[Hall Endres]
Eu gostaria de ter meu pai comigo.
Vagar sem rumo me faz ficar reflexivo e acabo pensando nele, assim de repente. Gosto de lembrar do sorriso enorme dele, que iluminava até mesmo um cômodo sem janelas. O sorriso do meu pai quando ia me acordar para me levar para a escola mesmo quando eu não queria ir, era o melhor.
Ele me falava:
— Vamos, Hall, você pode vencer o dia.
E eu sempre acreditava que podia mesmo.
Nos dias de chuva, meu pai não sorria tanto. Ele não gostava tanto da chuva, acho que lhe trazia lembranças ruins. Mas sempre fazíamos algo divertido dentro de casa quando ele não trabalhava. Pela manhã assistíamos desenhos enrolados no sofá, à tarde o almoço quentinho e depois mais desenhos ou jogos, e à tardezinha quando minha mãe chegava — ainda me lembro — nos escondíamos na casa quando ouvíamos a chave na fechadura. Então ela chamava nossos nomes, ficava nos procurando até que a gente a assustava. Ela adorava.
Quando ele morreu, meu mundo se partiu ao meio. Uma enorme rachadura que me forçou a escolher um lado, mas não importa, eu não gostei de ter meu mundo mudado. Tive que aprender coisas que não gostei, como por exemplo: Minha mãe não era tão forte quanto eu achava que era.
Sem o meu pai, minha mãe desmoronou. Eu sabia da história deles, e de como ele foi o primeiro namorado dela, a decisão de se casar que levou dois anos para acontecer, então meu nascimento… Eles passaram por muita coisa, e o que os separou foi o coração do meu pai ter decidido parar de bater de repente. Sem motivo aparente.
Se ele estivesse aqui nada disso estaria acontecendo. Eu não estaria com fome, com frio, com medo. Eu não estaria buscando um lugar melhor do que a nossa casa, onde fazíamos as melhores brincadeiras e raramente tínhamos problemas sérios que nos levavam a brigar. É triste pensar que nossa felicidade tem várias vias, ligadas às pessoas, ligada à momentos e outras coisas que, se não estão lá como deveriam, nos quebram. Fazem com que ficamos desestabilizados.
Eu me sentia… quebrado. Mas estava assim há muito tempo para não ter que ficar surpreso quando a palavra rodava em minha cabeça.
Quebrado, quebrado
Quebrado, quebrado
Quebrado, quebrado
Quebrado, quebrado
Quebrado, quebrado
Quebrado, quebrado
Eu gostaria de vencer o dia de novo, se possível.
*
Eu soube que havia algo de errado assim que cruzei uma outra rua. Logo depois de uma sorveteria que estava fechando, uma mulher tinha acabado de girar as chaves na fechadura e agarrado a sua bolsa, indo embora. Olhei para os lados e virei a rua, sem saber que o perigo me aguardava.
Dois caras, maiores que eu, acabaram me imprensando contra um muro pichado. A colisão fez com que o ar fugisse dos meus pulmões automaticamente e, o choque da parede contra minha nuca fez com que eu ficasse zonzo. Só percebi que eles estavam tentando apalpar meus bolsos e tentando fazer as alças da minha bolsa escorregarem pelos meus ombros. Eu tentava fazer com que eles se afastassem de mim, mas um deles estava machucando meu ombro com sua mão e havia uma pressão fria na minha cintura.
— Fica quietinho aí — o da esquerda disse. O hálito dele era uma mistura de cebola e álcool. Parei de respirar mesmo que estivesse grunhindo de dor.
Minha bolsa foi arrancada de mim. Não pude deixar de pensar nas coisas que eu juntei antes de sair de casa e coloquei ali, eram as melhores coisas que eu tinha.
— Por favor — implorei para eles.
Eu não queria chorar, mas era o que estava quase acontecendo.
Eles riram e tiraram meu celular do bolso traseiro. Em um fio de ousadia, tentei agarrar a mão do cara que o pegou. Ele foi mais rápido que eu. O outro me colocou contra a parede de novo com mais força e foi aí que realmente senti minha cabeça se chocar contra ela, e doeu.
O tempo que fiquei parado — cinco segundos — foi o suficiente para eles subirem em uma moto e partirem na direção contrária.
Sem minha bolsa, sem meu celular e meu dinheiro… Eu tinha que admitir que estava no fundo do bolso. Era o momento de reconhecer isso, não importava o quanto doesse. Posso ser um pouco otimista comigo mesmo e pensar que sobrevivi por mais dias do que achei que conseguiria, acabei provando que não sei o que estou fazendo e que não posso continuar com isso.
Eu tinha que voltar para casa.
E já sabia como ia fazer isso.
Aguardei do lado de fora do restaurante. Os jornalistas já haviam ido embora — pelo menos, a maioria deles.
Eu não fazia ideia do porquê aquela família era tão importante. Claro que eu entendia que eles eram ricos, bonitos, o sotaque e tudo mais. Mas por que eles tinham tanto? Por que atraiam tanta atenção das pessoas? Parecia um pouco demais para mim, não consigo me imaginar sendo incomodado por homens e mulheres com câmeras e milhões de perguntas.
Acho que o maior futuro que imaginei para mim seria eu com um bom emprego e sem dívidas, com algum cara inteligente em nosso apartamento com dois gatos, que se chamarão Espiga e Tom. Não me permiti pensar mais do que isso, eu gostava dessa ideia simples. Era reconfortante saber que eu ainda tinha sonhos pela qual almejava conseguir.
Eu sabia que estava enrolando.
Eu nem tinha um plano ainda.
Estava quase tendo um, sei que sim. Só pensei no começo: Diego Laurent me ajudaria. Eu não queria usar ele, mas não consegui achar uma palavra melhor. Ele havia pedido para me levar até em casa, então eu disse não, mas agora mudei de ideia e desejo que ele me leve. Vai ser difícil pensar em uma maneira convincente de lhe dizer isso, parece mais infantil do que qualquer outra coisa. Eu já estava até imaginando a cara que ele faria: um sorriso como o do d***o e aqueles olhos avelã se tornando maliciosos. Eu podia pedir carona à mãe dele, mas…
Existe coisas que é melhor rejeitar de primeira.
Não sei quanto tempo fiquei esperando, acho que muitas, eu já não tinha mais como saber as horas já que fui roubado. Aquela família saiu do restaurante junta e eu pude admirar como eles eram, de como exalavam todas aquelas coisas em uma luz cegante: beleza, poder, fama, dinheiro…
Era para ser agora ou nunca.
Mesmo assim, fiquei parado como um i****a, escondido. Esperei que o carro de um deles partisse. Depois outro, e outro. Mas o carro de Diego Laurent permaneceu lá, até que ele buzinou e eu me assustei. A cabeça dele apareceu quando a janela abaixou. Seu sorriso era do mesmo jeito que eu imaginei.
— Você vai ficar aí mesmo? — Perguntou.
Olhei para os lados, mas eu sabia, ele estava falando comigo.
Me aproximei do carro chique dele e cheguei perto do lugar do motorista, onde o vidro ainda estava abaixado. O cheiro de carro novo e do perfume dele me atingiram em cheio e fiquei sem fala, parece que comi uma pedra que secou minha garganta e quebrou meus dentes. Apenas o encarei.
— Hall?
Ele disse meu nome corretamente. E rouco. Ele soou sexy. Ele soou… Preocupado. Eu não tinha como saber disso com certeza, mas foi o que pareceu, e eu estava desesperado como estive no começo quando fugi. Não estava pensando corretamente, meus pensamentos estavam embaralhados e eu não queria ter que voltar a andar sozinho, por isso pedi como uma criança:
— Me leve para casa.
A ardência em meus olhos era difícil de espantar.
Minhas lágrimas estavam rolando antes que eu percebesse.
— Entre — mandou.
Corri para o outro lado do carro e entrei, sentando-se ao seu lado.
O conforto daquele carro, a porta sendo travada e nós entrando em movimento foi um alívio. Eu estava tremendo de nervosismo nos primeiros segundos, mas parei, apenas respirei fundo e não deixei que o desespero me abalasse agora, eu ainda teria muito tempo para me desesperar, especialmente quando chegasse em casa. Mas eu não conseguia parar de chorar, isso estava me deixando frustrado; chorar de raiva, de tristeza, de vergonha estava me dominando.
— Desculpe — eu sentia que já tinha repetido isso diversas vezes; as palavras estavam carimbadas na ponta da minha língua. — Me desculpe por isso.
— Pare de se desculpar — ele repetia. — Está tudo bem.
Balancei a cabeça. as lágrimas continuaram a cair no meu colo.
Como ele poderia dizer que estava tudo bem? Eu estou quase perdendo o ar e chorando como uma criança ao lado dele, e a última coisa que eu queria escutar era que estava tudo bem; nada estava bem para mim há muito tempo. Eu não sabia o caminho para dizer essas palavras a ele.
Permanecer calado foi minha melhor escolha.
Até eu perceber — quase vinte minutos em silêncio depois — que eu não disse a ele o caminho para minha casa, estávamos virando de rua em rua.
— Minha casa fica…
— Não estamos indo para sua casa. Está na cara que não quer voltar para lá.
— Eu não tenho muita escolha — murmurei.
Pelo amor de Deus, eu tenho apenas vinte e um anos. O que estava pensando? Fui vencido pelas minhas vontades loucas da madrugada, finalmente, acho que estava tão farto que apenas pensei e fiz, nunca parei e pensei até o momento em que deu tudo errado. Arrependido, quero retornar para casa, com culpa e tudo.
Não me importo.
— Irei levar você para o lugar onde moro — acrescentou Diego, e falou tão calmamente que parecia estar apenas falando do clima.
Bom, eu não estava tão calmo quanto ele.
— Como é que é? Você vai me levar para sua casa? Não. Não.
— Onde está sua bolsa, aliás? O que aconteceu? Me conte.
Eu queria resistir àquela ordem: Me conte.
Mas foi aquele tom de voz — uma mistura equilibrada de ordem e preocupação — que fez com que meus lábios se separassem e contassem palavra por palavra. Por incrível que pareça, eu não chorei mais. Parecia que eu estava contando a história de outra pessoa que não eu; eu estava criando tudo aquilo?
Ao terminar, ele continuou calado.
— Eu sou muito burro!
— Concordo — murmurou ao meu lado. Viramos uma rua. Os edifícios à frente me deixavam um pouco nauseado. — Mas não posso julgar você sem saber por que saiu de casa. A lo hecho, pecho.
Franzi o cenho.
— O que quer dizer?
Diego exibiu um sorrisinho para mim. Vê-lo desviar nem que por um segundo da pista me deixou um pouco aflito. Eu queria que ele se concentrasse na pista, que mantivesse os olhos lá. Ele podia conversar comigo sem precisar me olhar.
— É uma expressão em espanhol. Significa que agora que a m***a está feita não tem como voltar atrás e consertar, temos que levantar a cabeça e seguir em frente. Era o que minha mãe falava para mim e meus irmãos sempre.
Fiquei tentado a dizer que meu pai me dizia para vencer o dia.
Mas não o fiz. Não confiava nele a esse ponto, de compartilhar coisas sobre meu pai e meu passado. Eu não sabia explicar com palavras certas mas… Havia alguma coisa em Diego Laurent que me deixava curioso mesmo que receoso de descobrir o que era.
Parecia ser algo que eu conhecia. Só não sabia o que era ainda.
— É — digo — parece ser uma ótima coisa a se dizer nesse momento. Não acredito no que minha mãe vai dizer quando eu aparecer em casa. Talvez ela diga que eu fui mesmo burro.
— Sua mãe… Vocês se dão bem?
Era uma pergunta complicada.
Nos dávamos bem porque nos ignorávamos sempre que possível. Não era nenhum grande desafio, eu ia à faculdade e ficava lá a maior parte do dia, chegava em casa, fazia alguma coisa para comer e limpava o que tinha que limpar. Quando estava perto da minha mãe chegar, eu tomava banho e ia para o quarto. Sempre falava “vou já” ou argumentava que estava ocupado quando ela me chamava. Às vezes era ela quem limpava a casa e fazia comida enquanto eu estava fora, depois ligava para alguma amiga e saia, ou se trancava no quarto com alguma garrafa de bebida que a faria dormir logo. Era assim que funcionava lá em casa.
— Um pouco — foi o que respondi.
— Um pouco? É engraçado como você desvia das respostas diretas. Andarse por las ramas. Significa alguém que desvia do assunto. Você, Hall.
— Vá se f***r — resmungo. Só depois percebo minha arrogância. — Desculpe. Ah, que m***a. Você tá me dando uma carona e eu mandei você ir se f***r. Duas vezes.
Eu temi que ele mandasse eu sair do carro imediatamente.
Diego, porém, começou a rir.
Uma risada que tremia seu pomo-de-adão, que mostrava seus dentes e fazia suas maçãs do rosto ficarem destacadas. Ele era… Lindo.
Desviei o olhar.
— Não tem problema, Hall. Acho que é a primeira vez que eu saio de um jantar com minha família e começo a rir logo depois. Nunca tinha me ocorrido.
— Que bom? — Estou de novo com a testa franzida. Não sei como reagir ao que ele disse, apenas.
— Estamos quase chegando.
— Diego, eu acho melhor…
— Que tal você apenas comer alguma coisa e dormir algumas horinhas e depois eu te levo para casa, hum? Digamos que será uma forma de me desculpar por minha mãe quase ter te atropelado.
Eu estava com fome.
E queria dormir.
Queria um banho, se possível. Não estou me aguentando!
Por isso eu assenti.