Capitulo 18 Daniel e seu plano

1243 Words
​NARRADO POR: DANIEL Bittencourt ​O som ambiente da L’Empire não era apenas música; era uma agressão rítmica, uma pulsação constante e visceral que transformava o ar em algo sólido. O grave reverberava no meu esterno, fazendo o cristal da minha taça vibrar em uma frequência que tornaria qualquer pensamento linear um desafio intransponível para um homem comum. Mas eu não operava na frequência dos homens comuns. Eu era uma máquina de cálculo de alta precisão, revestida por um terno de três mil dólares e uma armadura de indiferença que levei décadas para forjar. ​Eu observava o camarote privativo com o distanciamento de um entomologista estudando insetos em um frasco de vidro. Diego estava em seu habitat natural, a personificação do excesso inconsequente. Ele mantinha um braço jogado com desleixo sobre o encosto do sofá de couro de vitelo, enquanto a outra mão sustentava uma taça de cristal lapidado. Três mulheres, cujos nomes e histórias eram irrelevantes para a engrenagem do mundo, se moldavam ao redor dele como hera em um muro antigo, rindo de piadas que ele nem precisava se esforçar para contar. O brilho do suor misturado ao glitter barato sob as luzes estroboscópicas e o cheiro pesado de álcool de luxo criavam uma névoa de hedonismo que eu repudiava, mas utilizava como camuflagem. ​Meu celular, posicionado milimetricamente sobre a mesa de mármore n***o, vibrou. O visor, cortando a penumbra com uma luz branca e fria, iluminou o nome que eu esperava: DIRETOR — UNIV. BITTENCOURT. ​Peguei o aparelho com um movimento lento, quase letárgico, mas carregado de uma autoridade que fez o ar ao meu redor esfriar. Diego, cujo radar para o caos era tão apurado quanto o meu para o lucro, percebeu a mudança de atmosfera. Ele arqueou uma sobrancelha e, com um gesto impaciente, dispensou as mulheres para o canto do sofá. Ele adorava o cheiro de um golpe sendo executado, o estalo de uma vida sendo redirecionada por uma canetada minha. ​— Bittencourt — atendi. Minha voz saiu baixa, desprovida de qualquer emoção, mas cortante o suficiente para atravessar a barreira de som da boate como um bisturi. ​— Doutor Daniel... desculpe interromper seu horário, mas conforme sua instrução direta e irrevogável... — a voz do homem do outro lado da linha estava tensa, o som da respiração curta denunciando o pavor de falhar com o dono do seu contracheque. — O lançamento foi concluído no sistema central. O processamento do zero da aluna Mariana Lacerda em Direito Civil foi finalizado. ​Um sorriso imperceptível, gélido e predatório, surgiu no canto dos meus lábios. Eu girei o copo de uísque devagar, observando a luz âmbar refletir no gelo esculpido à mão. ​— E as consequências automáticas, diretor? Seja específico. Eu não pago por generalidades. ​— Como a média dela era uma das mais altas da instituição, doutor, o lançamento de uma nota zero causou uma queda abrupta e catastrófica no coeficiente de rendimento. O algoritmo de risco da fundação disparou instantaneamente. O e-mail de "Notificação de Rescisão de Bolsa por Inadimplência Acadêmica" já foi gerado e está na fila de saída. Será enviado para o e-mail cadastrado do responsável financeiro, o senhor Francisco Lacerda, pontualmente às oito da manhã. Não há volta, senhor. ​— Ótimo. A eficiência é a única coisa que me impede de substituir você, diretor. Mais alguma coisa que eu precise saber sobre o comportamento da "ex estudante"? ​— Sim... ela tentou protocolar um recurso administrativo agora há pouco, minutos antes da secretaria fechar. Ela estava... transtornada, mas mantinha uma postura agressiva. Eu pessoalmente intervi, conforme o senhor ordenou, e indeferi o pedido no ato, alegando "rigor administrativo inegociável e preclusão temporal". Ela saiu da reitoria... bem, ela parecia devastada, doutor. Quase não conseguia caminhar. ​— Devastada é um termo poético para quem acaba de colidir com a realidade, diretor. Considere isso uma lição prática de realismo jurídico. Ela queria aprender sobre leis? Eu estou ensinando a maior de todas: a lei do proprietário. Obrigado pelo relatório. ​Desliguei sem esperar as despedidas servis que ele certamente proferiria. Joguei o celular de volta na mesa e dei um gole generoso no uísque, sentindo a queimação familiar e prazerosa descer pela garganta, ancorando-me no presente. ​— Pelo seu olhar de tubarão branco, a "joia da família" acaba de perder o brilho acadêmico e o chão sob os pés — Diego comentou, soltando uma fumaça densa de um charuto que custava mais que o salário de um professor daquela faculdade. Ele riu baixo, um som carregado de uma admiração torta. — Você é um psicopata de marca maior, Daniel. Tirou o futuro da garota antes mesmo de dar boa noite. Você não joga para ganhar; você joga para aniquilar qualquer possibilidade de resistência. ​— Eu não tirei o futuro dela, Diego. Não seja dramático. Eu apenas removi as ilusões de mérito que ela carregava como um escudo — retruquei, consultando o meu Patek Philippe. O ouro do relógio brilhava com uma promessa de eternidade. — Eu mostrei que o chão que ela pisava com tanta arrogância era feito de vidro temperado. E eu, por uma questão de conveniência, sou o dono da vidraçaria. Agora, o segundo passo da operação. Ligue para o Rocha. Agora. ​— O Rocha? — Diego parou com a taça no meio do caminho, a diversão sendo substituída por uma cautela instintiva. — O que você quer com aquele carniceiro corporativo agora? O Rocha não faz cobrança, Daniel. Ele faz extermínio de reputação e patrimônio. ​— Quero que ele faça exatamente o que ele foi treinado para fazer. Francisco Lacerda me deve sete milhões de dólares, uma dívida de honra que ele não tem como honrar. Mas ele é um viciado, Diego. E viciados deixam rastros de podridão por onde passam. Ele deve "trocados" para metade dos agiotas da Baixada, deve para bancos de fomento, deve impostos e condomínios. Quero que o Rocha compre todas essas dívidas. Cada nota promissória, cada cheque devolvido, cada linha de crédito podre vinculada ao CPF daquela família. ​Inclinei-me para frente, os olhos fixos nos de Diego com uma intensidade que faria um homem mais fraco desviar o olhar por puro instinto de sobrevivência. ​— Eu não quero apenas ser o credor da dívida de jogo. Eu quero ser o dono da biografia deles. Quero ser o dono da casa onde eles dormem, do carro velho que o Francisco dirige embriagado, do ar saturado de medo que eles respiram naquela sala de jantar. Quero que amanhã, quando o Francisco abrir o e-mail da faculdade e ver o futuro da filha ser triturado, ele também receba notificações de despejo, execuções judiciais e visitas de cobradores que eu mesmo estarei controlando. ​Diego deu um assobio baixo, longo, quase um lamento. ​— Você quer encurralar o velho até ele não ter para onde correr a não ser o seu colo... e ele vai vir rastejando, Daniel. Vai trazer a filha em uma bandeja como oferta de paz para não ser jogado em um presídio ou em um valão. ​— Exatamente. Eu não quero que a Mariana veja o casamento comigo como uma prisão ou um sacrifício medieval. Quero que ela veja como a única balsa de salvamento possível em um naufrágio absoluto que ela nem desconfia que eu mesmo causei. Eu quero que ela implore pelo contrato que vai escravizá-la. ​
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