ROKSANA...
Às vezes pergunto-me se é possível confiar novamente depois de ter o coração partido. Não falo apenas de perdoar. Perdoar é fácil.
Difícil é acreditar outra vez. Difícil é olhar para alguém e não esperar que um dia vá embora. Ou mentir. Ou trair. Ou magoar...
Durante semanas tentei organizar os meus pensamentos. O estágio ocupava grande parte dos meus dias. Casa. Trabalho. Estudo.
E Pietro. Era praticamente essa a minha rotina. E estranhamente... Eu gostava dela. Gostava da tranquilidade. Gostava da estabilidade. Gostava da sensação de estar reconstruindo a minha vida. Mas ainda existia uma parte de mim que permanecia cautelosa. Porque eu tinha acabado de sair de uma relação longa. Porque ainda estava aprendendo a confiar novamente. E porque Pietro e eu... Ainda não tínhamos definido nada.
Nada mesmo. Não éramos namorados. Não oficialmente. Não existiam promessas. Não existiam títulos. E talvez fosse exatamente isso que me deixava insegura. Porque e se eu estivesse confundindo tudo? E se aquilo fosse apenas carência? E se eu estivesse confundindo gratidão com amor? E se estivesse confundindo segurança com paixão?
Suspirei. Era complicado. Muito complicado. Porque sempre que estava com Pietro... Todas aquelas dúvidas desapareciam.
Como se nunca tivessem existido. Foi justamente por isso que a aparição de Simon naquele dia me irritou tanto. Eu tinha acabado de sair do estágio. Estava cansada. Exausta. Tudo o que queria era voltar para casa. Então o vi. Encostado ao meu carro. Esperando.
O simples fato de vê-lo já foi suficiente para acabar com o meu bom humor. Franzi o cenho imediatamente irritada.
— O que estás fazendo aqui?
Simon pareceu nervoso. Pela primeira vez em muito tempo.
— Rox... por favor.
Revirei os olhos.
— Fala.
Ele respirou fundo.
— Só peço cinco minutos.
Cruzei os braços.
— Tens dois.
Aquilo pareceu magoá-lo. Mas sinceramente? Eu já não me importava.
— Eu errei.
Silêncio.
— Eu sei.
— Rox...
— Simon, eu sei que erraste.
— Então porque não me deixas explicar?
Suspirei. Porque parte de mim já estava cansada daquela conversa.
— Está bem.
Ele passou a mão pelos cabelos. Claramente nervoso.
— Dá-me mais uma oportunidade.
— Não.
— Nem me deixaste terminar.
— Não preciso.
— Rox...
A voz dele falhou.
— Eu vou consertar tudo.
— Não vais.
— Posso tentar.
Balancei a cabeça.
— Não.
Pela primeira vez os olhos dele ficaram vermelhos.
— Porquê?
E então fiz a pergunta que realmente queria fazer.
— Porque foi justamente ela?
O silêncio caiu entre nós. Pesado. Incómodo. Simon baixou o olhar. Como alguém finalmente obrigado a encarar os próprios erros.
— Eu não sei.
A resposta saiu baixa. Fraca.
— Não sabes?
— Talvez porque ela estava sempre ali.
— Isso não responde nada.
— Talvez porque foi fácil.
Aquilo arrancou uma gargalhada amarga de mim.
— Fácil?
— Sim.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu não precisei conquistar nada nela...
— Então trocaste cinco anos por facilidade?
Simon não respondeu. Porque ambos sabíamos a resposta. Olhei para ele durante alguns segundos. E pela primeira vez não senti raiva. Nem tristeza. Nem amor. Nada. Absolutamente nada.
E foi aí que percebi. Eu realmente tinha seguido em frente.
— Simon.
Ele levantou imediatamente a cabeça.
— Sim?
— Eu perdoo-te.
Os olhos dele brilharam. Mas continuei antes que ele criasse esperança.
— Mas não te quero de volta.
O brilho desapareceu. Instantaneamente.
— Rox...
— Sou mesquinha.
Sorri sem humor.
— O que é meu não pode ser dividido.
Silêncio.
— E sinceramente...
Olhei diretamente para ele.
— Agora sinto nojo.
Aquelas palavras atingiram-no como um soco.
Eu vi. Vi claramente. Mas não retirei uma única letra. Porque era a verdade. Entrei rapidamente no carro. Antes que ele tentasse argumentar. Antes que tentasse convencer-me. Antes que me fizesse perder tempo. Quando liguei o motor ouvi-o gritar meu nome.
Vi-o bater na janela. Vi-o desesperado. Mas pela primeira vez... Não olhei para trás. Quando cheguei ao apartamento estava completamente exausta.
Atirei a bolsa sobre o sofá. Pedi a comida pelo aplicativo... E fui tomar banho. Precisava limpar a cabeça. Precisava esquecer aquele encontro. Precisava respirar. m*l sabia eu que o meu plano de ter uma noite tranquila estava prestes a falhar. Porque alguns minutos depois a campainha tocou. Estranhei. A comida tinha chegado rápido demais. Então fui abrir a porta. E congelei. Pietro. Ali. Na minha frente.
Com um sorriso lindo. E um saco de comida na mão. Meu coração deu um salto tão grande que quase fiquei sem palavras.
— Pietro?!
— Surpresa.
Comecei a rir imediatamente. Porque só ele conseguia transformar um dia horrível em algo leve. Algo feliz. Algo seguro. E talvez fosse exatamente isso que mais me assustava. A facilidade com que ele fazia tudo parecer melhor. Porque enquanto o observava entrar no apartamento... Enquanto o ouvia falar... Enquanto o via sorrir... Percebi uma coisa.
A dúvida já não era se eu gostava dele. A dúvida era quanto tempo mais conseguiria esconder de mim mesma o quanto ele se tinha tornado importante.
No dia seguinte fomos almoçar juntos. Como tantas outras vezes. Conversando. Rindo. Partilhando coisas simples. Momentos simples. Mas que para mim começavam a significar muito. E talvez fosse justamente por isso que o destino resolveu testar a minha paz. Porque quando estava sorrindo para Pietro... Quando me sentia segura.
Ouvi uma voz. Uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar...
— ROKSANA!
Congelei. O sorriso desapareceu. Meu coração falhou um compasso. E lentamente levantei os olhos. Simon estava ali. Parado ao lado da mesa. Com o rosto tomado por raiva. Ciúme. Desespero. E algo perigoso. Muito perigoso.
— O que estás fazendo com esse cara?!
Por um segundo fiquei sem reação. Confusa. Sem entender como ele tinha aparecido. Nem o que estava acontecendo.
Apenas me levantei. Instintivamente. E o silêncio caiu sobre a mesa. Pesado. Tenso. Como a calmaria antes de uma tempestade.
E naquele instante tive a sensação de que nada voltaria a ser simples depois daquele encontro....