CAPITULO 15: Um Encontro para vida...

1149 Words
JOSH... Eu odiava viajar. Não porque tivesse medo de aviões. Nem porque não gostasse de conhecer novos países. O problema era outro. Viajar significava deixar Alice para trás. E Alice era a única pessoa no mundo que realmente importava para mim. Durante anos isso nunca foi um problema. Eu partia. Voltava. E tudo continuava igual. Mas desta vez era diferente. Precisava passar um mês inteiro em Itália. Trinta dias. Negócios. Reuniões. Acordos. Tudo relacionado com Enrico Lombardi. Um homem que eu respeitava profundamente. Mas que tinha o péssimo hábito de transformar reuniões em negociações intermináveis. Por isso desta vez não havia alternativa. Alice viria comigo. Quando entrei no quarto dela naquela manhã encontrei-a sentada na cama abraçada a um coelho de peluche. — Bom dia, princesa. Ela abriu imediatamente um sorriso. — Papá! Correu para os meus braços. E naquele instante todos os problemas do mundo deixaram de existir. Porque Alice tinha esse efeito. Aos dois anos de idade. Era impossível olhar para ela sem sorrir. Os cabelos castanhos. Os olhos enormes. As bochechas redondas. E aquele jeito de falar que ainda misturava palavras. — Vamos viajar. Disse-lhe. — Viajá? — Sim. — Avião? — Avião. Os olhos dela brilharam. — Grande? — Muito grande. — Uau. Ela bateu palminhas e eu comecei a rir. Era impossível não rir. A viagem correu melhor do que eu esperava. Alice passou metade do tempo olhando pela janela. E a outra metade fazendo perguntas enroladas, cheio de curiosidade... Apontava... — nuvem? — Sim. — pegar? — Não. — Porquê? — Porque estamos dentro do avião filha. — Ah... Cinco segundos depois. — outra nuvem? — Sim. — pegar essa pode? Suspirei. — Também não. — Ah. O jeito que ela desanimava era tao engraçado... A hospedeira quase caiu na gargalhada. Quando finalmente chegámos a Itália já era noite. Alice parecia cansada. Mas feliz. Levou o coelho de peluche apertado contra o peito durante todo o caminho até ao hotel. Eu estava aliviado. Porque a mudança tinha sido mais fácil do que imaginei. Ou pelo menos foi isso que pensei. Até às três da manhã. Quando ouvi um gemido vindo do quarto dela. Levantei-me imediatamente. A experiência ensina-nos algumas coisas. E uma delas é que pais nunca dormem realmente. Apenas descansam com um olho aberto. Apesar dela ter babas, eu sempre que posso gosto de estar perto... Quando toquei na testa da Alice senti imediatamente. Febre. Alta. Demasiado alta. Ela estava suada. O meu coração afundou. — Alice? Ela abriu os olhos lentamente. — Papá... A voz estava fraca. Maldição. Peguei nela imediatamente. — Vamos ao médico filha... Ela nem protestou. O que me preocupou ainda mais. Porque normalmente Alice protestava quando ouvia a palavra medico... Quinze minutos depois eu atravessava as portas de uma clínica privada. Com a minha filha nos braços. E o coração aos saltos. — Preciso de um médico! A rececionista levantou-se imediatamente. Mas antes que dissesse alguma coisa... Ouvi outra voz, se aproximando... — O que aconteceu? Virei-me. E foi então que a vi pela primeira vez. Uma mulher aproximava-se rapidamente pelo corredor. Bata branca. Cabelo preso. Expressão séria. Confiante. Bonita. Muito bonita. Mas naquele momento a minha preocupação estava toda concentrada em Alice. — Ela está com febre. A médica aproximou-se. Sem perder tempo. — Há quanto tempo? — Não sei. Acordei agora. Ela tocou na testa da minha filha. Depois observou-a atentamente. E imediatamente assumiu o controlo da situação.— Vamos para o quarto, para observa-la melhor. Foi tudo tão rápido que acabei apenas seguindo-a. Minutos depois estávamos num quarto. Alice já estava sendo observada. A médica fazia perguntas. Tomava notas. Dava instruções. E movia-se com uma eficiência impressionante. — Nome? — Alice Walter. — Idade? — Dois anos. — Alergias? — Nenhuma. — Doenças anteriores? — Não. Ela continuou trabalhando. Sempre calma. Sempre focada. Sempre profissional. E aos poucos a minha ansiedade começou a diminuir. Porque aquela mulher claramente sabia o que estava fazendo. Em determinado momento uma enfermeira aproximou-se. — Senhor, pode esperar do lado de fora. — Não. A minha resposta saiu tão rápido que até eu me surpreendi. A enfermeira piscou. — Senhor... — Eu fico. A médica olhou para mim. Durante alguns segundos. Depois suspirou. — Deixem-no ficar. A enfermeira pareceu surpresa. Mas obedeceu. E eu permaneci ali. Ao lado da minha filha. Sem intenção de sair. Nem por um segundo. Foi então que comecei a observar a médica. Não de propósito. Ou talvez um pouco. Porque era impossível não reparar nela. Principalmente quando estava com Alice. A forma como falava. A paciência. A delicadeza. O cuidado. Tudo parecia natural. Como se cuidar dos outros fosse simplesmente parte dela. Alice normalmente não gostava de hospitais. Mas em poucos minutos já respondia às perguntas daquela desconhecida. — Como te chamas? — Alice. — Quantos anos tens? Alice levantou dois dedos. A médica sorriu. — Muito bem. E Alice sorriu de volta. Aquilo pareceu uma vitória pessoal. Eu observava tudo. Quase hipnotizado. Porque durante toda a vida de Alice... Nunca tinha visto a mãe dela demonstrar aquele tipo de atenção. Nunca. Nem uma única vez. A Jennifer segurava a filha como se fosse uma obrigação. Aquela médica segurava-a como se fosse importante. E havia uma diferença enorme entre as duas coisas. Depois de alguns exames ela voltou. Consultou os resultados. E finalmente sorriu. Um sorriso pequeno. Mas suficiente para aliviar semanas de preocupação acumulada dentro de mim. — Não é nada grave. Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. — Tem certeza? Ela assentiu. — Apenas uma reação à mudança de clima. Acontece com algumas crianças. Fechei os olhos por um segundo. Respirando finalmente e agradeci de coraçao... — Obrigado. — Mas ela ficará em observação durante um dia. — Claro. — Depois poderá ir para casa. Assenti imediatamente. Ela começou a preencher alguns documentos. Enquanto eu observava Alice adormecida. E sem perceber... Voltei a olhar para a médica. Ela escrevia concentrada. Mordendo levemente o interior da bochecha. Completamente focada. E pela primeira vez naquela noite percebi uma coisa estranha. Já não estava olhando para ela como médico da minha filha. Estava apenas olhando. Observando. Decorando. Como se estivesse desenhando o rosto dela dentro da minha cabeça. Foi então que ela levantou os olhos. E me apanhou encarando-a. Diretamente. — Posso ajudar em alguma coisa? Maldição, fui apanhado... Sorri. Pela primeira vez em horas. — Sim. Ela ergueu uma sobrancelha. — Em quê? Olhei para Alice. Depois novamente para ela. — Obrigado por cuidar dela. Por um segundo algo mudou na expressão da médica. Algo suave. Quase impercetível. Mas bonito. Muito bonito. — É o meu trabalho. Sorri. — Talvez. Olhei para Alice. — Mas mesmo assim... obrigado. A médica sorriu de verdade. E eu tive a estranha sensação de que aquele não seria o último encontro entre nós... Faz muito tempo em que uma mulher nao me chama tanat atençao...
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