A manhã nasceu quente nas montanhas.
O céu estava limpo, e o sol já começava a iluminar as pedras altas ao redor da caverna. O vento carregava o cheiro da floresta e da terra úmida.
Góvia já estava acordada.
Ela havia passado parte da madrugada observando as ervas que havia secado perto do fogão. Algumas estavam penduradas em pequenos feixes presos por cipós na parede de pedra da caverna.
Era a primeira vez que aquele lugar parecia… organizado.
A antiga dona daquele corpo jamais teria feito algo assim.
Enquanto separava algumas folhas para secagem, ouviu passos pesados se aproximando pelo caminho da montanha.
Ela não precisou olhar para saber quem era.
Dargan.
Ele apareceu alguns segundos depois, carregando um saco de couro pequeno pendurado no ombro.
Góvia continuou trabalhando como se não tivesse percebido.
Dargan largou o saco sobre a mesa de pedra.
— Você pediu isso.
Ela olhou.
Abriu o saco.
Dentro havia pequenos cristais brancos.
Sal.
Góvia ergueu as sobrancelhas.
— Então você realmente tinha.
Dargan cruzou os braços.
— Eu disse que tinha.
Ela pegou um pequeno punhado do sal e observou.
Era grosso.
Provavelmente comprado em alguma cidade humana próxima.
— Isso vai mudar tudo — murmurou.
Dargan franziu a testa.
— É só sal.
Góvia sorriu levemente.
— Você vai ver.
Ela pegou um pedaço de carne que havia separado no dia anterior.
Cortou em fatias.
Depois esmagou algumas ervas aromáticas sobre a pedra.
Misturou com um pouco de gordura derretida.
E finalmente…
Uma pitada de sal.
O cheiro que começou a subir quando a carne tocou a panela quente foi completamente diferente.
Mais rico.
Mais profundo.
Dargan observava tudo com atenção.
Kael também havia aparecido novamente, sentado sobre uma pedra como um espectador curioso.
— Isso cheira perigoso — comentou ele.
Góvia virou a carne lentamente.
A gordura começou a dourar.
As ervas liberavam aroma no ar.
Depois de alguns minutos, ela colocou dois pedaços em uma pedra lisa que servia como prato.
Empurrou um deles para Dargan.
— Prove.
Dargan pegou o pedaço.
Observou por um segundo.
Depois mordeu.
O silêncio caiu sobre a caverna.
Kael inclinou o corpo para frente.
Esperando.
Dargan mastigou lentamente.
Seus olhos dourados se estreitaram.
Ele engoliu.
Depois falou:
— Melhor.
Góvia levantou uma sobrancelha.
— Só melhor?
Kael pegou o outro pedaço sem pedir.
Mordeu.
Seus olhos se arregalaram.
— Isso é incrível!
Ele olhou para Dargan.
— Como você conseguiu dizer só “melhor”?
Dargan deu de ombros.
— Ainda falta algo.
Góvia suspirou.
— Sempre vai faltar algo para você.
Mas no fundo…
Ela estava satisfeita.
Porque aquela pequena melhora significava algo importante.
Ela estava ganhando espaço.
Passo por passo.
Conquista por conquista.
E enquanto os dois maridos discutiam sobre a comida…
Góvia pensava apenas em uma coisa.
Eu ainda tenho muito para melhorar.
E aquela era apenas a primeira etapa.