças” não deveriam fazer coisas de adultos.
Chegamos na clínica e eu senti as mãos de Julia congeladas quando as segurei. Eu senti que ela precisava de um apoio, mas nem eu nem Dylan conseguiria preencher isso. Tenho certeza de que ela precisava dos seus pais agora, e isso apertou meu coração.
Esperamos por Josh na sala de recepção pois ele precisava assinar o documento que permitia o procedimento. Ela ficava balançando as pernas, nervosa.
– Ele não vem? – Questionou.
Eu chequei no relógio, já haviam se passado 10 minutos do combinado.
– Acha melhor eu mandar mensagem? – Perguntei.
Ela deu os ombros.
– Não sei, só sei que se ele não chegar logo eu vou vomitar!
Dylan continuava imóvel, segurando a mão de Julia, provavelmente pensando que isso lhe transmitia algum tipo de apoio. Eu imagino o quanto ele deve estar assustado com tudo isso e pensando que seus pais estariam decepcionados se soubessem.
Julia se levantou e entregou o dinheiro a recepcionista, tinha por volta de 600 dólares em suas mãos, eu ergui uma sobrancelha e perguntei:
– Julia, onde conseguiu esse dinheiro?
– Era literalmente tudo o que eu tinha no banco. Todo dinheiro que meu tio me dava eu guardava pensando que um dia poderia ter um carro. Bom, é óbvio que não vou mais.
De repente a porta da clínica se abre, o sino soa e vejo Josh entrar, com um olhar perdido. Eu aceno e ele se senta do meu lado, percebo que estava ofegante.
– Você veio correndo? – Perguntei, sarcástica.
Ele deu um riso falso.
– Não. – Respondeu. – Mas precisei estacionar longe porque não tinha vaga.
Eu aquiesci.
– Por que demorou tanto?
– A Mandy estava na minha casa, e como eu não podia contar o que estava acontecendo, eu tive que esperar ela ir embora.
Aquilo embrulhou meu estômago, mas eu não podia expressar meu sentimento.
Julia nos apressou e ele assinou o documento. Eu notei que suas mãos estavam trêmulas, e me senti culpada por tê-lo induzido a fazer isso. Algumas horas depois, o procedimento havia sido realizado. Foi então quando fomos autorizados a vê-la.
Josh estava pálido, parecia que estava passando muito m*l.
– Desculpa, Kylie, achei que conseguiria, mas não dá. Não consigo vê-la. – Afirmou. – Acho que vou para casa, tentar apagar isso da minha mente.
– Eu entendo. Me desculpa mesmo por isso. Estou muito arrependida de ter te incluído.
– Era isso ou sua amiga estaria bem ferrada. – Comentou e eu concordei.
Josh foi embora e eu permaneci lá com Dylan. Foi quando finalmente entramos no quarto. Ela estava tão fraca e com uma aparência digna de pena. Estava dormindo no momento em que entrei, eu segurei sua mão e as lágrimas começaram a surgir.
O médico explicou que ela ficaria 30 minutos descansando e poderia ir para casa. Eu achei aquilo um absurdo, ela acabou de passar por um aborto e vai ser liberada em 30 minutos? Quando eu questionei isso ele afirmou que a clínica não tinha suporte para manter os pacientes e eu senti meu estômago embrulhar.
– Ela vai precisar de repouso e de muita ajuda. Sugiro que fiquem perto, qualquer sintoma incomum como sangramento ou febre, precisam procurar um hospital.
Eu aquiesci.
Me virei para Dylan quando o médico saiu e questionei:
– E então? Como vamos fazer?
– Posso levar ela para se recuperar na minha casa, mas preciso encontrar uma boa desculpa.
Eu neguei com a cabeça.
– Acho difícil que encontre alguma convincente.
– E o que acha melhor fazer?
– Eu não sei. Vamos esperar que ela acorde e ver se ela já tem algo em mente.
Eu não transpareci, mas estava devastada. Me sentia completamente m*l, como se tivesse acabado de cometer um crime. Precisei ser forte, fingir que estava tudo bem, por ela. Sabia que ela precisava desse apoio.
Aos poucos seus olhinhos foram se abrindo quando ela já estava pronta para ir embora da clínica. Ela olhou para mim, assustada e provavelmente sentindo dor.
– Deu tudo certo?
Eu fiz que sim com a cabeça.
– Que bom. – Respondeu.
– Para onde quer ir?
– Se não se importar, Kylie, eu quero ir para casa.