ROKSANA..
Durante três dias inteiros eu ignorei o cartão. Ou pelo menos tentei. A verdade é que o cartão estava sempre comigo. Na mesa de cabeceira. Na bolsa. Ao lado do telemóvel. Nas minhas mãos. Eu olhava para ele várias vezes ao dia. Depois fingia que não estava interessada. Depois voltava a olhar. Era ridículo. Completamente ridículo. Eu tinha vinte e cinco anos. Não quinze. Mas bastava olhar para aquele pequeno cartão branco para sentir o meu coração acelerar... "PIETRO LOMBARDI"
Até o nome dele parecia perigoso. Bonito. Forte. Marcante. Tal como ele.
Estava sentada na varanda da suíte do hotel quando o telemóvel apareceu novamente nas minhas mãos. Olhei para o número.
Suspirei. Bloqueei o ecrã. Desbloqueei. Voltei a bloquear.
— Isto é patético. Murmurei para mim mesma.
Então carreguei no botão de chamada. O coração quase saiu pela boca. Toque. Entrei em pânico.
Desliguei.
— Não!
Tapei o rosto com as mãos.
— Roxana, és uma i****a.
Do outro lado da Europa...
PIETRO...
Eu estava numa reunião. Uma reunião importante. Pelo menos deveria ser. Porque o meu telemóvel vibrou. Olhei. Número desconhecido. Atendi imediatamente. Silêncio.
— Olá?
Nada. A chamada caiu. Alexander começou a rir... Ele sempre goza comigo desde que voltamos, eu nao paro de olhar para o telemovel e estou mais distraido...
— Era ela?
Olhei para ele.
— Cala-te...
Entao ele respondeu a si mesmo mais baixo...
— Era ela.
— Não sabes disso... rebati...
— Sabes que era.
Infelizmente eu sabia. E isso só fez o i****a rir ainda mais.
— Estou apaixonado por ver-te sofrer.
— Sai do meu escritório.
— É o teu escritório agora?
— Sai.
Ele continuou rindo enquanto saía. Cinco minutos depois o telemóvel tocou novamente.
O mesmo número. Atendi antes do primeiro toque terminar.
— Olá.
Silêncio... Depois ouvi uma respiração... Como se nao soubesse o que dizer... entao continuei...
E sorri.
— Finalmente.
Do outro lado ouvi uma voz.
— Como sabias que era eu?
Fechei os olhos. Aquela voz. Mexia com tudo dentro de mim...
— Porque estava esperando.
Silêncio. Um silêncio diferente. Aquele tipo de silêncio que faz o coração acelerar.
— Ah.
Ela respondeu apenas isso... Sorri sozinho e brinquei...
— Ah?
— Não sabia que estavas esperando.
— Estava.
Outro silêncio.
— Isso é estranho?... Perguntei.
— Um pouco.
— Concordo.
— Então porque está sorrindo?
A minha gargalhada escapou.
— Como sabes que estou sorrindo?
— Porque consigo ouvir.
— Isso existe?
— Acabei de inventar.
Ela começou a rir. E foi nesse momento que percebi. Eu tinha sentido falta daquela voz. O que era um problema. Um enorme problema. Porque eu conhecia aquela mulher há poucos dias. E já estava a sentir falta dela. A conversa que deveria durar cinco minutos... Durou quase três horas. Falámos sobre tudo. Sobre nada. Sobre coisas importantes. Sobre coisas completamente inúteis.E foi precisamente isso que tornou tudo tão especial.
— Então foste mesmo para um spa?
Perguntei.
— Fui.
— E funcionou?
— Não.
— Tão mau assim?
— Sim.
— Porque?
Ela suspirou.
— Porque continuo pensando demasiado.
Fiquei em silêncio.
— Sobre ele?
Perguntei. Ela demorou a responder.
— Um pouco.
— E sobre ti?
Silêncio.
— Principalmente sobre mim.
Gostei daquela resposta. Ela foi sincera... Porque significava que ela estava começando a olhar para si mesma. E não apenas para a dor que alguém lhe causou. Entao continuou...
— E tu?
Ela perguntou.
— O quê?
— Tens namorada?
Engasguei-me com o café.
— Isso foi muito direto.
— Responde.
— Não.
— Nunca?
— Já tive relacionamentos... mas nada serio...
— Quantos?
— Interrogatório?
— Sim.
— Não vou responder.
— Covarde.
— Tu primeiro.
— Também não.
— Vês?
— Não é a mesma coisa.
— Claro que é.
Ela voltou a rir. E pela primeira vez em muito tempo... Eu queria continuar ouvindo aquele som para sempre.
Dias depois...
ROKSANA...
Voltei para casa. Minha mãe abriu a porta. E abraçou-me imediatamente.
— Finalmente.
— Mãe.
— Estava preocupada.
— Eu sei.
— Ainda estou.
Sorri. A minha familia é a minha maior fortalez, o mundo pode desabar la fora, mas quando estamos juntos me torno mais forte... Ter o amor deles é tudo... Ela segurou meu rosto como se checasse se eu chorei muito...
— Estás melhor?
Pensei em Pietro. Automaticamente.
— Acho que sim.
Ela observou-me durante alguns segundos. Tempo suficiente para me deixar nervosa. Minha mae parece que conseguia ver ate a minha alama as vezes... Mas ela nunca foi invasiva, mas esta la sempre para me ouvir e aconselhar...
— O quê?
— Nada.
— Mãe.
— Nada.
— Estás fazendo aquela cara.
— Que cara?
— A cara de quem sabe alguma coisa.
Ela sorriu.
— Talvez eu saiba.
Meu Deus. Mães são assustadoras. Principalmente a minha. Naquela mesma noite... Bruno apareceu no meu quarto. Sem bater. Como sempre.
— Quem é ele?
Quase deixei cair o telemóvel.
— O quê?
— O homem.
— Que homem?
— O homem.
— Não existe homem nenhum.
— Mentira.
— Bruno.
— Estás a sorrir para o telemóvel.
— E?
—Só fazes isso quando gostas de alguém.
— Não gosto.
— Gostas.
— Não gosto.
— Gostas.
— Tenho vinte e cinco anos.
— E?
— Parece que tenho doze quando falas assim.
— Continuo esperando o nome.
Cruzei os braços.
— Não vou dizer, nao é da sua conta...
— Então existe. e espero que tenhas largado aquele encosto o Simon...
Maldição. Bruno abriu um sorriso vitorioso.
— Sabia.
— Sai do meu quarto.
— Como se chama?
— Bruno.
— Como se chama?
— Bruno.
— Vou descobrir.
— Sai.
— Vou descobrir.
—Sai!
Ele saiu rindo. Eu atirei uma almofada. Falhei. Infelizmente. Porque ele merecia. Muito.
Na mesma noite...
PIETRO
Estava jantando com a família quando o meu telemóvel vibrou. Uma mensagem. De Roksana. E imediatamente sorri. Foi um erro.
Porque toda a mesa viu. Toda. Sem exceção.
— Quem é ela?
Perguntou minha mãe.
Pronto. Começou.
— Quem é quem?
— A mulher.
— Que mulher?
— Pietro.
Meu pai continuou comendo. Mas eu sabia. Ele também estava ouvindo. Sophie levantou uma sobrancelha
— Claro.
Disse minha mãe.
— Absolutamente nenhuma.
— Pietro está apenas sorrindo para o telemóvel durante o jantar.
Disse Sophie.
— Isso nunca aconteceu.
— Nem uma única vez.
— Obrigado pelo apoio... Disse eu a minha irma com ironia...
— Estamos aqui para ajudar... respondeu ela rindo...