CAPITULO 10: A Noite da Verdade...

1316 Words
ROKSANA... Duas semanas. Duas semanas inteiras a fingir. A sorrir. A olhar para Simon e Evelyn como se não soubesse exatamente quem eles eram. Foi cansativo, CONFESSO. Mais cansativo do que qualquer exame da faculdade. Mais cansativo do que qualquer noite sem dormir. Porque todos os dias eu precisava fingir que continuava a mesma Roksana. A namorada apaixonada. A melhor amiga dedicada. A mulher ingénua. Mas a verdade era outra. Aquela versão de mim tinha morrido. E naquela noite... Finalmente seria enterrada. Durante aquelas duas semanas, Simon tentou beijar-me várias vezes. E todas as vezes eu encontrava uma desculpa. E ele acreditava. — Estou com aftas. — A minha garganta está horrível. — Acho que estou ficando gripada. — Não quero que te contamine. — É para o teu bem, amor. E ele acreditava. Ou fingia acreditar. Porque o grande problema era que eu já não conseguia suportar o toque dele. Antes eu sonhava com aqueles beijos. Agora sentia nojo só de imaginar. Porque cada vez que Simon se aproximava... Eu lembrava-me da Evelyn. Lembrava-me daquele apartamento. Lembrava-me das mentiras. O mais irónico? Era perceber que toda aquela paciência dele não vinha de amor. Vinha de conveniência. Porque havia outra pessoa satisfazendo aquilo que eu recusava. E essa pessoa era justamente a mulher que eu chamava de melhor amiga. Pelo menos uma coisa precisava admitir. Bruno sempre teve razão. Sempre. Meu irmão nunca gostou de Simon. Nunca. Desde o primeiro dia. Durante anos achei que era exagero. Ciúmes. Proteção excessiva. Mas agora percebia. Bruno tinha um talento especial para identificar idiotas. E Simon era o rei deles. Na noite da festa dos finalistas acordei com uma calma estranha. Era quase assustadora. Não havia ansiedade. Não havia medo. Não havia dúvidas. Apenas certeza. Quando terminei de me arranjar, observei-me diante do espelho. O vestido azul-escuro caía perfeitamente pelo meu corpo. Os ombros descobertos. O cabelo ondulado. A maquilhagem discreta. O colar com o pequeno diamante brilhando sob a luz. Os saltos prateados. Pela primeira vez em muito tempo... Gostei do que vi. Não porque estivesse bonita. Mas porque parecia forte. Quando desci as escadas encontrei meus pais na sala. Minha mãe foi a primeira a reagir. — Meu Deus. Meu pai levantou os olhos do jornal. E ficou alguns segundos em silêncio. — Adrien. Disse minha mãe. — A nossa filha está deslumbrante. Meu pai sorriu. — Está mesmo filha... Aquilo aqueceu meu coração. — Obrigada. Foi então que Bruno apareceu. E imediatamente analisou-me da cabeça aos pés. — Se algum i****a estragar esta noite... Suspirei. — Bruno. — Estou apenas dizendo. — Não estás ajudando. — Estou ajudando sim. — Não estás. — Estou. Meu pai começou a rir. Minha mãe também. — Ela está linda sim mae... Concluiu Bruno. Sorri. — Obrigada. — Mas continuo disposto a partir a cara de alguém se for necessário. — Bruno! — O quê? — Exatamente. Ah! Meu irmão. Pedi ao motorista que me levasse. Não queria conduzir. Queria chegar tranquila. Preparada. Porque aquela noite prometia. E eu sabia exatamente porquê. Quando o carro parou diante do salão senti o coração acelerar. Não por nervosismo. Mas por antecipação. A tempestade estava prestes a começar, assim que desci do carro vi Simon e Evelyn. Juntos. Como sempre. Era quase impressionante. Pareciam viver colados um ao outro. Simon aproximou-se imediatamente. — Uau... Os olhos dele percorreram-me lentamente. — Amor... estás deslumbrante. Sorri. — Obrigada. Ao lado dele vi Evelyn. Por um segundo. Apenas um segundo. Vi algo atravessar o olhar dela. Inveja. Pura. Depois desapareceu. Substituída por um sorriso perfeito. — Amiga, estás incrível. — Obrigada. Respondi. — Vocês também estão lindos. Mentira. Mas uma mentira educada. Entrámos juntos. O salão estava magnífico. Luzes douradas. Música suave. Mesas elegantes. Flores. Fotógrafos. Professores. Todos felizes. Sem imaginar o que estava prestes a acontecer. Fomos buscar bebidas. Conversámos. Tirámos fotografias. E eu continuei representando. Até chegar o momento da primeira dança.. Como sempre. Simon era o meu par. Enquanto dançávamos senti o olhar dele sobre mim. Constante. Pesado. Quase como se estivesse tentando recuperar algo. Em determinado momento ele aproximou-se. Demasiado. E percebi a intenção.Antes que os lábios dele chegassem perto dos meus... Virei discretamente o rosto. Como já vinha fazendo há dias. Pelo canto do olho vi o cenho dele franzir. Mas logo desapareceu. — Estás muito estranha ultimamente. Murmurou. — Estou? — Sim. — Talvez esteja cansada. — Podemos conversar depois da festa? Olhei para ele. Se ao menos soubesse! — Claro. — Mesmo? — Sim. Sorri. Um sorriso que ele interpretou completamente errado. Porque não era carinho... Era despedida. A música terminou. Todos aplaudiram. Os casais afastaram-se. A veterana responsável pela cerimónia caminhou até ao palco. Pegou no microfone. E abriu a boca para falar. Mas nunca chegou a dizer uma única palavra. Porque nesse instante... A tela gigante atrás dela acendeu. E o vídeo começou. O salão inteiro congelou. Eu também. Ou pelo menos fingi. Porque aquela era a minha atuação final. E precisava ser perfeita. Na tela apareciam Simon e Evelyn. Sem espaço para dúvidas. Sem espaço para explicações. Sem espaço para mentiras. Os rostos deles estavam perfeitamente visíveis transando. O silêncio inicial durou apenas alguns segundos. Depois veio o choque. Os murmúrios. As perguntas. Os comentários. — Meu Deus... — Não acredito... — Não é o namorado da Roksana? — E a melhor amiga dela? — Que horror. — Como tiveram coragem? — Que vergonha. As vozes multiplicavam-se por todo o salão. Eu virei lentamente para a tela. Abri a boca. Levei a mão aos lábios. Como se estivesse descobrindo tudo naquele momento. Depois olhei para Simon. E finalmente deixei que a raiva aparecesse. Sem fingimento. Porque aquela parte era real. Muito real. Ele ficou pálido. Completamente pálido. — Rox... Olhei para Evelyn. Ela parecia prestes a desmaiar. O rosto vermelho. Os olhos cheios de lágrimas. Pânico absoluto. — Rox... Tentou Simon novamente. — Não é o que parece. A frase mais estúpida da história da humanidade. — Não é o que estou pensando?... Perguntei incredula.. — Eu posso explicar. — Explicar? Minha voz falhou. Porque durante um segundo lembrei-me da dor verdadeira. Da humilhação verdadeira. Da traição verdadeira. E aquilo bastou. O tapa ecoou pelo salão inteiro. Simon levou a mão ao rosto. E todos ficaram em silêncio. E ele havia segurado o meu braço.. — ME SOLTA, SEU CANALHA! Foi a única coisa que consegui dizer. Então virei-me. E fui embora. Sem olhar para trás. As lágrimas começaram a cair. Algumas verdadeiras. Outras nem tanto, fazia parte do drama... Mas naquele momento já não importava. Atrás de mim ouvi Simon gritando. — ROX! Ignorei. — ROKSANA! Continuei andando. Depois ouvi confusão. Gritos. Evelyn chorando ao longe... Mas não parei. Eu estava cansada. Tão cansada. Quando finalmente atravessei as portas do salão. Congelei. Porque havia um homem encostado a um carro preto. Como se estivesse esperando alguém. Como se estivesse esperando por mim. Pietro. Meu coração disparou imediatamente. Eu nem sabia que ele já tinha chegado. Nem fazia ideia de como tinha descoberto onde eu estava. Mas naquele momento... Não me importei. Porque pela primeira vez naquela noite... Senti segurança. Ele viu as lágrimas. Viu meu estado. E não fez perguntas. Nem uma única. Apenas abriu a porta. E eu entrei. Como se fosse o lugar mais seguro do mundo. Alguns segundos depois Pietro ajustava o meu cinto. Com calma. Com cuidado. Como sempre. Foi então que vi Simon saindo do salão. Correndo. Desesperado. — ROKSANA! Pietro também viu. Os olhos dele acompanharam a cena pelo retrovisor. Mas continuou em silêncio. Nem uma pergunta.Nem um julgamento. Nada. Apenas ligou o carro. E afastou-se. Deixando para trás uma festa. Uma traição...Um relacionamento morto. Enquanto eu observava as luzes da cidade através da janela... Percebi uma coisa. Aquela noite não tinha sido o fim. Tinha sido apenas o começo. De alguma forma eu me sentia aliviada...
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