Capítulo Quatro

2376 Words
É ele. A percepção me acertara como uma cotovelada no estômago e um soco no saco. Doeu, o que quero dizer. Havia chegado há poucos segundos e avistei jornalistas, o que fez com que eu quisesse ir até o restaurante pela porta dos funcionários. Não era uma má ideia, em geral, nunca era. Jornalistas me deixavam zonzos e irritado, sei que é o trabalho deles, mas é a minha privacidade e paciência que eles arranham até conseguirem extrair algo e sou reservado o máximo que posso, sempre que posso. Achei que minha mãe estava sendo incomodada — mais do que o necessário — pelos jornalistas. Talvez algum i****a tenha achado que poderia interromper o caminho dela para pôr um gravador quase colado aos seus lábios e a arrebatá-la com perguntas ainda mais estúpidas. Bom, eu cheguei primeiro que meus irmãos — graças a Deus por isso — e me adiantei. Quando cheguei ao seu lado, estava cego de raiva. — Está tudo bem, mãe? — Questionei, não deixando de parecer ameaçador. O terno preto e o olhar assassino com certeza garantiam que eu conseguisse fazer tal coisa. Mas… É ele. Bem ali, parado à frente da minha mãe e na minha frente agora. Eu reconheceria seu rosto mesmo que estivesse à meia luz. Reconheceria aquelas maçãs delicadas e seus olhos que eram de um verde intenso e havia o fato de que ele não trocara de roupa desde que eu o vira. Sei que ele também me reconheceu, esse garoto… rapaz… é uma pessoa bem expressiva mesmo não querendo. Dava para perceber que quando seus olhos cor de mel que também tinha uma pitadas verde-esmeralda, cresceram, foi o momento em que ele soube quem eu era. Soube que eu sou o homem que o impediu de pular daquela ponte. — Ah, hijo, está tudo bem. Tudo bem mesmo. Só estava conversando com… Ah, perdão, eu não sei seu nome. — Hallberto. Mas eu gosto quando me chama de Hall. Prefiro assim. Ele mordeu o lábio, nervoso. Aquele simples movimento foi o suficiente para que eu não conseguisse desviar o olhar. Sinais de nervosismo e o desconforto quase palpável dele era uma coisa curiosa e quase — quase — sexy. Eu estava me sentindo um pouco m*l por não saber qual a idade dele, em geral, eu não sabia mais que o nome dele. E isso estava me matando. — Eu quase o atropelei — minha mãe sussurra para mim —, e só agora estou sabendo o nome dele. As ruas daqui são tão perigosas. — Ainda mais com a senhora no volante, mamãe — retruco. Sinto um beliscão nas costelas e tento não rir demais. Hall nos encarava com certo fascino. — Mãe — digo —, porque não vai entrando e eu levo Hall até… A esquina? — Não tente assustar o garoto, Diego. Você já está bem grandinho. — Prometo que não vou fazer isso. Hall pode confiar em mim quanto a isso, não é Hall? Um flash de uma câmera próxima demais o cegou por um momento. As bochechas dele estava enrubescendo e ele mordeu o lábio de novo. Me pergunto se vai existir um momento em que ele vai deixar de ser tão expressivo assim. Talvez eu não quisesse que ele deixe de ser assim. Fica mais fácil tentar entendê-lo. Antes que minha mãe entrasse no restaurante, ela apertou o ombro de Hall e disse alguma coisa em seu ouvido. Algo que não pude saber o que era mesmo com minha proximidade. A cacofonia de pessoas ao redor e de flashs estava fazendo minha cabeça latejar e, por Deus, ainda tenho uma longa noite pela frente. Dentro e fora daquele restaurante. — Vamos andando — digo. Hall me seguiu, segurando a alça da mochila que estava em suas costas. Foram necessários apenas dez minutos em uma conversa com ele para que eu notasse algumas coisas. Ele parecia exausto. Parecia nervoso demais, como um procurado pela polícia, assim como também parecia perdido nessa parte da cidade. Seu cabelo estava desgrenhado e, não pude deixar de notar isso, ele estava tremendo. Seus dedos eram pálidos, assim como o rosto. Dava para notar coisas assim quando se presta muita atenção em alguém e não preciso disfarçar para mim mesmo quanta curiosidade tenho nele. Não é simples assim ver alguém querer se jogar de uma ponte e não ficar curioso. Quando nos afastamos dos jornalistas o suficiente para um minuto de privacidade, eu o encarei. A rua era iluminada e não havia carros passando, ou pessoas. Estávamos sozinhos. — O que está fazendo? — Foi minha primeira pergunta. Ele afastou-se de mim como o d***o fugindo da cruz. Seu olhar já amedrontado havia ficado apavorado. Eu não fazia ideia da descarga de raiva que havia na minha voz até sentir isso na minha pele. Parecia que eu queria brigar com ele, parecia que eu queira esganá-lo e… Parte minha queria fazer isso, sim. Por ele ser um mistério. — C-como? Hã? — O que você está fazendo? Quem é você? — Eu já disse o meu nome. Sorri. — Quem é você? — Repeti. Eu sentia que estávamos atraindo atenção. As câmeras já estavam apontadas em nossa direção. Havia flashs que não chegavam até aqui onde estamos, mesmo com uma boa iluminação de um poste. Em poucos minutos, em segundos se eu tiver azar, aqueles jornalistas vão vir para cá. — O que minha mãe lhe disse? — Nada demais. — Então pode me dizer. — Não. — Você… Quantos anos você tem? — O que é esse interrogatório? Eu cometi um crime? Lembro das mãos dele tremendo e do olhar assustado. — Não sei. Cometeu? — Chego mais perto dele até o ponto de colocar meu corpo quase colado ao seu. Sei o que estou fazendo e por ora, não me arrependo. Não queria ter de pensar tanto agora, eu sentia meu corpo implorando para ficar mais perto do dele. Não éramos do mesmo tamanho, o que era uma coisa boa. Ele tem que levantar a cabeça para me olhar, e quando faz isso, seus olhos parecem maiores do que são. Quero encostar minha cintura na dele. Quero descobrir qual a sensação de tocar na nuca dele. Mas antes de tudo, quero saber quem ele é. — Preciso ir para casa — disparou, se afastando de mim. De novo. — Posso levá-lo. — Não. Obrigado. — Não é incômodo algum. Aliás — estendo a mão — meu nome é Diego. Ele hesitou antes de apertá-la. O toque dele era distante, seus dedos quase não se fecharam sobre minha mão. Foi algo forçado. Puxei minha mão de volta. Eu não iria forçar nada com ele. Nada. — Tudo bem então — digo, levemente constrangido. — Boa noite. Viro-me. A esta altura, meus irmãos já devem ter chegado. Minha dor de cabeça estava piorando. —Negue todos os pedidos dele. Retorno a olhar para ele. — O quê? Hall deu de ombros. — Foi o que sua mãe me disse. Tchau. — Ele se virou e foi embora. Eu não havia conseguido me permitir ir atrás dele. Não conseguia. Eu havia criado raízes na calçada e minhas pálpebras permaneceram incansavelmente abertas para observá-lo ir embora, não pisquei até que ele tivesse dobrado uma outra rua mais longe, e quando finalmente fiquei sem ver suas costas, voltei a realidade e comecei a caminhar para onde já devia estar. Andando e olhando para o estacionamento onde meu carro estava, percebi outros três outros carros estacionados que antes não estavam lá. Isso queria dizer que meus irmãos estavam aqui. Sou o mais velho de quatro irmãos. Depois de mim, há Kevin. Ele é… insuportável. Metido. Arrogante e levemente desinteressado por qualquer coisa que não seja ele mesmo e seu futuro. Desde pequenos, Kevin e eu nos recusamos a brincar juntos. Éramos diferentes demais para que qualquer brincadeira desse certo conosco; eu era bruto, adorava correr e brincadeiras lentas me deixavam entediado. Kevin gostava de contar, sua brincadeira preferida até pelo menos aos doze anos era de jogar Sudoku ou qualquer coisa aborrecente. Depois, Davi nasceu. Quando ele nasceu e minha mãe nos apresentou, eu senti imediatamente a conexão que teríamos. Minha mãe estava abatida apesar de feliz da vida por um novo m****o na nossa casa. Só que Davi nasceu cego. Minha mãe nunca o tratou diferente apesar dos excessivos momentos de preocupação. Davi frequentou a escola, a faculdade e trabalhou. Eu queria estar sempre com ele, tentava dar espaço na medida do possível. Nossa amizade começou quando ele aprendeu a falar meu nome. Eu adorava bancar o irmão mais velho para os garotos que faziam bullying com ele na escola ou nas ruas. Adorava socar a cara de algum e******o. Quando meus pais pensaram que três filhos já era o suficiente, minha mãe descobriu que estava grávida depois das férias. Rafael nasceu em janeiro. Ele é uma série de adjetivos que me recuso a pensar se não for como uma metralhadora. Exibido. Arrogante. Metido. Convencido. Orgulhoso. Venenoso. Intolerante. Idiota. Claro que ele não era tão r**m, havia tantas qualidades quanto defeitos nele. Rafael era sagaz, compreendia as coisas apenas por olhar, odiava que alguém lhe explicasse uma coisa mais que o necessário. Odiava ser o caçula. Ele tinha aparência de ser o mais velho de todos nós, não importava sua altura ou sua data de nascimento. Uma coisa que adoro fazer é lembrá-lo que foi o último a nascer; me conforta ver sua cara amarrada. Pensando nisso, é assim que o encontro quando entro no restaurante. Meus pais estão de mãos dadas à mesa. Meus três irmãos estão calados — como sempre, é difícil ver qualquer um deles puxar uma conversa que passe mais do que a educação que tivemos —, e acabam por me ouvirem chegar ao mesmo tempo. Aperto o ombro de Davi e me sento. — Somos seus irmãos também, Didi, cadê nosso abraço? — Rafael abre seu melhor e mais debochado sorriso. Minha mãe não nota que ele está sendo infantil. Ela quer se apegar a qualquer requisito de esperança de que um dia, seus quatro filhos se darão bem. Serão irmãos unidos. Nós contra o mundo, e os cuzões. Bem, nunca, sinto muito madre. — Desculpe, eu já me sentei — retruco. — Quem sabe na próxima. Ah, quem era aquele rapaz que estava com você? Eu vi. Acho que todos vimos. — Menos Davi — Kevin murmura olhando para a tela do celular. A luz deixava seu rosto fantasmagórico. Eu queria socar ele até ver sua face manchada de vermelho junto ao terno verde-escuro que ele usava. — Kevin! — Minha mãe o fulmina com o olhar. Meu irmão murmura uma desculpa forçada e volta a atenção para o celular. Davi, ao meu lado, suspira. — Tudo bem, mãe. Vamos mudar de assunto. Acho que deveríamos ter escolhido um outro lugar para irmos. Eu não… Odeio ficar tão longe de casa. Por causa de Billy. Billy era o “cuidador” de Davi. Claro que meu irmão odeia quando o rotulamos assim, porque não gosta dessa palavra. Aliás, Davi tem uma lista de palavras que odeia. Ele já falou a respeito sobre isso, tenho quase certeza. — Pensarei nisso. Eu fiz a reserva. Alguém do restaurante deve ter espalhado a fofoca e por isso os jornalistas. — Meu pai enrubesceu, mas eu sabia que ele estava apenas com raiva. Já vi diversas emoções no rosto do meu pai e sei reconhecer algumas, mas constrangimento nunca foi algo que eu vi. Sinto um chute no meu tornozelo por debaixo da mesa. Rafael. Sem som, ele mexe a boca: Responda. Quem era aquele? Reviro os olhos com força. Bebo a água que estava servida. Rafael tinha uma grande curiosidade — se é que posso chamar assim — por homens. Ele não gostava de se rotular, mas todos sabiam que ele gostava de ficar com qualquer pessoa. Até as que não deveria. Ele não era como eu. eu não era como ele. Isso me deixava furioso até quase ter um ataque apoplético. Meu irmão caçula consegue fazer o que quer, e porque pode. Eu não posso me deixar ser tão solto assim, eu tinha uma imagem a zelar e só Deus saberia o que aconteceria se eu fizesse alguma besteira a qualquer momento. Eu ruiria. Sei que gosto tanto de homens e mulheres desde os meus quinze anos quando beijei meu melhor amigo na minha casa depois que meus pais saíram. Foi algo constrangedor, mas que sempre voltava a minha mente. Sozinhos, dois garotos que fingiam estudar, mas na verdade estavam conversando sobre mulheres. Até que a proposta surge, a gente se aproxima e o pior beijo do mundo acontece. Foi assim. Eu gostei. Fiquei e******o e pedi para ele pôr a mão ali. O resto dessa história não é tão legal, por isso a excluo. Encaro meu irmão e faço a mesma coisa que ele, digo: Vá se f***r. Não sei se Rafael sabe sobre mim. Não se se ele quer saber. Ele tem se afastado mais de nós mais a cada ano. Ninguém sabe o que ele quer da vida além das coisas que gosta, e que ninguém entende. Estou falando de s**o com dor, há um nome para isso, não me lembro qual agora. — Aquele garoto — minha mãe estala os lábios, descontente —, acho que ele está sozinho. Como é o nome disso? — Órfão? — Sugiro. — Sem-teto? — Meu pai faz o mesmo. E por último, Davi. — Fugitivo? Sorri. Eu pensei exatamente a mesma coisa. — Não. Eu quase o atropelei. Kevin finalmente tira os olhos do celular para encarar nossa mãe. — O que quer dizer? Como foi isso? Quando? — Não foi nada demais. Ele está bem. Estamos todos bem. Estamos todos bem. Minha mãe adorava essa frase. Era quase o mantra dela. Eu, porém, não conseguia ver luz nessas palavras. Sempre que meus irmãos e eu nos encontrávamos, alguma coisa dava errado. Milagrosamente, minha mente está longe demais para conseguir rebater as provocações de Rafael. Estou pensando em Hall. — Espero encontrá-lo de novo — minha mãe diz. Um garçom chega a nossa mesa. Eu também espero. 
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