CAPITULO 1: Entre Tiros e Destino...
PIETRO LOMBARDI...
A Alemanha cheirava a pólvora.
Quase todas as missões tinham esse mesmo cheiro que surgia primeiro. Pólvora. Metal. Sangue...
A chuva caía fina sobre os contentores espalhados pelo porto industrial enquanto eu observava tudo através da mira da minha arma.
— Movimento às três horas — ouvi Alexander informar pelo comunicador.
Ajustei a posição atrás de uma pilha de contentores.
O meu coração estava estável. A minha respiração controlada. O meu dedo relaxado sobre o gatilho.
Aos vinte e seis anos, situações como essa, já faziam parte da minha rotina. Porque eu nasci dentro deste mundo. Sou filho de Enrico Lombardi. O Dom da Mafia Italiana... O meu pai começou a preparar-me cedo demais. A primeira vez que participei numa missão tinha apenas catorze anos. Lembrava-me perfeitamente. A expressão séria do meu pai. O olhar preocupado da minha mãe.
E a forma como ele me disse:
— Um dia tudo isto será teu. Precisas aprender.
E eu aprendi. Aprendi a negociar. Aprendi a comandar. Aprendi a sobreviver. Aprendi a matar quando necessário. Porque o mundo não perdoava fraquezas. Muito menos o nosso.
— Pietro.
A voz de Alexander trouxe-me de volta ao presente.
— Já os vejo.
Olhei novamente.
Três camiões. Dois jipes. Homens armados. Era a nossa carga roubada. Milhões em armamento. Mercadoria que deveria ter chegado à Itália há semanas. Mas alguém decidiu roubá-la. E isso tinha sido um erro. Um enorme erro. Porque ninguém roubava a família Lombardi. Ninguém.
— Esperamos mais dez segundos — ordenei.
Alexander soltou uma gargalhada.
— Estás cada vez mais parecido com o teu pai.
— Cala-te.
— É verdade.
— Cala-te antes que eu te deixe levar um tiro.
Ele voltou a rir. Aquele i****a conseguia brincar até nos momentos mais absurdos. Talvez fosse exatamente por isso que éramos amigos. Crescemos juntos. Treinamos juntos. Lutamos juntos. E sobrevivemos juntos. Como os nossos pais eram e são ate hoje...
— Agora!...
Tudo explodiu. Os primeiros disparos cortaram o silêncio. Homens correram. Gritos ecoaram.
Faróis iluminaram a chuva. E o caos começou. Saltei da minha posição. Dois homens vieram na minha direção. Disparei. Um caiu.
Depois outro. Alexander apareceu ao meu lado.
— À esquerda!
Virei-me imediatamente. Outro grupo. Mais disparos. Mais correria. Mais sangue. A batalha durou quase quarenta minutos.
Quarenta minutos que pareceram horas. Quando finalmente o silêncio regressou, eu estava coberto de chuva e suor. Observei os camiões. Intactos. Recuperados.
Missão cumprida!.
— O velho vai ficar satisfeito — comentou Alexander.
Peguei no telefone. Alguns segundos depois meu pai atendeu.
— Fala.
Sempre direto. Sempre objetivo. Sorri.
— A carga está segura.
Do outro lado houve silêncio.
Depois:
— Bom trabalho.
A aprovação dele ainda significava muito para mim... Mesmo após tantos anos.
— Os camiões já seguem para Itália.
— Excelente.
— Ficaremos mais alguns dias por aqui.
— Tudo bem. Resolva o resto e volte para casa.
Casa. A palavra trouxe imediatamente a imagem da minha mãe.
Amira Lombardi. A única pessoa no mundo capaz de deixar o grande Enrico Lombardi completamente rendido. Depois a minha irmã Sophie...
Sorri sozinho.
— Vejo-vos em breve.
Desliguei. Alexander aproximou-se.
— Então?
— Estamos livres durante alguns dias.
O sorriso dele surgiu instantaneamente.
— Finalmente.
— Nem comecei a gostar dessa expressão.
— Precisamos de uma noite normal.
— Normal?
— Sim.
— Nós não sabemos o significado dessa palavra.
— Então vamos fingir.
Algumas horas depois. Tomávamos banho. Vestíamos roupas limpas. E tentávamos agir como dois homens comuns. O problema era que não éramos. Nunca fomos. Mesmo assim, naquela noite, decidimos tentar. A ‘boate’ era uma das mais exclusivas da cidade.
Música alta. Luzes coloridas. Corpos dançando. Álcool. Luxo. Exatamente o tipo de lugar onde ninguém fazia perguntas.
Assim que entramos fomos conduzidos para a área VIP. Alexander parecia uma criança num parque de diversões.
— Isto sim é vida.
Revirei os olhos.
— És ridículo.
— Sou feliz.
— Não é a mesma coisa.
— Para mim é.
Sentamo-nos. Bebidas chegaram. Mulheres também bonitas e elegantes. Interessadas.
Mas nenhuma me despertava absolutamente nada. Uma delas sentou-se ao meu lado. Outra tentou conversar. Uma terceira passou a mão pelo meu ombro. Nada. Eu sorria por educação. Mas não sentia interesse. Nenhum. Enquanto isso Alexander parecia determinado a conhecer metade da cidade.
— Aquela loira quer casar comigo.
— Ela nem sabe o teu nome.
— Detalhes.
— És um caso perdido.
— E tu és um velho de vinte e seis anos.
Talvez fosse verdade. Talvez eu estivesse cansado demais. Ou talvez simplesmente estivesse à procura de algo que nem eu sabia explicar. Após algum tempo levantei-me.
— Onde vais?
— Dar uma volta.
— Se encontrares uma mulher bonita manda para mim.
— i****a.
Afastei-me. Desci para a área principal. Passei por grupos de pessoas. Observei saídas. Entradas. Seguranças.
Era um hábito impossível de perder. Foi então que a vi. Sozinha. Sentada ao balcão do bar. Imóvel. Enquanto o barman lhe servia outra bebida. Ela não parecia estar ali. Parecia perdida algures dentro da própria cabeça. O cabelo castanho caía sobre os ombros.
Os olhos estavam ligeiramente inchados. Como alguém que tinha chorado. Muito. Havia tristeza naquele rosto. Mas também havia força.
Algo difícil de explicar. Fiquei a observar durante alguns segundos. Algo nela chamou a minha atenção imediatamente. Talvez fosse o contraste. Ela era linda. Mas não tentava ser. Não sorria. Não flertava. Não procurava atenção. Estava apenas ali. Sozinha.
Com o coração claramente partido. Aproximei-me. Sentei-me ao seu lado. Pedi uma bebida. Ela nem olhou para mim.
Então falei:
— Espero que essa melancolia não seja por causa de algum i****a qualquer.
O silêncio durou alguns segundos. Ela pegou no copo. Bebeu tudo de uma vez. Depois virou o rosto. E finalmente me olhou.
Foi um erro. Porque naquele instante senti algo estranho dentro do peito. Algo que não fazia sentido. Os olhos dela encontraram os meus. E durante um segundo o resto do mundo desapareceu.
— Tem razão — respondeu. — Ele não merece.
A voz era suave. Mas carregava dor. Muita dor. Sorri.
— Então já é um começo.
Pela primeira vez vi um pequeno sorriso surgir nos lábios dela. Pequeno. Quase invisível. Mas suficiente.
— Costuma abordar mulheres tristes em bares?... Perguntou ela...
— Não!
— Então sou uma exceção?
— Claramente.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E porquê?
Sorri. Porque nem eu sabia responder. Porque havia algo nela. Algo que me impedia simplesmente de ir embora. Algo que me fazia querer continuar aquela conversa. Algo perigoso.
— Ainda estou tentando descobrir.
Os olhos dela prenderam-se aos meus. E naquele momento senti a mesma certeza que tinha antes de uma batalha. A sensação de que algo importante estava prestes a acontecer. Olhei para cima. Na direção da área VIP.
Depois voltei para ela.
— Estou lá em cima.
Ela permaneceu em silêncio.
— Quer vir comigo?
Ela hesitou. Natural. Inteligente até. Não me conhecia. Eu era um estranho.
Mas continuei:
— Acho que é mais seguro do que ficar aqui sozinha.
Os olhos dela estudaram meu rosto. Como se procurassem algum sinal. Alguma mentira. Alguma ameaça. Mas acabaram encontrando apenas sinceridade. Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não queria nada além de conversar.
Então estendi a mão. Ela observou-a durante alguns segundos e achei que ia recusar... Mas, para minha surpresa... Colocou a dela sobre a minha. Uma corrente elétrica atravessou-me imediatamente. Algo simples. Um toque. Mas suficiente para me deixar sem palavras. Ela levantou-se. E disse:
— Está bem.
Sorri. Sem perceber.
E juntos começamos a caminhar em direção à área VIP...