CAPITULO 23: Entre a Paz e o Passado...

997 Words
ROKSANA... Às vezes pergunto-me se é possível confiar novamente depois de ter o coração partido. Não falo apenas de perdoar. Perdoar é fácil. Difícil é acreditar outra vez. Difícil é olhar para alguém e não esperar que um dia vá embora. Ou mentir. Ou trair. Ou magoar... Durante semanas tentei organizar os meus pensamentos. O estágio ocupava grande parte dos meus dias. Casa. Trabalho. Estudo. E Pietro. Era praticamente essa a minha rotina. E estranhamente... Eu gostava dela. Gostava da tranquilidade. Gostava da estabilidade. Gostava da sensação de estar reconstruindo a minha vida. Mas ainda existia uma parte de mim que permanecia cautelosa. Porque eu tinha acabado de sair de uma relação longa. Porque ainda estava aprendendo a confiar novamente. E porque Pietro e eu... Ainda não tínhamos definido nada. Nada mesmo. Não éramos namorados. Não oficialmente. Não existiam promessas. Não existiam títulos. E talvez fosse exatamente isso que me deixava insegura. Porque e se eu estivesse confundindo tudo? E se aquilo fosse apenas carência? E se eu estivesse confundindo gratidão com amor? E se estivesse confundindo segurança com paixão? Suspirei. Era complicado. Muito complicado. Porque sempre que estava com Pietro... Todas aquelas dúvidas desapareciam. Como se nunca tivessem existido. Foi justamente por isso que a aparição de Simon naquele dia me irritou tanto. Eu tinha acabado de sair do estágio. Estava cansada. Exausta. Tudo o que queria era voltar para casa. Então o vi. Encostado ao meu carro. Esperando. O simples fato de vê-lo já foi suficiente para acabar com o meu bom humor. Franzi o cenho imediatamente irritada. — O que estás fazendo aqui? Simon pareceu nervoso. Pela primeira vez em muito tempo. — Rox... por favor. Revirei os olhos. — Fala. Ele respirou fundo. — Só peço cinco minutos. Cruzei os braços. — Tens dois. Aquilo pareceu magoá-lo. Mas sinceramente? Eu já não me importava. — Eu errei. Silêncio. — Eu sei. — Rox... — Simon, eu sei que erraste. — Então porque não me deixas explicar? Suspirei. Porque parte de mim já estava cansada daquela conversa. — Está bem. Ele passou a mão pelos cabelos. Claramente nervoso. — Dá-me mais uma oportunidade. — Não. — Nem me deixaste terminar. — Não preciso. — Rox... A voz dele falhou. — Eu vou consertar tudo. — Não vais. — Posso tentar. Balancei a cabeça. — Não. Pela primeira vez os olhos dele ficaram vermelhos. — Porquê? E então fiz a pergunta que realmente queria fazer. — Porque foi justamente ela? O silêncio caiu entre nós. Pesado. Incómodo. Simon baixou o olhar. Como alguém finalmente obrigado a encarar os próprios erros. — Eu não sei. A resposta saiu baixa. Fraca. — Não sabes? — Talvez porque ela estava sempre ali. — Isso não responde nada. — Talvez porque foi fácil. Aquilo arrancou uma gargalhada amarga de mim. — Fácil? — Sim. Ele passou a mão pelo rosto. — Eu não precisei conquistar nada nela... — Então trocaste cinco anos por facilidade? Simon não respondeu. Porque ambos sabíamos a resposta. Olhei para ele durante alguns segundos. E pela primeira vez não senti raiva. Nem tristeza. Nem amor. Nada. Absolutamente nada. E foi aí que percebi. Eu realmente tinha seguido em frente. — Simon. Ele levantou imediatamente a cabeça. — Sim? — Eu perdoo-te. Os olhos dele brilharam. Mas continuei antes que ele criasse esperança. — Mas não te quero de volta. O brilho desapareceu. Instantaneamente. — Rox... — Sou mesquinha. Sorri sem humor. — O que é meu não pode ser dividido. Silêncio. — E sinceramente... Olhei diretamente para ele. — Agora sinto nojo. Aquelas palavras atingiram-no como um soco. Eu vi. Vi claramente. Mas não retirei uma única letra. Porque era a verdade. Entrei rapidamente no carro. Antes que ele tentasse argumentar. Antes que tentasse convencer-me. Antes que me fizesse perder tempo. Quando liguei o motor ouvi-o gritar meu nome. Vi-o bater na janela. Vi-o desesperado. Mas pela primeira vez... Não olhei para trás. Quando cheguei ao apartamento estava completamente exausta. Atirei a bolsa sobre o sofá. Pedi a comida pelo aplicativo... E fui tomar banho. Precisava limpar a cabeça. Precisava esquecer aquele encontro. Precisava respirar. m*l sabia eu que o meu plano de ter uma noite tranquila estava prestes a falhar. Porque alguns minutos depois a campainha tocou. Estranhei. A comida tinha chegado rápido demais. Então fui abrir a porta. E congelei. Pietro. Ali. Na minha frente. Com um sorriso lindo. E um saco de comida na mão. Meu coração deu um salto tão grande que quase fiquei sem palavras. — Pietro?! — Surpresa. Comecei a rir imediatamente. Porque só ele conseguia transformar um dia horrível em algo leve. Algo feliz. Algo seguro. E talvez fosse exatamente isso que mais me assustava. A facilidade com que ele fazia tudo parecer melhor. Porque enquanto o observava entrar no apartamento... Enquanto o ouvia falar... Enquanto o via sorrir... Percebi uma coisa. A dúvida já não era se eu gostava dele. A dúvida era quanto tempo mais conseguiria esconder de mim mesma o quanto ele se tinha tornado importante. No dia seguinte fomos almoçar juntos. Como tantas outras vezes. Conversando. Rindo. Partilhando coisas simples. Momentos simples. Mas que para mim começavam a significar muito. E talvez fosse justamente por isso que o destino resolveu testar a minha paz. Porque quando estava sorrindo para Pietro... Quando me sentia segura. Ouvi uma voz. Uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar... — ROKSANA! Congelei. O sorriso desapareceu. Meu coração falhou um compasso. E lentamente levantei os olhos. Simon estava ali. Parado ao lado da mesa. Com o rosto tomado por raiva. Ciúme. Desespero. E algo perigoso. Muito perigoso. — O que estás fazendo com esse cara?! Por um segundo fiquei sem reação. Confusa. Sem entender como ele tinha aparecido. Nem o que estava acontecendo. Apenas me levantei. Instintivamente. E o silêncio caiu sobre a mesa. Pesado. Tenso. Como a calmaria antes de uma tempestade. E naquele instante tive a sensação de que nada voltaria a ser simples depois daquele encontro....
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