📖 Entre Espinhos e Veneno
Capítulo 9 — Silêncios e Decisões
Mateus ainda permanecia na sala, de pé e calado, quando uma batida suave mas firme soou na porta. Isabela endireitou‑se de imediato, apagando qualquer vestígio da emoção que tinham partilhado momentos antes, recuperando por completo a postura fria e severa de quem comanda tudo.
— Entre — ordenou ela com voz seca.
Um homem jovem, de expressão séria e porte atento, entrou devagar e parou diante dela, mantendo o respeito e a distância devida.
— Chefe… vim dar‑lhe conta da situação dos que apanhámos.
— E então? Conseguiram arrancar‑lhes alguma palavra, alguma pista, algum nome? — perguntou ela, endurecendo o olhar.
O homem baixou um pouco a cabeça, abanando‑a lentamente em sinal de negação.
— Nada. Seguimos todas as suas ordens à risca: não lhes fizemos m*l grave, não arriscámos as vidas deles, tentámos todas as formas de conversa… mas ficaram calados como pedras. Nem uma única sílaba saiu da boca de nenhum. Parecem dispostos a morrer antes de falar.
Isabela ficou em silêncio uns instantes, pensando, pesando cada palavra e consequência. Depois virou‑se devagar para a janela, olhando a água forte da chuva a escorrer pelo vidro escuro. A sua voz saiu baixa, calma, mas definitiva e sem volta.
— Se não falam, já não nos servem para nada. Então mata‑os. Acabem com isto de uma vez e tirem‑nos daqui.
— Sim, senhora. Será feito já — respondeu o homem, fazendo uma vénia rápida e saindo logo em seguida, fechando a porta atrás de si.
Ficaram outra vez sós. O silêncio parecia mais pesado agora, carregado daquela decisão dura e definitiva. Mateus não tirava os olhos dela, observando‑a com uma atenção e uma compreensão profundas.
— Tu tomas todas as decisões mais pesadas, mais cruéis e mais difíceis… e carregas todo esse peso sozinha, como se ninguém mais tivesse direito de ajudar a levar — disse ele finalmente, com voz calma e suave.
Ela não virou a cabeça para ele, continuou a olhar para a rua lá fora.
— Isso faz parte do que é ser líder. Quem manda, decide. E quem decide, assume tudo sozinho.
— Não faz — corrigiu ele firme mas docemente.
Ela virou‑se de repente, olhando‑o com desconfiança e surpresa.
— Não? E o que é que tu sabes disso, afinal?
Ele aproximou‑se devagar, passo a passo, sem ameaça mas com uma determinação visível.
— Ser líder é mesmo tomar as decisões duras, sim. Mas carregar todo esse fardo sem nunca deixar ninguém chegar perto para ajudar… isso é uma escolha tua, Isabela. Uma escolha que fazes por medo de confiar, de deixar alguém ver o quanto também sofres.
Ela cruzou os braços forte sobre o peito, erguendo o queixo em desafio.
— E desde quando é que tu te importas com as minhas escolhas, com o que eu sinto ou com o que eu carrego? Há dez anos que somos inimigos, não te esqueças.
Um sorriso pequeno, sincero e doce apareceu‑lhe nos lábios, um sorriso que só ela conseguia provocar‑lhe.
— Desde sempre. Desde os tempos do pátio, da chuva, das corridas pelos telhados. Sempre me importei, mesmo quando fingia o contrário.
Ela desviou o olhar depressa, sentindo o coração acelerar‑lhe contra a sua v*****e.
— Não digas coisas sem sentido, palavras vazias para confundir‑me.
— Sabes muito bem que não estou a mentir — disse ele, olhando‑a nos olhos com toda a verdade do mundo. — Conheces‑me melhor do que ninguém. Sabes quando minto e quando digo a verdade.
Ela apertou os punhos com força ao lado do corpo, sentindo‑se presa entre a razão e o coração. O pior de tudo nele era mesmo isso: dizia coisas profundas com uma calma e uma sinceridade que tornavam quase impossível duvidar ou ignorar.
— Devias era preocupar‑te mais com os teus próprios problemas, com as tuas pessoas, com as tuas escolhas — tentou defender‑se ela. — Deixa os meus para mim.
Ele deu um passo mais perto ainda, baixando um pouco a voz.
— Tu és um dos meus problemas maiores… e também a minha maior preocupação. Sempre foste.
Ela lançou‑lhe um olhar que poderia ter cortado o aço mais forte.
— Estás a pedir para ser expulso daqui imediatamente, não estás?
— Não de todo — respondeu ele sem se intimidar. — Estou apenas a dizer a verdade que ambos sabemos mas fingimos não ver.
Os olhos deles ficaram presos um no outro, intensos, cheios de tudo o que viveram e sentem ainda. Mais uma vez. Como sempre acontecia. E mais uma vez, nenhum dos dois teve força ou v*****e de desviar o olhar primeiro.
Até que a porta se abriu de repente e com força, quebrando todo aquele momento. Entrou Sofia, ofegante, com papéis na mão e ar de quem trazia uma notícia muito importante.
— Temos novidades importantes! — avisou logo, parando ao ver‑os tão próximos um do outro.
Isabela afastou‑se de imediato, endireitando a roupa e a postura, recuperando o controlo de si mesma.
— O que foi? Descobriram algo novo sobre eles?
— Sim! — disse Sofia animada mas séria. — Conseguimos confirmar o local exato onde os líderes dos Corvos Vermelhos se vão reunir amanhã à noite. É uma casa isolada, nos limites da cidade, longe de olhares curiosos.
Mateus e Isabela trocaram um olhar rápido, cheio de entendimento. Pela primeira vez desde que tinham selado esta trégua, tinham finalmente uma oportunidade real, clara e única de ir ter com eles, de atacar na própria casa do inimigo. E ambos sabiam muito bem: o que acontecesse nessa noite iria mudar para sempre o destino de todos, o da cidade… e o deles próprios.
Continua…