Capitulo 5 Mariana

2589 Words
Desci os degraus de madeira rangente sentindo cada fibra do meu corpo em alerta máximo, como se caminhasse sobre um campo minado onde qualquer passo em falso poderia causar uma explosão de violência. O ar daquela sala não era apenas oxigênio; era uma massa densa e carregada, um misto nauseante de cheiro de gordura queimada que grudava nas paredes, uísque barato de quinta categoria e aquele odor metálico e acre do medo que minha mãe exalava pelos poros. Era o cheiro da opressão doméstica. Quando entrei na cozinha, a cena era a reprodução fiel e grotesca de todos os dias: Arlete terminava de colocar os pratos sobre a mesa com uma agilidade silenciosa, quase invisível. Ela se movia como um fantasma, tentando não deslocar o ar, não fazer o menor ruído com a cerâmica, tudo para não irritar o "rei" absoluto sentado à cabeceira. Meu pai estava lá. Francisco. A camisa de botão estava desabotoada até a metade, revelando o peito suado, os olhos injetados de quem já tinha começado a beber cedo e a mandíbula tão tensa que eu podia ouvir o ranger dos seus dentes. Ele não me olhou quando puxei a cadeira. Ele m*l me registrou como um ser humano. Seus olhos estavam fixos no prato, mas a energia que ele emanava era a de uma bomba relógio com o cronômetro zerando. Sentei-me e o silêncio que se seguiu foi sufocante, interrompido apenas pelo som seco e rítmico do talher batendo na cerâmica, um som que parecia martelar diretamente no meu crânio. — A carne está dura, Arlete — ele soltou subitamente. A voz não foi um grito, foi pior: saiu como um rosnado baixo, vibrando de uma maldade contida, sem que ele sequer levantasse a cabeça. — Quantas vezes eu tenho que dizer que não ganho a p***a do meu dinheiro para você estragar a comida com essa sua mão de vaca? Minha mãe congelou perto do fogão. Vi as mãos dela agarrando o pano de prato com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, desprovidos de sangue. Ela tentou, num gesto automático de sobrevivência, esconder o braço roxo atrás do avental encardido, mas eu vi eu sempre via o tremor incontrolável nas suas pernas. — Me desculpa, Francisco... O fogo estava alto e eu perdi o tempo... — ela começou a gaguejar, a voz saindo fina, submissa, implorando por uma misericórdia que aquele homem não possuía. — Cala a maldita boca — ele cortou, seco, a voz subindo um tom perigoso. — Ninguém te pediu uma explicação técnica da sua burrice. Te pedi uma comida decente, não um relatório da sua incompetência crônica. Serve a p***a do suco e some da minha frente antes que eu perca a paciência de vez. Eu sentia o ódio subir pela minha garganta como se fosse ácido puro. Cada garfada daquele arroz seco descia rasgando, como se eu estivesse mastigando cacos de vidro. Cada humilhação que ela aceitava, cada cabeça baixa, era uma facada no meu peito. Eu queria gritar, queria virar aquela mesa e esfregar a cara dele naquela carne, mas eu estudo Direito, e na vida real, o confronto impulsivo e sem estratégia muitas vezes termina com a polícia batendo na porta quando o corpo já está frio. Ele limpou a boca com o dorso da mão de forma grosseira, deixando um rastro de gordura na pele, e finalmente virou o rosto na minha direção. O olhar dele era um abismo vazio, desprovido de qualquer resquício de afeto paternal. Era o olhar de um estranho que me odiava por existir. — E aí, Mariana? — Ele perguntou, recostando-se na cadeira com um ar de deboche soberbo, as mãos cruzadas sobre a barriga saliente. — Até quando eu vou ter que sustentar essa sua vidinha de madame estudante? Quando é que você vai criar vergonha nessa cara de sonsa, arrumar um emprego de verdade e começar a injetar dinheiro nessa casa em vez de só sugar? Eu ignorei a pergunta dele. Mantive minha coluna ereta, mastigando devagar, os olhos fixos no meu prato, tratando-o com a única arma que eu tinha no momento: a indiferença absoluta. Eu sabia que, para um homem que se alimenta da submissão alheia, o meu silêncio era um insulto pior do que um tapa na cara. — Eu estou falando com você, garota insolente! — Ele explodiu, largando o garfo com um estrondo metálico que fez o prato de cerâmica trincar visivelmente. — Ficou surda além de inútil? Eu te fiz uma pergunta! Quando é que você vai parar de sugar o meu sangue e trazer algum dinheiro para essa casa? Arlete, vendo a veia saltar no pescoço dele como uma serpente e antecipando o golpe que viria a seguir, deu um passo trêmulo em direção à mesa. Ela estava com as mãos postas, quase em posição de oração, o rosto banhado em um pavor ancestral. — Francisco, querido, deixa ela... ela só está cansada... o dia na faculdade foi puxado, ela teve prova, por favor, não comece uma briga agora... — ela suplicava, a voz embargada pelo choro que ela lutava para não soltar. — Você não abre a p***a da boca para defender essa ingrata! — Ele se levantou de um salto cinematográfico, a cadeira tombando para trás e batendo no chão com um baque seco que pareceu um tiro. Ele avançou na direção da minha mãe, o rosto vermelho de uma fúria alcoólica. — Você é outra que não serve para nada! Eu me mato de trabalhar para você me dar comida de lixo e ainda por cima criar uma filha que me olha com esse nojo? Você quer apanhar de novo, Arlete? É isso que você está pedindo? Ele levantou a mão direita, os dedos se fechando em um punho pesado, calejado pela própria covardia. O terror puro e absoluto nos olhos da minha mãe, o jeito que ela se encolheu esperando o impacto, foi o estopim para algo que estava guardado, apodrecendo dentro de mim, há vinte e um anos. Eu me levantei com uma rapidez sobre-humana, uma descarga de adrenalina que queimou meus músculos. Num movimento violento, joguei meu prato no chão, estilhaçando-o em mil pedaços que voaram pela cozinha, e me coloquei fisicamente entre ele e ela. Meu peito arfava, meus pulmões queimavam, mas minha voz saiu como um trovão de autoridade, carregada de um ódio que não cabia mais na minha alma. — JÁ CHEGA, PAI! — berrei, encarando-o de baixo para cima, mas com uma força tamanha que o fez hesitar por um milésimo de segundo. — Já chega de humilhação! Já chega dessa sua covardia de merda! Ele rosnou, a mão ainda erguida no ar, os olhos faiscando uma maldade primitiva. — Saia da frente, Mariana, ou você vai levar o que era para ela! Eu te quebro no meio, garota! — Não se atreva a encostar um único dedo nela — eu disse, cada palavra saindo como uma lâmina de aço afiada, fria, letal e precisa. — Se você levantar essa mão imunda para ela mais uma vez, eu juro pela minha vida e por tudo o que é mais sagrado: eu mesma acabo com você. Eu não estou brincando, Francisco. Eu estudo o Código Penal todos os dias. Eu sei onde estão os pontos vitais do corpo humano e sei exatamente como montar um cenário de legítima defesa que nenhum perito vai contestar. Toca nela e você não vai amanhecer vivo para ver o sol. O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo. Minha mãe soluçava de forma convulsiva atrás de mim, segurando a barra da minha blusa com as mãos mortas de medo. Meu pai me encarava, chocado, a boca levemente aberta. Pela primeira vez na vida, ele percebeu que a menina que ele chutou e diminuiu tinha se tornado uma mulher forjada no fogo e feita de aço. — Você... você tem a audácia de me ameaçar na minha própria casa? — Ele gaguejou, a voz perdendo a potência, o tom de "macho alfa" se esfarelando diante da minha determinação inabalável. — Isso não é uma ameaça, é um aviso de óbito antecipado — respondi, sem piscar, sentindo o sangue pulsar nas minhas têmporas. — A era do seu império de dor e sangue acabou hoje. Agora, senta a p***a dessa b***a na cadeira e termina de comer esse lixo em silêncio, ou sai desta casa agora antes que eu mesma ligue para o 190 e mostre para o delegado cada uma dessas marcas no braço dela. Escolhe. Ele bufou, tentando desesperadamente recuperar a postura de machão, mas havia uma f***a enorme na armadura dele. Ele viu nos meus olhos que eu falava sério. Ele viu que eu não era a Arlete, que aceitava o golpe e pedia desculpas pelo sangue no chão. Francisco recuou um passo, a respiração pesada cheirando a álcool barato e fígado doente. Ele tentou fechar o punho novamente, mas a mão tremia visivelmente não era mais ódio, era a covardia de um agressor que perdeu o controle sobre a vítima. Ele percebeu que, naquela noite maldita, a dinâmica daquela casa tinha mudado para sempre. Eu não era mais a menina que chorava debaixo do cobertor; eu era a carrasca dele. — Não pense que isso vai ficar assim, Mariana — ele rosnou, a voz falha, uma tentativa patética de manter um resto de autoridade enquanto recuava. — Você é muito valente com esses seus livrinhos de faculdade, mas aqui quem manda ainda sou eu. Você vai se arrepender amargamente de ter levantado a voz para o seu pai. Eu te dei a vida, eu posso tirar a sua paz em um segundo. Eu dei um passo firme à frente, invadindo o espaço pessoal dele, obrigando-o a recuar mais um pouco para perto da pia. O medo dele era palpável agora, um cheiro acre que dominava a cozinha. — Eu não tenho mais um pingo de medo de você, Francisco. O medo morreu no primeiro tapa que eu vi você dar na cara da minha mãe quando eu ainda era uma criança de cinco anos — respondi, minha voz saindo tão gélida que eu m*l a reconhecia como minha. — E escute bem, porque eu não vou repetir: se eu vir uma única marca nova no corpo dela, ou se eu ouvir você levantar o tom de voz para ela de novo, eu não vou esperar pela justiça lenta dos homens. Eu vou usar tudo o que eu aprendi para destruir você. O senhor é um verme, um viciado que jogou a nossa dignidade no lixo, e eu não vou permitir que você leve a vida dela junto com a sua decadência. Ele bufou uma última vez, desviando o olhar para o canto escuro da sala, fingindo um desdém que ele não sentia enquanto se sentava pesadamente na cadeira tombada, que ele puxou com um rangido metálico irritante. Ele não disse mais nada, apenas pegou a garrafa de uísque com movimentos bruscos, tentando recuperar o controle da única forma que sabia: se afogando no vício. Eu me virei, peguei a mão gelada e trêmula da minha mãe e a puxei para longe daquela mesa radioativa. Arlete estava em estado de choque, as pernas bambas como se fossem feitas de gelatina, quase tropeçando nos próprios pés enquanto eu a guiava escada acima. O silêncio na casa era denso, quebrado apenas pelos resmungos ininteligíveis dele lá embaixo e pelo som pesado dos nossos passos no assoalho de madeira. Assim que entramos no meu quarto, eu bati a porta, girei a chave duas vezes e passei o ferrolho. O som do metal travando foi o único alívio que tivemos naquela noite. Minha mãe desabou na beira da minha cama, cobrindo o rosto com as mãos ásperas, os ombros subindo e descendo em soluços que ela tentava desesperadamente abafar para não irritá-lo mais. — Você não podia ter feito isso, Mari... — ela murmurou entre o choro, a voz carregada de um pavor antigo que estava enraizado na medula dela. — Você não conhece o seu pai como eu conheço quando ele está acuado. Ele... ele vai esperar você dormir, ele vai guardar esse ódio e vai descontar com juros depois. Você se colocou em perigo, minha filha. Por que você fez isso? Você tinha que ter ficado quieta, aguentado, como a gente sempre faz para a tempestade passar... Eu me ajoelhei no chão frio na frente dela, puxando as mãos dela para longe do rosto, forçando-a a me encarar. Eu queria que ela visse a chama nos meus olhos. Queria que ela entendesse que o Direito que eu estudava não era só teoria para passar em prova, era a arma que eu estava forjando dia após dia para nos libertar desse inferno. — Ficar quieta é o que está matando a senhora aos poucos todos os dias, mãe! — eu disse, sentindo as lágrimas finalmente arderem, mas me recusando a deixá-las cair. — A senhora viu o que ele ia fazer hoje? Ele ia te espancar por causa de um pedaço de carne! Eu não posso mais ser cúmplice disso. Eu não vou deixar ele encostar em você nunca mais. Se ele tentar, eu coloco ele na cadeia e jogo a chave fora. Eu tenho provas, mãe. Eu tenho fotos de cada hematoma, de cada cicatriz que a senhora tentou esconder com maquiagem barata e mangas compridas no verão. — Mas ele é o seu pai, Mariana... — ela disse, com aquela lógica distorcida e doentia de quem sofreu lavagem cerebral por décadas de abuso. — Para onde a gente vai se ele nos expulsar? Como a gente vai viver? Ele disse que deve muito dinheiro para gente pesada, que tem gente perigosa atrás dele no centro... — Ele que se entenda com as dívidas dele, mãe. O que ele deve para bandidos não é problema nosso. A gente vai dar um jeito. Eu consigo um estágio em algum escritório, a gente some dessa cidade, muda de nome se for preciso. Qualquer coisa é melhor do que morrer aos poucos nesta cozinha. Arlete balançou a cabeça, o olhar perdido nas paredes descascadas e mofadas do meu quarto. Ela estava presa em um cárcere psicológico com grades invisíveis que nenhuma chave de metal poderia abrir facilmente. Ela pegou o cardigã gasto e puxou a manga para baixo com força, escondendo o roxo que eu sabia que estava latejando de dor. — Você não entende, Mari... o mundo real não é limpo como os seus livros de Direito. Homens como o Francisco não aceitam a derrota vindas de "mulheres". E esses homens para quem ele deve... eu ouvi ele falando de um tal de Daniel. Um homem poderoso, um tubarão que não perdoa dívidas. O seu pai está desesperado, filha. Ele não estava batendo na mesa de raiva hoje... ele estava batendo de puro pavor. Ele está encurralado. Eu senti um arrepio gélido percorrer minha espinha ao ouvir aquele nome novamente. Daniel. O mesmo nome que eu ouvira meu pai sussurrar no telefone, com a voz embargada pelo medo, nas madrugadas em que ele achava que eu estava dormindo. Na vida real, quando um covarde como meu pai sente medo de alguém maior, ele se torna um animal ainda mais perigoso, porque ele começa a vender tudo o que tem para salvar a própria pele. — Não importa quem seja esse Daniel, mãe. Ele pode mandar na cidade inteira, mas ele não manda na nossa dignidade. Durma aqui comigo hoje. Tranquei tudo. Ele não vai entrar.
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