A manhã chegou silenciosa na montanha.
Uma névoa fina subia do lago que ficava ao lado da caverna de Góvia. A água descia da cachoeira em um fluxo constante, batendo nas pedras e formando um som calmo e contínuo.
Góvia estava agachada perto da margem, esfregando uma panela de pedra.
Suas costas já começavam a doer.
Ela suspirou irritada.
— Isso é ridículo.
Dargan, que estava afiando uma lâmina de caça, levantou os olhos.
— O que foi agora?
Góvia se levantou lentamente, esticando as costas.
— Eu não vou continuar lavando louça agachada no chão como um animal.
Kael, que estava encostado em uma pedra, soltou uma risadinha.
— Achei que ogres gostavam de coisas primitivas.
Góvia cruzou os braços.
— Eu não gosto.
Ela apontou para a cachoeira.
— Aquela água desce direto da montanha.
Rhogar olhou na direção indicada.
Seus olhos âmbar analisaram o fluxo da água.
Calmo. Observador.
— Sim.
— E?
Góvia pegou um graveto e começou a desenhar na terra.
— Nós vamos construir uma pia.
Kael inclinou a cabeça.
— Uma… o quê?
Ela desenhou um pequeno canal.
— Um lugar para lavar coisas.
— A água da cachoeira vai passar por aqui.
Ela fez outro traço.
— Aqui fica uma pedra plana para lavar as panelas.
Rhogar se aproximou um pouco mais.
Observando.
Pensando.
— Um canal de água.
— Inteligente.
Dargan franziu a testa.
— Isso vai dar trabalho.
Góvia respondeu imediatamente:
— Comer também dá trabalho.
— E mesmo assim você faz.
Kael começou a rir.
Dargan resmungou.
Rhogar continuava analisando o desenho no chão.
— Eu posso mover as pedras.
— Minha pele suporta o peso.
Kael suspirou.
— Então eu vou acabar cavando, não é?
Góvia respondeu seca:
— Exatamente.
Kael apontou para Dargan.
— E ele?
— Ele traz mais pedras.
Dargan revirou os olhos.
— Isso virou uma construção agora?
Góvia então disse algo que fez os três ficarem em silêncio.
— E isso é só o começo.
Ela apontou novamente para o chão.
— Eu também quero plantar comida.
Kael piscou.
— Plantar?
— Aqui?
Góvia assentiu.
— Estou cansada de comer carne todos os dias.
Dargan parecia confuso.
— Mas é o que sempre comemos.
— Caçamos.
Góvia respondeu:
— Então continue caçando.
— Mas eu quero pão.
Os três ficaram olhando para ela.
Kael finalmente perguntou:
— O que é pão?
Góvia suspirou.
— É melhor do que carne seca.
Rhogar falou calmamente:
— Você precisa de trigo.
— E terra fértil.
Góvia apontou para ele.
— Exatamente.
Kael levantou uma sobrancelha.
— E onde vamos arrumar isso?
Rhogar respondeu sem emoção:
— Eu tenho um vale.
Os três olharam para ele.
— Fica atrás das Montanhas Cinzentas.
— A terra é fértil.
— Sempre cresce grama alta lá.
Góvia abriu um pequeno sorriso.
— Então é lá que vamos plantar.
Dargan cruzou os braços.
— E as sementes?
Góvia respondeu imediatamente:
— Cidade.
Kael suspirou dramaticamente.
— Eu sabia que isso ia acabar em uma viagem.
Góvia apontou para ele.
— Você e Dargan vão comprar sementes de trigo.
Kael arregalou os olhos.
— Eu?!
Dargan bufou.
— Eu odeio cidade.
Rhogar então falou calmamente:
— Eu fico aqui.
— Vou preparar a terra.
Góvia olhou para ele, surpresa.
Ele continuava com a mesma expressão tranquila.
Mas claramente…
Ele estava disposto a ajudar.
Kael levantou.
— Certo…
— Então eu corto madeira…
— Cavo canais…
— E agora viro agricultor.
Góvia deu de ombros.
— Ou fique sem comer.
Kael suspirou.
— Essa ogra é uma tirana.
Mas no fundo…
Ele estava sorrindo.
Porque algo naquela montanha estava mudando.
E nenhum deles ainda tinha percebido…
Que aquelas pequenas ideias de Góvia
iriam transformar completamente a vida de todos ali. 🌿🔥🐉