Capítulo Seis

2958 Words
[Hall Endres]   Era um enorme hotel com uma enorme piscina e enorme árvores. Talvez “enorme” se encaixe bem em tudo o que foi apresentado aos meus olhos assim que desci do carro. Minhas pernas estavam feitas da mesma textura de gelatina e, a cada passo meu, elas tremiam. Pior ainda, Diego mantinha sua mão nas minhas costas, me incentivando a sempre ir para frente. Com ele. À recepção, eu me senti deslocado mais do que o normal. Deve existir um limite para o quanto uma pessoa deva se sentir deslocado, como ir à casa dos amigos ou ir a uma empresa fazer uma entrevista. Há certo nível de desconforto. Mas aqui… Sinto que posso me quebrar de tão tenso que estou. Gostaria de poder respirar corretamente, mas até mesmo respirar me deixava apreensivo. E se minha respiração chamasse a atenção daquelas pessoas? E se fosse ruidosa demais? Milhões de interrogações surgiram na minha cabeça. Diego Laurent espantou a todas apenas colocando — de novo — sua enorme mão nas minhas costas. Eu não queria que ele me tocasse por dois motivos: a) eu não o conhecia e b) eu me sentia sujo demais. Se meu cheiro tivesse cor, seria como aquele verde-vômito das revistinhas da Turma da Mônica. Eu seria o Cascão. Sinto-me enrubescer quando paramos e vi o pesadelo que estava prestes a enfrentar. Como não pensei que iriamos de elevador? Aquelas portas metálicas fizeram um som que me fizeram arrepiar (plim!) e eu percebi que estava vazio. Meus pés me deixaram plantado no corredor enquanto Diego segurava a porta. Seu olhar queria dizer Vem logo enquanto o meu poderia ser algo mais Vou acabar desmaiando aqui mesmo. Então ele me puxou. Literalmente. A mão que segurava a porta agarrou meu braço com violência e me puxou para dentro, e eu já sou atrapalhado o suficiente sem isso. Acabei tropeçando em meus próprios pés e a porta (Plim!) fechou. Eu estava nos braços dele. Literalmente. Meu Deus, meu Deus… Esse é o perfume dele? É maravilhoso. Afastei-me imediatamente. — Tudo bem? — Perguntou ele, o rastro de um sorriso que tentava com todas as forças conter. Nem tanto assim. Ele deixou escapar um risinho. Cruzo os braços e tento parecer raivoso. — Você me puxou como se eu fosse uma criança. — Bom… Desculpe. Só quero chegar logo em casa. Franzi o cenho para ele. Outro risinho contido. — Eu moro aqui há um tempo. Não quero comprar uma casa e ter que contratar empregados… Aqui eu posso só pedir. E, de qualquer maneira, passo mais tempo fora. — Diego dá de ombros. Eu posso apostar que ele passa mesmo muito tempo fora. Ele é um daqueles homens de olhar ferino e de sorriso conquistador. Fala sério, ele poderia muito bem ser algum dublê do Henry Cavill ou algum assim. Será que ele já atuou como modelo? Não pelas pesquisas — embora rasas — que fiz. Talvez algumas horas na internet com o nome dele em busca eu consiga alguma coisa. — Para que andar nós vamos? — Questiono. Ainda saíamos do quarto andar. — Para a cobertura. — Ele me disse, como se eu devesse saber. Eu não tenho que saber nada aqui! Isso me fez ter algumas perguntas na ponta da língua. — O que sua mãe diria se soubesse que está trazendo um cara que você nem conhece para dentro da sua… moradia? Ele parou e pensou por um instante. Eu soube que ele amava a mãe dele, e que era amado de volta. Deu para perceber isso só pelo jeito que eles se encararam em frente aos jornalistas comigo ainda parado como um tonto olhando-os. Havia tanto amor em seus olhares que, confesso, fiquei com uma certa inveja. Mas não me culpo totalmente e se Diego soubesse sobre minha mãe e de como era minha vida, não me julgaria. Outra coisa que notei. Essa é uma coisa boa. Para mim. Ele tinha medo da mãe — não aquele medo de pavor, medo de ela humilhá-lo ou algo assim. É apenas algo que senti. A mãe dele tinha aquele olhar de Deixe comigo e fique na sua que soa carinhosamente em tom materno. E Diego me parecia o filho obediente. Ele tinha cara de ser obediente e… Pisco, afastando todos os pensamentos desleixados que me vieram à mente. Não posso fazer isso. Eu me recuso. — Ela provavelmente me chamaria de i****a. Mas só se fosse qualquer um. — Eu sou qualquer um. Você não me conhece —eu me senti um personagem da Netflix dizendo aquilo, e ainda mais o cenário parecia perfeito para a frase: o elevador. Mesmo que eu ainda estivesse apreensivo com isso. — Bem, ela meio que te atropelou. Se eu contasse a ela, agora mesmo, que você está comigo ela diria algo como: ótimo, Diego, pergunte se ele não quer um quarto só para ele, e diga que estou o convidando para passar a tarde conosco e diga a ele… e mais milhões de coisas que tenho que dizer a você por causa dela. Entendeu? O sotaque dele era muito forte e ele falava depressa, mostrando bem os dentes e lambendo os lábios frequentemente. Eu havia entendido, mas me perdi em mais pensamentos bobos. — E sua mãe? Gaguejo. — O que tem ela? — O que ela diria se soubesse que você está comigo? Acabo sorrindo. Eu sabia evitar assuntos sobre minha mãe tão bem quanto sabia meu nome de trás para frente. — Ah… O que minha mãe acharia se eu contasse a ela que estou com o famoso Diego Laurent! Ela ficaria extasiada. Pode apostar. Ouvir sua gargalhada me pegou de surpresa. Certo, eu estava tentando ser engraçado — é como desvio das coisas, muitas vezes —, mas não esperava que ele fosse gargalhar com os olhos brilhando em diversão. Eu havia esquecido como era fazer alguém rir e deixar o clima mais leve. Eu havia esquecido como era me sentir mais leve mesmo que por cinco minutos. — Sua mãe estaria orgulhosa, então? Uma ferida minha ardeu. Nas costas. Decepção me veio à mente. Engoli a bile e tentei não abaixar minha cabeça. Assenti, sorrindo o máximo que conseguia porque, afinal, o que mais eu poderia dizer? Ele saberia que eu estava mentindo. É esse o meu outro lado da balança: desvio dos assuntos muito bem, mas minto muito m*l. — Você gosta do seu trabalho? — Pergunto. — Ah, na maioria dos dias, sim. Estou me estressando com algumas coisas… Nada importante. E você? Trabalha? — Ainda na faculdade. Ele maneou a cabeça. Sem mais perguntas. Ainda bem. A porta do elevador abriu, nos revelando um corredor iluminado e bonito, silencioso. — Vamos lá. O sigo.     Enquanto andávamos eu senti meu corpo protestando. Então fiz alguns cálculos que me causaram dor de cabeça. Eu não dormia a quase três dias, a cafeína nas minhas veias estavam me abandonando e, além do meu estado crítico, eu sentia meu estômago revirando ao sentir um cheiro adocicado em alguma dessas outras portas de mogno, trancadas, mas com ruídos. Famílias. Casais, apenas. Cachorros? Não sei, pode ser alguma televisão. Sinto conturbado queimar na minha panturrilha. Logo depois, na minha nuca medo ser traçado por um dedo de fogo. Fico quieto e aperto as alças da bolsa. Sinto que posso mesmo acabar desmaiando. Acabo me distanciando de Diego o suficiente para que ele desse falta da minha presença em suas costas, e quando ele se vira, tenho que me apoiar em uma parede porque fiquei zonzo. Não uma tonteira comum, de quando nos levantamos rápido demais, mas a tonteira que faz as paredes dançarem e flash de luz aparecerem na sua frente, onde o chão ondula. Minhas pernas perderam um pouco da força. Sinto os braços dele ao meu redor no que pareceu ser o exato segundo em que senti a parede me sustentando. — Hall? — chamou. Ele estava preocupado. Droga. Tudo o que eu menos queria era deixá-lo preocupado. Não tenho tempo para pensar em sentir remorso por ter aceitado vir com ele. Digo que estou bem e tento parecer fazer que é verdade. Mas vacilo ao dar um passo. Quase caio de novo. Ele me segura. Então vou com ele até uma das portas grandes e entramos. Ele está me segurando junto a si, meu braço em seu ombro. Pareço um bêbado sendo tirado do bar e sendo levado para casa, indesejavelmente. Fardo acendeu em minhas costelas. Fechei os olhos por um momentinho. Quando os abro estou sendo guiado para um cômodo onde só há branco, prata e bege. Parece o céu de uma pessoa perfeccionista. Então, desesperado, percebo que é o banheiro. Diego está querendo me colocar na banheira dele, que mais se parece uma concha de granizo. Encontro forças de onde não tenho para me afastar dele. — Deixe que eu ajude, você pode cair. — Não — arfo —, eu consigo. Estava cansado. Parecia que tinha corrido até aqui. Eu não poderia deixar, de jeito nenhum, que Diego me visse sem roupa. Não. Nem ferrando. Não, mil vezes… — Diego, sai. Por favor. Eu já vou. Ele me olhou, ainda hesitante em me deixar. Acabo assentindo duas vezes para que ele tenha a certeza. Consigo ficar em pé sozinho e meu corpo não treme mais se eu conseguir evitar. Fico olhando enquanto ele ajeita a própria camisa e se retira, dizendo que ficaria atento. A porta se fecha. Então corro até ela e a tranco, mas isso não me alivia muito porque sei que ele pode ligar para a recepção e pedir a chave reserva. Ele conseguiria entrar aqui de um jeito ou de outro se eu demorasse. E não pretendo demorar. Não gosto da ideia da banheira; realmente posso cair. Então vou ao chuveiro, no outro estremo do banheiro. Em frente ao chuveiro há um espelho que dominava quase a parede inteira, suas bordas eram de madeira entalhada em curvas bonitas de ondas. Eu me encarei e não gostei do que vi. Um garoto magro, pálido, com olheiras profundas e ossos do rosto proeminente, cabelos sujos e emaranhados… olhos sem brilho, lábios rachados. Era assim que eu estava. Quando tirei a camisa, já sabia o que encontraria. Sobre meu estômago estava malvado em cicatriz. Ao lado, nas costelas, logo acima da outra palavra, havia dor. Na minha cintura havia inútil. Meu corpo era quase inteiramente marcado por cicatrizes com adjetivos ruins. Meus adjetivos. Meus Adjetivos, melhor dizendo. Suspirei. Aquela imagem já não me afetava tanto, eu só não podia deixar que Diego as visse. E não veria mesmo, porque passando um dia aqui, eu irei embora, chegarei em casa e seguiremos nossos caminhos. Ele tinha coisas importantes para fazer, e eu… Ainda não sei. Meu celular havia descarregado totalmente. O coloco de lado, junto a pilha de roupas sujas. Liguei o chuveiro, mas não coloquei na água quente. Precisava ficar acordado por pelo menos dez minutos para agradecer a Diego por isso tudo… Ligar o chuveiro de jatos fortes em água quente seria pedir para dormir aqui mesmo no boxer. Passo sabonete com cuidado. Meu corpo estava dolorido, parecia que eu tinha apanhado e… Ah. Eu realmente apanhei. Do meu padrasto, antes de conseguir fugir de casa. Os hematomas em meu pescoço já haviam sumido, mas, se alguém trabalhasse com afinco para encontrá-los, logo conseguiria ver as pequenas marcas arroxeadas perto do pomo-de-adão. Me lavei e apreciei cada minuto.     Usava um roupão de banho branco. Eu poderia dormir com ele se quisesse. Os odores da minha camisa me faziam querer queimá-la. Saí do banheiro e encontrei o quarto vazio, mas, em cima da enorme cama de dossel — que era ridícula como eu havia imaginado — encontrei duas bandejas de prata. Uma delas tinha sopa, ainda quente. E no outro um pedaço de bolo de chocolate. Ah, Deus… — Abençoado seja — e eu não me referia a Deus. Comi tudo. E comi depressa. Quando acabou, eu quase chorei. A porta do quarto abriu e Diego apareceu, trazia duas sacolas de papel com logo de lojas que eu não conseguia ler, só sabia que eram vermelhas. Ele as colocou na cama também. — Sabem o que dizem que é necessário comprar logo depois de trazermos um estranho para casa? Não demoro a responder. — Cordas? — A comida havia melhorado o meu humor, mesmo que não tenha banido meu sono. Diego riu. — Não. Roupas de baixo. Ah. Pisquei, atônito. — Me diga que você está brincando. — Não estou. Olha. Abri uma das sacolas. Havia um pacote de cuecas pretas, uma camisa de regata e um casaco, uma calça moletom. A outra sacola tinha apenas uma escova de dentes e um carregador de celular. — Nossos celulares devem ser de marcas diferentes, por isso comprei esse. Acho que vai funcionar. Por um momento, fico sem saber o que dizer. O que posso dizer nessas circunstâncias? Queria muito dizer obrigado mas… — Não precisava. Eu vou embora amanhã logo cedo. Gastou seu dinheiro á toa. Ele deu de ombros. — Tudo bem. Mas eu sabia o que ele estava pensando: Dinheiro não é problema. Para ele podia até não ser, mas para mim era. — Ah, você comeu tudo. Eu pedi sopa porque me pareceu mais fácil. E acho que todo mundo gosta de bolo de chocolate. — Boas escolhas — é só o que digo. Ainda estou constrangido para voltar ao humor que desenvolvemos.  — Que bom. Você… A cama. Franzi o cenho. Não havia entendido o que ele queria dizer com… A cama. Só há uma cama. Acho que fico duplamente, triplamente envergonhado agora. Nunca precisei dormir com alguém antes, nem mesmo quando era criança. Meus pais sempre me deixavam dormir sozinho e eu não via problema nisso. Mesmo ao ter pesadelos eu voltava a dormir sozinho, ou ao ficar doente.   — Eu posso dormir com apenas um travesseiro nesse sofá — digo, apontando para um divã do outro lado do quarto. Parece ser confortável, de qualquer maneira. Apesar de estar na cobertura do hotel, Diego devia usar o outro espaço como escritório ou apenas o mantivesse trancado e agora ele estava sujo, ninguém conseguiria dormir lá. — Não… Vamos apenas… Durma. Eu não vou dormir agora. Geralmente fico a noite toda trabalhando na cozinha. — Tem certeza? Ainda não é tarde… Posso ir… — Tenho. Boa noite, Hall. — Obrigado. De verdade. Ele sorriu, e pareceu dizer “de nada” sem precisar utilizar as palavras. Ele saiu para que eu pudesse me vestir. Deixei a camisa regata de lado. Eu não a vestiria, de qualquer maneira. Usei o casaco, a calça moletom cinza e uma das cuecas, que eram extremamente confortáveis. Se tinha uma coisa que eu não suportava eram cuecas que incomodavam o saco. Insuportável. Usei uma das sacolas de papel para colocar minha roupa suja. Pus o celular no carregador e o deixei na mesinha de cabeceira, ao lado de um abajur elegante e uma pilha de papéis que podiam ser do trabalho dele. Não mexi neles. O meu diário ainda estava no fundo da mochila, mas eu não me sentia disposto a escrever qualquer coisa agora. Palavras escapam da minha mente, era como tentar pegar o vento. Exausto, me jogo no colchão enorme e macio. Adormeço.  Em determinado momento da noite — deveria ser madrugada, acho — eu senti o outro lado do colchão afundar. Meu sono era extremamente leve, não importa meu nível de cansaço ou ansiedade. Qualquer ruido alto demais me acordava e, apesar da cama não ter rangido, foi o corpo dele que estalou ao meu lado e um resmungo de cansaço saiu de seus lábios. Foi a coisa mais sensual que ouvi. Um travesseiro foi colocado às minhas costas, e então Diego se moveu mais um pouco. Ele estava tirando a camisa. Há coisas que só de ouvir, não se precisa ver, sua mente já descobre. E eu sou assim. Meu coração acelerou. Mantive meus olhos fechados e fingi estar dormindo mesmo quando ele digitava algo no celular. Minutos depois, ele o desliga, o coloca debaixo do travesseiro e se aconchega no colchão, com o lençol. O ar-condicionado foi ligado. O quarto esfria rapidamente. Sinto meu corpo voltando a relaxar quando o homem ao meu lado desliza o lençol sobre meu corpo, em um gesto quase fraterno. Conti um soluço de susto e emoção. Ele volta à mesma posição então dorme, eu não consigo. Diego não ronca. Sua respiração é lenta e ele nem se mexe. Eu poderia esquecer que ele estava do meu lado e que dividiríamos essa cama pelas próximas horas. O despertador dele provavelmente acabaria tocando lá pelas cinco da manhã em ponto, e eu acordaria no mesmo momento, levantando-me da cama e esperando para que saíssemos daqui. As coisas estavam começando a ser planejadas na minha cabeça, e isso me distraiu por algumas horas. Foi então que senti o travesseiro às minhas costas sumir. Aquela maciez que eu apreciava foi substituída por algo duro e que, lentamente, esquentava minhas costas inteira. Senti esse calor nos ossos. Então um braço musculoso passou por minha cintura e algo gelado tocou minhas omoplatas. Estremeci. O quarto continuava silencioso. Diego ainda dormia. Minha respiração voltou a ser um problema para mim. Não quis respirar muito alto, mas suspeitei que se minha respiração ruidosa não o acordasse, meu coração o faria. Sentia o sangue latejar nos ouvidos. O que estava acontecendo… Como isso aconteceu… Calma, não é nada demais… É sim! Estou desesperado… SE ACALME! Fechei os olhos. Eu iria conseguir dormir se me esforçasse. E, se eu me esforçasse o dobro, aquele braço e aquele calor poderiam ser bem-vindos. 
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