O Homem Misterioso...
A fotografia continuava entre os meus dedos. Era curioso... Uma simples folha de papel podia carregar tanto significado. Passei lentamente o polegar sobre o rosto dela. Roksana. Sorri sem perceber. Ela estava linda naquela fotografia. O cabelo caía sobre os ombros. Os olhos brilhavam enquanto ria. E aquele sorriso... Aquele sorriso ainda não me pertencia. Mas um dia iria pertencer.
Levantei-me da cadeira e caminhei lentamente até à enorme janela do escritório.
Lá fora, a neve começava novamente a cair. A cidade permanecia silenciosa. Fria. Como eu gostava. Mas os meus pensamentos estavam longe dali. Estavam nela. O telemóvel vibrou sobre a mesa. Olhei para o visor. Rússia. Atendi imediatamente.
— Fale.
Do outro lado ouvi a voz firme de um dos meus homens.
— Chefe... aconteceu um problema aqui.
Franzi o cenho.
— Que tipo de problema?
— Precisamos da sua presença. Pessoalmente.
Fechei os olhos durante alguns segundos. Aquilo não podia acontecer naquele momento. Eu tinha outros planos. Muito mais interessantes.
Muito mais importantes. Mas havia coisas que só eu podia resolver.
— Estou indo.
— Vamos preparar tudo.
— Quero todos reunidos quando eu chegar.
— Sim, chefe.
A ligação terminou. Permaneci alguns segundos imóvel. Depois voltei até à mesa. Peguei novamente na fotografia de Roksana.
Aproximei-a lentamente do meu rosto. Sorri. Um sorriso pequeno. Estranho. Quase carinhoso.
— Vai ter de esperar mais um pouco, querida...
Passei novamente o dedo sobre a fotografia.
— Mas eu volto.
Minha voz saiu baixa. Fria.
— E quando eu voltar...
Pousei um beijo sobre a fotografia.
— Vou buscar-te.
Guardei cuidadosamente a fotografia dentro de uma pasta preta. Depois desliguei as luzes do escritório. Era hora de partir. Mas aquela pausa seria apenas temporária. Porque algumas obsessões... Não desaparecem. Apenas adormecem.
PIETRO...
Nunca gostei de deixar pontas soltas. Muito menos quando essas pontas envolviam Roksana. Durante três dias Alexander e os rapazes trabalharam praticamente sem dormir. Rastrearam a mensagem. O número. O telemóvel. As antenas. Tudo. E mesmo assim...
Nada. Aquilo não fazia sentido. Eu estava sentado no apartamento que alugava sempre que vinha à Alemanha.
Alexander entrou sem bater. Como fazia desde que tínhamos quinze anos. Atirou uma pasta sobre a mesa.
— Más notícias.
Levantei imediatamente o olhar.
— Encontraste alguma coisa?
Ele suspirou.
— Encontrei.
— Então fala.
Alexander cruzou os braços.
— Simon não enviou a mensagem.
O silêncio instalou-se imediatamente. Fiquei olhando para ele durante alguns segundos. Esperando que dissesse que era brincadeira.
Mas ele não sorriu.
— Tens certeza?
— Absoluta.
— Como?
— Os horários não batem.
Abriu a pasta. Mostrou-me fotografias. Registos. Localizações.
— Enquanto a mensagem foi enviada... o Simon estava em outro lugar.
Passei a mão pelos cabelos. Aquilo complicava tudo. Porque durante todo este tempo eu acreditava que ele era o único suspeito.
E agora... Já não era.
Alexander continuou.
— Também investigámos Evelyn.
Olhei para ele.
— Nada.
Respirei lentamente.
— Então temos um terceiro elemento.
— Exatamente.
Olhei pela janela. A cidade parecia exatamente igual. Mas alguma coisa tinha mudado. Muito. Porque um inimigo desconhecido é sempre mais perigoso do que um inimigo conhecido.
Alexander aproximou-se.
— O que vais fazer?
Nem precisei pensar.
— Redobrar a segurança dela.
— Ela vai perceber?
Sorri.
— Não.
— Tens certeza?
— Ela nunca pode perceber.
Alexander começou a rir.
— Sabes...
Às vezes esqueces-te que és um mafioso terrível. Olhei para ele.
— Porquê?
— Porque quando se trata dela... Pareces apenas um homem apaixonado.
Baixei os olhos. Talvez ele tivesse razão. Mas isso não mudava nada. Porque apaixonado ou não... Ninguém pisaria sequer perto de Roksana sem que eu soubesse. Naquela mesma noite mais quatro homens passaram a integrar discretamente a vigilância. Um no prédio. Outro próximo do estágio. Outro acompanhando os trajetos. E mais um alternando os horários. Nenhum deles usava roupa formal. Nenhum parecia segurança.
E todos tinham apenas uma ordem. Proteger. Sem serem vistos. Sem interferir. Sem assustá-la. Os dias seguintes passaram rapidamente. Tentei agir normalmente. Passeávamos. Íamos jantar. Ríamos. Ela falava do estágio. Eu fingia que não analisava todas as pessoas à nossa volta. Ela nunca percebeu. Ou pelo menos fingiu que não. E isso tranquilizava-me. Porque a última coisa que queria era vê-la viver com medo.
Infelizmente... Chegara a hora de voltar para Itália. E pela primeira vez desde que nos conhecemos... Não queria entrar naquele avião. Porque deixar Roksana naquela cidade sabendo que alguém a observava... Era contra todos os meus instintos. Mesmo assim... Era inevitável. No aeroporto ela abraçou-me demoradamente.
— Vais demorar?
Sorri.
— Alguns dias.
Ela fez uma pequena careta.
— Não gosto.
Aproximei-me um pouco mais.
— Eu também não.
Ela segurou minha mão.
— Liga-me quando chegares.
— Prometo.
— Todos os dias.
Ri.
— Todos os dias.
Beijei-lhe a testa. Depois entrei na área de embarque. Mas antes de desaparecer olhei uma última vez para trás. Ela ainda estava ali.
Sorrindo para mim. Sem imaginar que, mesmo à distância... Eu continuaria protegendo-a.
SIMON...
Nunca imaginei que iria querer falar com Roksana... para protegê-la. Depois de ve-la com aquele homem... A vida realmente dava voltas estranhas. Olhei novamente para a fotografia que tinha recebido. Depois para o telemóvel. Outra chamada recusada. Na verdade... Nem chamada era. Eu continuava bloqueado. Respirei fundo.
— Droga...
Passei a mão pelo rosto. Eu precisava avisá-la. Precisava dizer que alguém também me tinha enviado aquela fotografia. Que aquilo não era normal. Mas como? Ir ao apartamento? Bruno provavelmente matava-me. Esperar na saída do estágio? Ela nem me ouviria.
Mandar carta? Ridículo. Sentei-me no sofá completamente frustrado. Pela primeira vez desde que tudo acabara...
Não queria reconquistá-la. Queria apenas que ela estivesse bem. Porque, apesar de todos os meus erros... Nunca suportaria saber que alguém lhe fazia m*l. E essa sensação... Começava a crescer dentro de mim como um pressentimento impossível de ignorar. Alguma coisa estava para acontecer. E eu só rezava para chegar a tempo de impedir.