Capitulo 4 Mariana

2012 Words
PONTO DE VISTA: MARIANA O som de vidro se espatifando na sala de estar não era um barulho estranho para mim. Na verdade, era a trilha sonora da minha existência. Eu estava no meu quarto, com a porta trancada e as costas pressionadas contra a madeira compensada, ouvindo o eco da fúria do meu pai e o silêncio cortante, quase agonizante, da minha mãe. Quem nunca viveu em uma casa onde o amor foi substituído pelo vício e pela agressão, não faz ideia de como o silêncio pode ser barulhento. Na vida real, não existe música de suspense quando um homem levanta a mão para uma mulher; existe apenas o som seco do impacto e o estalar de uma alma que se quebra pela milésima vez. Eu ouvia tudo. Cada insulto proferido por ele, cada desculpa esfarrapada sobre dívidas, jogo e falta de sorte. A minha vontade era de sair correndo, de abrir aquela porta e me colocar entre ele e a minha mãe, Arlete. Mas a experiência me ensinou que, em uma guerra de forças desiguais, o escudo muitas vezes acaba sendo triturado junto com o alvo. Pois é, a minha vida é essa. Sem filtros de i********:, sem glamour e sem finais felizes no horizonte. Me chamo Mariana. Tenho vinte e um anos e sou estudante de Direito. Se você me visse na faculdade, com meus livros debaixo do braço e os olhos focados na lousa, acharia que sou apenas mais uma jovem ambiciosa tentando um futuro melhor. O que ninguém sabe é que eu estudo leis para entender como, um dia, eu vou conseguir colocar o homem que me gerou atrás das grades. Eu me escondo nas doutrinas de Direito Penal e Civil como se fossem trincheiras. Eu sou o que chamam de "vencedora pelo esforço", mas o que ninguém vê é o cansaço que mora nos meus ossos. Graças a uma bolsa de cem por cento que ganhei por mérito porque noites de estudo no meio de gritos e garrafas quebradas forjam uma concentração de aço , eu consigo cursar a melhor faculdade da cidade. Cada nota máxima que eu tiro é um passo para longe desse inferno. Eu sou a minha única saída. Hoje, no entanto, o cheiro de cigarro barato e o odor de bebida que emanavam do corredor pareciam mais densos. Eu ouvia meu pai balbuciar no telefone sobre "sete milhões", sobre "prazo" e sobre "um investidor". Na vida real de uma mulher que cresce vendo agressão, você aprende a ler o perigo antes mesmo dele se manifestar. Você aprende que o corpo da sua mãe é um mapa de hematomas que contam a história de um viciado que perdeu a dignidade antes de perder a casa. Eu olhei para o meu Vade Mecum sobre a escrivaninha bamba. Eu queria gritar. Queria dizer para a minha mãe pegar as coisas dela e sumir comigo no mundo. Mas Arlete estava quebrada. O espírito dela foi drenado ano após ano, soco após soco, humilhação após humilhação, até sobrar apenas uma casca que aceita as migalhas de uma vida miserável. Muitas vezes, as pessoas perguntam por que as mulheres não denunciam, por que não vão embora. Elas não entendem o que é o cárcere psicológico. Elas não entendem que, quando você é agredida física e verbalmente desde que se entende por gente, o mundo lá fora parece uma floresta escura e perigosa demais para ser explorada sozinha. E eu, Mariana, sou a única âncora que impede a minha mãe de afundar de vez. Eu sinto o peso do mundo nas costas. Sinto que estou em um jogo onde as cartas já foram marcadas contra mim desde o nascimento. O Direito me ensinou que todos são iguais perante a lei, mas a vida real me mostra que a lei raramente entra em casas como a minha antes que o corpo já esteja frio. Por isso que eu digo: o feminicídio não começa com um disparo de arma de fogo. Ele começa no controle, no grito, no "onde você estava?" e no "você não é nada sem mim". O ciclo da violência é perverso porque ele te cansa até você não ter mais forças para reagir. Eu vejo isso no dia a dia. Vejo vizinhos que ouvem tudo, mas fingem que o barulho de briga é apenas a TV alta. Vejo o Estado sendo omisso quando uma mulher vai à delegacia e ouve que "em briga de marido e mulher não se mete a colher". A vida real é um campo minado para nós. O patriarcado ensina que o homem é o dono da casa, e muitos deles acham que isso lhes dá o direito de usar os punhos para "corrigir" o que eles acham errado. Eu olho para as minhas mãos e elas tremem de ódio, não de medo. Eu já passei da fase do medo. Agora, o que eu sinto é uma revolta que queima por dentro. Eu vejo a Arlete tentando esconder o roxo no braço com uma blusa de manga comprida, mesmo no calor de trinta graus. Isso é o cotidiano de milhares de mulheres. A agressão não é só o tapa; é a humilhação de ter que mentir para o mundo, de ter que sorrir no mercado quando o rosto dói. É o isolamento financeiro. Meu pai gasta tudo no pôquer, no uísque barato, e depois volta para casa para descontar na única pessoa que ainda não o abandonou. A faculdade de Direito é o meu único respiro. Lá, eu sou a Mariana acadêmica, a futura advogada que discute teses sobre dignidade da pessoa humana. Mas quando eu desço do ônibus e entro no meu bairro, a realidade me dá um soco no estômago. Eu vejo as paredes descascadas da nossa casa e sinto que estou voltando para uma prisão. Na vida real, o vilão não usa máscara; ele usa o rosto do seu pai. Ele usa a desculpa de que "está estressado", de que "a vida foi dura com ele". Mas a vida é dura para todo mundo, e nem por isso eu saio quebrando as coisas ou batendo em quem eu deveria proteger. Hoje, os passos no corredor estavam diferentes. Mais pesados, mas ao mesmo tempo hesitantes. Eu ouvi a voz dele, embriagada e trêmula, falando sobre um tal de Daniel Bittencourt. Ele parecia estar implorando por telefone. Sete milhões de dólares. O valor era tão absurdo que parecia piada, mas o tom de pavor dele era real. Naquele momento, eu soube que a corda tinha estourado. Quando um agressor sente medo de alguém lá fora, ele traz esse perigo para dentro de casa. Ele usa a família como escudo. Eu sentei na minha cama, abraçando meus joelhos. O Vade Mecum continuava aberto na página sobre Direitos Fundamentais. Que ironia. Na teoria, minha casa deveria ser meu asilo inviolável. Na prática, é o lugar onde eu mais me sinto vulnerável. Eu pensava em como as leis são bonitas no papel e tão difíceis de serem aplicadas no mundo real das periferias. O feminicídio é o ápice de uma escada que começa com um "cala a boca". E eu já perdi a conta de quantas vezes ouvi meu pai mandar minha mãe calar a boca hoje. Eu ouvi o choro dela vindo da cozinha. De novo. Era um choro baixo, abafado por um pano de prato, para não irritar o monstro. Aquilo me destrói. Eu queria ter o poder de teletransporte, de tirar a Arlete dali e sumir. Mas para onde? Com que dinheiro? O mundo real exige recursos que a gente não tem. A gente fica porque não tem opção. A gente fica porque a sociedade nos diz que "família é tudo", mesmo quando a família é o que está nos matando aos poucos. Eu me levantei e fui até o espelho. Eu vi os meus próprios olhos e jurei: eu não vou ser como ela. Eu não vou deixar nenhum homem levantar a mão para mim. Eu vou usar cada palavra que aprendi nos livros de Direito para destruir qualquer um que tente me diminuir. E é por isso que eu deixo aqui um ensinamento, um alerta para as mulheres do dia a dia, para aquelas que acordam cedo e enfrentam o mundo, mas que sentem o peito apertar quando o sol começa a se pôr, porque sabem que o verdadeiro campo de batalha as espera em casa: não aceitem o primeiro "cala a boca". Não aceitem o primeiro empurrão disfarçado de estresse, o primeiro celular tomado da mão "por preocupação", ou o primeiro insulto que é pedido em desculpas dez minutos depois com uma promessa de mudança que nunca chega. Na vida real, a violência doméstica é uma escada que você sobe no escuro. O primeiro degrau parece inofensivo, uma grosseria aqui, um ciúme ali, mas quando você percebe, já está no topo, olhando para o abismo, com medo de dar o próximo passo e despencar. O ensinamento que eu carrego nas minhas cicatrizes invisíveis é que o agressor não muda pelo seu amor. Ele não para porque você é uma "boa esposa" ou porque você mantém a casa limpa e os filhos quietos. Ele para quando encontra resistência, quando o Estado funciona, ou quando a mulher consegue, com as últimas forças que lhe restam, cortar o cordão umbilical dessa dependência doentia. Mulheres, prestem atenção nos sinais que a sociedade tenta romantizar. "Ele é ciumento porque me ama", "Ele é explosivo porque trabalha demais". Mentira. O nome disso é controle. O nome disso é possessividade. A vida real nos mostra que o homem que te chama de "burra" hoje é o mesmo que vai te dar o primeiro tapa amanhã, e o mesmo que pode tirar a sua vida depois. O feminicídio é o destino final de uma viagem que começa com o silenciamento. Por isso, falem. Gritem se for preciso. Não tenham vergonha da situação de vocês; a vergonha deve ser de quem levanta a mão, não de quem recebe o golpe. O meu alerta é para que vocês busquem a independência de vocês, nem que seja guardando um real por dia debaixo do colchão. Tenham algo que seja só de vocês. Conhecimento, um curso, um trabalho, um plano de fuga. Porque na hora em que o vidro estilhaça na sala, como aconteceu agora, a única coisa que você tem é a sua inteligência e a sua coragem. O Direito é uma ferramenta linda nas salas de aula da faculdade, mas na periferia, na vida de quem não tem sobrenome importante, a nossa maior defesa é o coletivo, é não deixar uma mulher sozinha. Eu saí do transe dos meus pensamentos com o som de três batidas leves na porta. Batidas hesitantes, quase pedindo desculpas por existir. Eu conhecia aquele ritmo; era o código da dor da minha mãe. Destranquei a fechadura e abri a porta devagar. Minha mãe, Arlete, estava ali parada no corredor escuro. O rosto dela estava baixo, as mãos cruzadas na frente do corpo, tentando desesperadamente puxar a manga da blusa de lã para esconder o pulso. Mesmo na penumbra, eu vi. Um roxo novo, subindo como uma mancha de tinta sob a pele cansada dela. — Mari... — ela sussurrou, sem conseguir me olhar nos olhos, a voz trêmula como se estivesse pisando em ovos. — O jantar está pronto. É melhor você descer agora... antes que ele perca a paciência de novo. Eu olhei para o roxo que ela tentava ocultar e senti uma náusea profunda. A comida naquela casa sempre tinha o gosto amargo do medo. Arlete deu um passo para trás, fugindo do meu olhar de julgamento e dor, e se virou para voltar para a cozinha, com os ombros encolhidos, pronta para servir o homem que acabara de marcá-la. — Já vou, mãe — respondi, fechando o punho até as unhas enterrarem na palma da mão. Respirei fundo, ajeitei o cabelo e me preparei para descer. Eu não ia para um jantar de família. Eu estava entrando em uma zona de guerra onde o inimigo sentava na cabeceira da mesa. Continua...
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