Capitulo 6 Mariana

2936 Words
O som da porta da frente batendo com força lá embaixo fez as paredes da casa vibrarem. Ouvi o motor do carro velho dele tossindo e arrastando o escapamento pelo quintal de terra até sumir na esquina. O silêncio que ficou não era de paz, era aquele vazio pesado que fica depois que o furacão passa, mas você sabe que ele pode voltar a qualquer momento. Arlete soltou um suspiro longo, os ombros caindo como se tivessem tirado um fardo de concreto de cima dela. — Ele foi... — ela murmurou, a voz ainda rouca de tanto prender o choro. — Já deve estar indo para o bar da esquina ou para algum porão imundo jogar o que não tem. — É o que ele sabe fazer, mãe. Beber para esquecer que é um covarde — respondi, levantando-me e indo até a porta. — Escuta bem: tranca essa porta agora. Passa o ferrolho e não abre por nada. Se ele voltar e começar a esmurrar, não responde. Deixa ele pensar que a gente sumiu. — Mas Mari, para onde você vai a essa hora? — Ela segurou meu braço, os olhos arregalados. — Está escuro, essa rua não tem lei... — O perigo mora aqui dentro, mãe. Lá fora eu sou só mais uma sombra. Eu preciso de ar, o cheiro dessa casa está me sufocando. Vou na praia um pouco, preciso esfriar a cabeça ou eu vou acabar fazendo uma loucura. — Mariana, por favor... — Tranca a porta, mãe. É uma ordem. Eu volto logo. Saí do quarto e desci as escadas sentindo o cheiro de uísque que ele deixou impregnado na sala. Saí pelo portão de ferro que rangeu como um lamento e comecei a caminhar em direção à orla. O vento frio da noite bateu no meu rosto como um tapa honesto, o único daquela noite que não tinha a intenção de me quebrar. Caminhei até a areia, onde o breu era quase total, sendo cortado apenas pela espuma branca das ondas que quebravam contra as pedras. Sete milhões. Daniel Bittencourt. O nome martelava na minha mente junto com o som do mar. Que tipo de buraco meu pai tinha cavado para dever esse valor? Na vida real, quando você deve para homens assim, você não paga com dinheiro que não tem; você paga com o que eles decidirem que vale o prejuízo. Sentei onde a areia estava mais fofa e, finalmente, desabei. Chorei feio. Chorei alto, deixando o som das ondas abafar a minha raiva. Chorei pela minha mãe, pela infância que eu perdi limpando sangue do chão e escondendo garrafas, e chorei porque eu tirava dez em Direito Penal, mas a vida real continuava absolvendo os monstros que dormiam no quarto ao lado. Eu estava cansada de ser a adulta, cansada de ser o escudo, cansada de ser a única com juízo naquele CEP maldito. Horas se passaram. O frio começou a morder minha pele através da blusa fina quando senti alguém se aproximar. A pessoa sentou ao meu lado, mantendo uma distância respeitosa, sem dizer uma palavra. O perfume suave, aquele cheiro de sabão de coco misturado com uma tristeza profunda, denunciou antes mesmo que eu olhasse. Era Beatriz. Minha amiga. Minha cúmplice de sobrevivência. Bolsista como eu, guerreira como poucas, e carregando no corpo cicatrizes que eu rezava para nunca ter. — O vidro quebrou de novo, Mari? — ela perguntou baixo, os olhos fixos no horizonte n***o. Olhei para ela. Beatriz estava de casaco largo, o corpo ainda em recuperação de uma dor que nenhum hospital cura totalmente. Os olhos dela aprenderam a chorar em silêncio para não atrair a fúria do marido. — Quebrou, Bia. Dessa vez foi um prato. E por pouco não foi o braço da minha mãe — respondi, limpando o rosto com as costas da mão. — E você? O que faz aqui a essa hora? Ela ficou em silêncio. A história da Beatriz era o meu pior medo personificado. Ela tinha se casado apaixonada, achando que o amor corrigia caráter, que ela seria a "salvação" dele. Não foi. Há dois meses, o marido um policial que usava a farda para se sentir um deus a espancou até ela perder o bebê de quatro meses no chão do banheiro. Ele gritava que ela era inútil enquanto o sangue escorria pelas pernas dela. Desde então, ela vivia pulando de casa em casa, fugindo de uma sombra que tinha arma e distintivo. — Ele mandou mensagem hoje — disse ela, a voz trêmula. — Disse que sabe onde eu estou escondida. Que se eu não voltar para "casa", ele mata o meu cachorro e depois termina o serviço comigo. Ele disse que eu sou posse dele e que posse não se discute, se retoma. Eu fechei os olhos, sentindo o ódio borbulhar. — Às vezes eu penso... — ela continuou — para que a gente estuda leis, Mari? Pra que a gente decora o Código Civil, se na vida real o soco sempre fala mais alto que o juiz? Segurei a mão dela. Estava gelada. — Porque um dia a gente vai ser a lei, Bia. A gente vai ser quem assina o mandado de prisão de caras como ele e o meu pai. Ela riu sem humor, uma risada que cortou meu coração. — Eu perdi meu filho, Mari. Ele chutou a minha barriga até não sobrar nada. Como é que eu acredito em justiça depois disso? As lágrimas dela caíram pesadas, misturando-se à areia. Duas mulheres, vinte e poucos anos, carregando o luto de vidas que nem começaram e a revolta de um mundo que nos trata como propriedade descartável. — É f**a ser mulher no nosso dia a dia, né? — soltei, sentindo o peso do mundo nas minhas palavras. — A gente nasce com um alvo nas costas e passa a vida tentando convencer o arqueiro a não atirar. Se a gente estuda, é afronta. Se a gente apanha, é porque provocou. Se a gente morre, vira estatística de rodapé de jornal. A verdade é que a nossa liberdade é um artigo de luxo que custa sangue, Bia. Beatriz limpou o rosto com a manga do casaco largo, o olhar perdido onde o mar e o céu se fundiam no breu da madrugada. Ela deu um suspiro fundo, daqueles que parecem carregar o peso de uma vida inteira de decepções, mas dessa vez tinha algo diferente no tom de voz dela. Uma faísca de quem cansou de ser presa. — Eu não vou mais deixar ele me achar, Mari. Cansei de viver no escuro — ela disse, e eu senti a firmeza nova nas palavras dela. — Eu dei um jeito. Aluguei uma casinha, um ovo de lugar, bem perto da faculdade. Usei as reservas que eu escondia no fundo da bolsa há meses, cada centavo que eu conseguia desviar. Vou atrás de um emprego, qualquer coisa, balconista, faxineira, o que aparecer. Só preciso terminar esse curso para ter uma arma de verdade na mão: a minha caneta. O soco dele não vai ser maior do que a minha voz no tribunal. — Você tá certa, Bia. Se precisar de qualquer coisa, se aquele desgraçado aparecer, você me liga na hora. A gente é o exército uma da outra — afirmei, segurando a mão dela com força. A gente se despediu ali mesmo, entre o som das ondas e o frio que cortava a pele. Ela seguiu o caminho dela, uma sombra pequena sumindo na escuridão, lutando contra o próprio rastro. Eu fiquei ali por mais um tempo, sozinha. Fiquei vendo o mar, sentindo o sal grudar na minha pele, tentando lavar o ódio que parecia ter criado raiz no meu peito. Eu precisava daquele silêncio para não quebrar por dentro. Voltei para casa quando o céu já começava a ganhar um tom de cinza azulado, aquele sinal de que o sol estava vindo para cobrar a conta de quem não dormiu. As ruas estavam desertas e o único som era o das minhas passadas rápidas. Quando cheguei no portão, o coração disparou, mas o carro velho do Francisco não estava lá. Ele ainda estava se afogando em algum copo de veneno por aí. Entrei em silêncio absoluto, cada passo no assoalho rangente soando como um grito na calada da noite. A casa cheirava a comida azeda, uísque barato e abandono. Subi as escadas com o coração na boca, testei a porta do meu quarto e vi que o ferrolho ainda estava no lugar. Minha mãe, Arlete, estava encolhida na minha cama, um fardo de dor envolto em lençóis desbotados. Ela dormia um sono inquieto, a testa franzida mesmo inconsciente, como se esperasse o próximo golpe até nos sonhos. Deitei ao lado dela, sem tirar os sapatos, sentindo o calor do corpo dela e o cheiro de sabão de coco que ela usava para tentar lavar a miséria daquela vida. O cansaço físico finalmente venceu a adrenalina. Fechei os olhos e apaguei, um sono sem sonhos, o tipo de blecaute que o cérebro faz quando não aguenta mais processar a realidade. Acordei com um sol agressivo trespassando as cortinas finas e queimando minha pálpebra. O quarto estava quente, abafado. Tateei o criado-mudo atrás do meu celular e, quando a tela brilhou, meu estômago despencou. — Merda! — o grito saiu sufocado. Eram oito e quarenta. A prova de Direito Civil — a prova que valia minha bolsa, meu futuro e a única chance de tirar a Arlete desse inferno tinha começado às oito em ponto. Eu estava quarenta minutos atrasada para o compromisso mais importante do semestre. Saltei da cama num movimento brusco, acordando minha mãe, que se sentou num sobressalto, os olhos arregalados de pavor. — O que foi? Ele voltou? O Francisco está aí? — ela gaguejou, protegendo o rosto com as mãos, o reflexo condicionado de décadas de abuso. — Não, mãe! Eu perdi a hora! — exclamei, catando meu Vade Mecum e jogando na mochila de qualquer jeito. — Por que a senhora não me acordou? — Você parecia tão exausta, Mari... parecia um anjo dormindo, eu não tive coragem... — ela disse, a voz embargada pela culpa. Não tive tempo para consolo. Enfiei qualquer roupa, joguei água no rosto para tirar o inchaço do choro da noite anterior e saí do quarto voando. Quando passei pela sala, o cheiro de álcool quase me derrubou. Francisco estava lá, estirado no sofá como um saco de lixo, roncando com a boca aberta, uma garrafa de pinga vazia caída no chão de taco. Olhei para ele com um nojo visceral. Aquele homem era a âncora que estava puxando meu futuro para o fundo do oceano. Saí de casa correndo, o sol das nove da manhã já fritando o asfalto. O ônibus demorou uma eternidade, e cada semáforo vermelho parecia um deboche da vida real contra mim. Eu suava frio, sentindo as mãos tremerem. Se eu perdesse aquela prova, minha média caía. Se a média caísse, a bolsa ia embora. E sem a bolsa, eu seria apenas mais uma estatística de mulher interrompida pela violência doméstica de terceiros. Finalmente pulei do ônibus na frente da faculdade e saí em disparada pelos corredores gélidos de mármore. Corri por aquele corredor de mármore como se a minha vida dependesse de cada centímetro percorrido. O som dos meus sapatos ecoava nas paredes altas, um ritmo desesperado de quem estava prestes a ver o futuro ser triturado por um atraso imperdoável. Meus olhos estavam fixos na porta da sala 304, a poucos metros de distância, quando o mundo simplesmente parou de repente. Eu não vi o obstáculo. Só senti o impacto brutal. Foi como se eu tivesse batido de frente contra um poste de concreto revestido de cashmere. O baque foi tão seco que o ar saiu dos meus pulmões com violência e eu cambaleei para trás, perdendo totalmente o equilíbrio. Minha mochila escorregou pelo ombro e o meu Vade Mecum aquele livro pesado que carregava toda a minha esperança caiu no chão com um estrondo metálico, espalhando papéis, xerox e canetas por todo o corredor impecável. — Olha por onde anda, garota estúpida! — a voz veio de cima, gélida, carregada de um desdém que fez o meu sangue ferver instantaneamente. Eu ainda estava recuperando o equilíbrio, com a mão no peito tentando fazer o coração voltar para o lugar, quando levantei o rosto com sangue nos olhos. Diante de mim estava um homem que parecia ter sido esculpido em gelo e arrogância. Ele usava um terno cinza chumbo que deveria custar o preço de um rim, sem uma única dobra, e exalava um perfume amadeirado tão caro que chegava a ser ofensivo naquele ambiente de estudantes que m*l tinham dinheiro para o passe. Ele nem se deu ao trabalho de se abaixar para ajudar. Ficou ali, parado, limpando com a palma da mão o lugar no paletó onde o meu ombro tinha encostado, como se eu fosse algum tipo de mancha contagiosa que tivesse acabado de infectar o seu patrimônio têxtil. — Olha você, seu i****a! — retruquei, a voz saindo mais alta do que eu planejava, temperada pelo ódio acumulado da noite anterior. — O corredor é público e eu estou com pressa. Se você estivesse prestando atenção em algo além do próprio ego, teria me visto vindo! Eu me abaixei rapidamente para catar minhas coisas, as mãos tremendo de raiva e de uma adrenalina corrosiva. Eu não tinha a menor ideia de quem era aquele sujeito, mas a postura dele me lembrava exatamente o tipo de homem que eu estava aprendendo a destruir nos livros: aqueles que acham que o espaço do mundo pertence só a eles por direito divino ou bancário. — Além do próprio ego? — Ele deu um passo à frente, invadindo o meu espaço pessoal de um jeito intimidador, me obrigando a olhar para cima enquanto eu ainda estava agachada no chão, catando minhas canetas. Seus olhos eram escuros, impessoais e tinham uma calma que beirava o insulto. — Para alguém que parece valorizar tanto o tempo alheio, você demonstra uma incompetência gritante em gerenciar o seu próprio. — Você não sabe nada sobre o meu tempo ou sobre a minha vida — disparei, levantando-me de uma vez e batendo a poeira da calça, encarando-o de frente, mesmo sendo mais baixa. — Agora sai da minha frente porque eu tenho uma prova de Civil que começou há quase uma hora e eu não vou perder o meu futuro porque bati em um poste de terno no corredor. Ele deu um sorriso de canto, algo curto e desprovido de qualquer calor humano. Era um sorriso de quem estava acostumado a ganhar todas as discussões antes mesmo delas começarem. Ele manteve o sorriso de canto, aquele de quem está acostumado a não ser confrontado. — Você sempre anda correndo assim ou foi só falta de coordenação mesmo? Eu ajeitei a mochila no ombro, ainda sentindo o impacto no peito. — Você sempre ocupa o corredor inteiro ou é treinamento especial de ego inflado? Alguns alunos diminuíram o passo. Clima de arena. Ele não se moveu. — Interessante. Além de distraída, é agressiva. Eu cheguei mais perto, sem baixar os olhos. — Além de arrogante, você é lento. Ele olhou rapidamente para o lugar onde meu ombro tinha encostado no paletó, como se eu tivesse sujado algo invisível. Aquilo me irritou mais que o choque. — Relaxa — eu disse. — Não pega pobreza por contato. Os olhos dele voltaram para mim, agora mais atentos. — Pobreza não é contagiosa. Descontrole é. Eu ri seco. — Você devia dar palestra motivacional. “Como ser insuportável em três passos”. Ele cruzou os braços, confortável. — E você devia aprender a se desculpar quando erra. Eu avancei meio passo. — Eu errei? Você estava parado no meio do caminho como se o mundo girasse ao seu redor. — Talvez gire. — Então aproveita e gira pra fora da minha frente. Ele ficou em silêncio alguns segundos, estudando meu rosto inchado de sono, o cabelo preso de qualquer jeito, a respiração acelerada. — Você parece estar fugindo de alguma coisa. Aquilo quase me fez perder o controle. — E você parece procurar alguma coisa que não é da sua conta. Ele deu um sorriso mínimo. — Gosto de gente que responde. — Então anota essa resposta. Eu me aproximei o suficiente para que só ele ouvisse: — Vai se f***r. Não foi gritado. Foi dito como sentença. Ele não reagiu com choque. Ele riu. Baixo. Controlado. — Educação refinada. — Realidade prática. Ele inclinou a cabeça. — Você fala assim com todo mundo? — Só com homem que acha que o corredor é extensão do próprio ego. O silêncio ficou pesado. Ele deu um passo para o lado, finalmente abrindo espaço. — Depois dizem que a juventude não tem personalidade. Eu passei por ele sem olhar para trás. — Personalidade eu tenho. Paciência é que está em falta. Quando alcancei a porta da 304 e segurei a maçaneta, ouvi a voz dele atrás de mim: — Ei. Eu virei devagar, já irritada de novo. — O quê? Ele estava com aquele mesmo sorriso enviesado. — Da próxima vez, olha para frente antes de atacar um “poste de terno”. Eu sustentei o olhar. — Da próxima vez, tenta não parecer um alvo tão fácil. Entrei na sala e bati a porta sem dar a ele a última palavra. Mas eu senti. Senti que ele não tinha se ofendido. Ele tinha se interessado. E isso era muito pior.
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