nao chora

1462 Words
O corredor ainda estava em silêncio quando Piper finalmente conseguiu respirar direito. As meninas tinham ido embora quase correndo depois da ameaça de Dean, mas o clima pesado continuava ali. Ela sentia todos olhando. Alguns alunos tinham parado no corredor durante a discussão. Outros fingiam não prestar atenção. Mas todo mundo viu. E aquilo fez Piper sentir ainda mais vergonha. Sam ainda segurava delicadamente o braço dela. — Você machucou o joelho? — Não… tá tudo bem. A voz saiu baixa demais. Claramente falsa. Dean continuava parado poucos passos à frente dela, o maxilar travado de raiva. Os olhos dele desciam rapidamente pelo corpo dela procurando algum machucado mais sério. Aquilo deixava Piper nervosa. Porque ninguém nunca ficou daquele jeito por causa dela. Nunca. — Elas te machucaram? — Dean perguntou outra vez. Piper balançou a cabeça rapidamente. — Não foi nada. — Não foi nada? — ele repetiu irritado. — Você tava no chão, Piper. Ela desviou os olhos imediatamente. Porque se olhasse muito pra ele… Sentia vontade de chorar de novo. E ela não queria fazer isso ali. Não queria parecer mais fraca ainda. Sam pegou os livros dela no chão e entregou devagar. — Acho melhor você ir pra casa hoje. Piper assentiu sem discutir. Era exatamente o que ela queria. Ir embora. Sumir. Dean passou a mão pelos cabelos claramente tentando controlar a própria raiva. — Eu vou falar com a direção. — Não precisa — Piper respondeu rápido demais. Os dois olharam pra ela. — Piper… — Sam começou calmamente. — Sério. Vai piorar. Ela já sabia como aquelas meninas funcionavam. Ricas. Influentes. Maldosas. Se Dean criasse ainda mais confusão por causa dela… Tudo só pioraria depois. Dean deu um passo na direção dela. — Elas não podem fazer isso com você. O coração dela apertou sem motivo. Porque o jeito que ele falava… Parecia realmente se importar. E isso era perigoso. Muito perigoso. Piper respirou fundo tentando voltar ao normal. — Eu tô bem. Dean claramente não acreditou nem um pouco. Mas antes que ele insistisse, ela segurou os livros contra o peito e forçou um pequeno sorriso. — Obrigada por ajudarem. Então começou a sair rapidamente do corredor. — Piper. — Sam chamou. Ela virou só um pouco. — Deixa a gente te levar embora. — Não precisa. — Piper— Dean começou. — Sério. Eu consigo ir sozinha. Ela saiu antes que eles insistissem mais. Porque se ficasse ali por mais alguns segundos… Ia acabar chorando na frente deles. E ela não queria isso. Não queria parecer uma garota fraca precisando ser salva. Mesmo que no fundo estivesse destruída. Ela andou rápido pelos corredores da universidade tentando ignorar os olhares em cima dela. As pernas tremiam. O peito doía. E quando finalmente saiu pelo portão principal… As lágrimas começaram. Primeiro silenciosas. Depois mais fortes. Piper abraçou os próprios braços enquanto caminhava apressada pela calçada em direção ao ponto de ônibus. O vento gelado bagunçava os cabelos dela enquanto as lágrimas escorriam sem controle. Aquilo tudo estava ficando demais. Demais. Ela não pertencia àquele lugar. Não pertencia àquela faculdade. Àquela família. Àquele mundo. As meninas estavam certas. Ela era só uma garota pobre tentando sobreviver no meio de gente rica. E agora estava sendo humilhada por isso. Piper chegou ao ponto de ônibus vazio e sentou no banco gelado tentando limpar o rosto rapidamente. Mas quanto mais tentava parar de chorar… Mais difícil ficava. Ela lembrava do olhar de desprezo das meninas. Das risadas. “Você devia lembrar do seu lugar.” Aquilo machucou. Porque uma parte dela já pensava exatamente a mesma coisa. O celular vibrou na bolsa. Ela nem precisou olhar pra saber quem era. Dean. Ela ignorou. Segundos depois outra mensagem. Sam. Ignorou também. Não queria conversar. Não queria ouvir pena na voz deles. O ônibus demorava. E Piper permanecia ali encolhida no banco tentando controlar a respiração. Até ouvir o som de um carro parando bruscamente na frente do ponto. Ela levantou os olhos assustada. E o coração disparou. Dean saiu do carro batendo a porta com força. Sozinho. O rosto ainda carregado de raiva. Os olhos encontraram Piper imediatamente. E toda a expressão dele mudou no mesmo instante. Porque ela ainda estava chorando. Dean ficou parado por alguns segundos olhando pra ela. A raiva ainda estava ali. Mas agora misturada com outra coisa. Uma coisa estranha que ele não sabia explicar direito. Porque ver Piper chorando mexeu com ele de um jeito absurdo. Muito mais do que deveria. Ela rapidamente virou o rosto tentando esconder as lágrimas. — Vai embora. A voz dela saiu falha. Dean ignorou completamente. Caminhou até o ponto devagar enquanto observava ela encolhida naquele banco gelado, abraçando os próprios braços como se estivesse tentando desaparecer. Aquilo irritava ele. Porque Piper parecia frágil daquele jeito. E Dean odiava sentir vontade de proteger alguém. — Você saiu correndo. Ela limpou o rosto rapidamente. — Eu falei que tava bem. — E eu falei que você tava mentindo. Piper fechou os olhos por um instante. O jeito direto dele dificultava tudo. Dean parou na frente dela. As mãos nos bolsos. O olhar preso nela outra vez. — Olha pra mim. Ela não queria. Porque sentia que se olhasse… Ia desmoronar. Mas mesmo assim levantou os olhos devagar. Dean soltou um pequeno suspiro quando viu o rosto vermelho dela. Os olhos marejados. O nariz levemente rosado pelo choro. Meu Deus. Ela ficava ainda mais bonita daquele jeito. E isso só deixava ele mais irritado consigo mesmo. — Elas falaram aquilo tudo e você saiu andando sozinha? Piper deu de ombros tentando parecer indiferente. — Não é novidade pra mim. Aquilo fez a expressão dele fechar imediatamente. — Como assim? Ela desviou os olhos. — Gente rica sempre olha pra gente assim. O silêncio caiu entre os dois. Dean observou ela atentamente. E pela primeira vez em muito tempo… Sentiu culpa. Porque ele sabia exatamente como pessoas da bolha dele podiam ser cruéis. Superficiais. Arrogantes. E provavelmente Piper já tinha ouvido aquele tipo de coisa a vida inteira. — Elas são umas idiotas. Piper soltou uma risada fraca e triste. — Talvez. — Não “talvez”. Ele deu um passo mais perto. — Elas são. Ela apertou os dedos nos livros. — Eu não quero causar problema entre vocês. Dean arqueou uma sobrancelha. — Entre quem? — Você… elas… Ele soltou uma risada completamente sem humor. — Piper, eu não tô nem aí pra aquelas garotas. Ela finalmente olhou diretamente pra ele. E o coração dela acelerou imediatamente. Porque Dean estava perto demais agora. Muito perto. Ela conseguia sentir o perfume dele. Sentir a intensidade daquele olhar preso nela sem vergonha nenhuma. Aquilo deixava ela completamente nervosa. Dean percebeu. E estranhamente gostou. — Você realmente achou que eu ia deixar você ir embora chorando sozinha? A pergunta saiu mais baixa. Mais calma. Piper sentiu a garganta apertar outra vez. Porque ninguém nunca correu atrás dela daquele jeito. Ninguém. — Eu tô acostumada. Dean travou o maxilar imediatamente. — Para de falar isso. Ela piscou confusa. — O quê? — Esse negócio de “eu tô acostumada”. A voz dele endureceu. — Não devia estar. Piper ficou sem reação. O vento frio bagunçou os cabelos dela enquanto os dois permaneciam se encarando em silêncio. Dean passou a mão no rosto tentando entender por que estava tão afetado. Aquilo não fazia sentido. Ele nem conhecia direito aquela garota. Mas desde o momento em que viu Piper encolhida naquele corredor… Algo virou dentro dele. Algo perigoso. — Vem. Ela franziu levemente a testa. — Pra onde? — Eu vou te levar pra casa. — Não precisa. — Piper. O tom dele deixou claro que não era exatamente um pedido. Ela hesitou. Dean percebeu imediatamente. — Você acha que eu vou deixar você pegar ônibus chorando desse jeito? Ela cruzou os braços defensivamente. — Eu consigo ir sozinha. Dean aproximou mais um passo. Agora perto o suficiente pra fazer o coração dela disparar de vez. — Eu sei que consegue. A voz dele saiu baixa. Quase rouca. — Mas hoje você não vai. Piper prendeu a respiração. Porque o jeito que Dean olhava pra ela… Era intenso demais. Como se enxergasse coisas que nem ela mesma entendia. Ela tentou desviar os olhos. Mas ele segurou delicadamente o queixo dela antes. O toque foi leve. Cuidadoso. Completamente diferente da brutalidade que Dean parecia carregar o tempo inteiro. Aquilo arrepiou Piper inteira. — Ei. Ela voltou a olhar pra ele automaticamente. E então Dean falou baixo: — Não chora por causa de gente lixo assim. O peito dela apertou forte. Muito forte. Porque fazia tempo… Muito tempo… Que ninguém cuidava dela daquele jeito. E talvez fosse exatamente isso que tornava Dean tão perigoso.
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