Entrei na sala 304 tentando controlar a respiração. Ainda dava tempo. Eu repetia isso na cabeça como um mantra desesperado.
Os alunos estavam curvados sobre as provas. O som das canetas riscando papel parecia um julgamento coletivo. O professor Álvaro levantou os olhos devagar.
— Senhorita Mariana.
A sala inteira virou para me olhar. Eu mantive a postura.
— Bom dia, professor. Desculpa o atraso. Posso fazer no tempo restante.
Ele olhou para o relógio na parede. Depois para o próprio pulso.
— A prova começou às oito em ponto.
— Eu sei.
— São oito e quarenta e sete.
Um murmurinho baixo atravessou a sala.
— Ainda restam mais de duas horas — eu disse firme. — Eu entrego junto com os outros.
Ele pousou a caneta sobre a mesa, cruzando as mãos.
— O regulamento da instituição é claro. Após trinta minutos de atraso, o aluno não pode ingressar em sala de avaliação.
Foi como levar um soco no estômago.
— Professor, eu nunca faltei. Minha média é alta. O senhor sabe disso.
— Não estou questionando seu desempenho.
— Então por que me impedir de fazer a prova?
— Porque regra não é sugestão.
Minha mandíbula travou.
— Regra também prevê análise de caso excepcional.
Ele respirou fundo.
— A faculdade não pode abrir precedentes.
— Precedente não é privilégio. É aplicação de razoabilidade.
Alguns alunos começaram a fingir que escreviam, mas estavam ouvindo tudo. Ele ficou em silêncio alguns segundos.
— A senhorita teve algum imprevisto médico? Acidente? Boletim de ocorrência?
Aquilo doeu. Eu poderia dizer a verdade. Que passei a madrugada segurando minha mãe para que ela não apanhasse. Que a casa ainda cheirava a uísque e ameaça. Mas violência doméstica não vira atestado.
— Não — respondi seco.
Ele assentiu.
— Então infelizmente não posso permitir.
Infelizmente. A palavra mais covarde da língua portuguesa.
— O senhor está me reprovando por dezessete minutos acima do limite?
— Estou aplicando o regulamento.
O sangue começou a subir.
— O regulamento serve para manter ordem, não para destruir trajetória acadêmica.
Ele manteve a calma irritante.
— Controle o tom.
Eu dei um passo à frente.
— Eu estou controlando.
Minha voz estava firme, mas meus dedos tremiam.
— Essa prova vale quarenta por cento da média final. O senhor sabe o que isso significa para mim.
Ele me encarou de um jeito diferente agora. Observando algo além da aluna.
— Todos aqui têm responsabilidades.
— Nem todos aqui voltam para casa com medo.
O silêncio ficou pesado. Eu tinha falado demais. Ele estreitou os olhos.
— A sala não é espaço para dramatizações.
Aquilo foi o limite.
— Não é dramatização. É realidade.
Ele ficou rígido.
— Senhorita Mariana, retire-se. O segurança pode acompanhá-la se necessário.
Alguns alunos arregalaram os olhos. Eu ri sem humor.
— Vai chamar segurança porque eu pedi para fazer prova?
— Estou mantendo a ordem.
Eu respirei fundo. Devagar. Se eu explodisse, ele teria razão. Se eu implorasse, eu perderia.
— Certo — eu disse, endireitando a postura. — Então formalize por escrito que o senhor me impediu de realizar avaliação mesmo com presença dentro do horário institucional e sem perturbar a ordem.
Ele piscou.
— Como?
— Quero por escrito. Para anexar ao recurso administrativo.
Agora a sala estava em silêncio absoluto. Ele avaliou.
— A senhorita está ameaçando?
— Estou exercendo direito.
Pausa longa.
— Aguarde do lado de fora — ele disse por fim. — Vou verificar com a coordenação.
Eu assenti. Saí da sala com o coração explodindo no peito. Quando a porta fechou atrás de mim, o corredor parecia mais frio. E adivinha quem estava encostado na parede, braços cruzados, como se o mundo fosse entretenimento particular?
— Você de novo.
Ele descruzou os braços devagar.
— Parece que a sua manhã não está colaborando.
— Não é da sua conta.
— Talvez possa ser.
Eu dei um passo para o lado, tentando ignorar.
— Eu posso te ajudar a fazer a prova.
Eu parei. Virei devagar.
— O quê?
Ele deu de ombros, tranquilo demais.
— Tenho influência suficiente para resolver um atraso insignificante.
Meu estômago virou.
— Não quero tua ajuda.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Mas eu posso.
— Eu disse que não.
Ele se aproximou um pouco.
— Você está prestes a perder uma avaliação importante por orgulho.
Aquilo acendeu tudo.
— Eu não vou dever favor a homem nenhum pra fazer prova.
Ele manteve a calma irritante.
— Não seria um favor. Considere… uma intervenção estratégica.
Eu senti o sangue subir.
— Eu disse que não quero.
— Você prefere perder?
Eu explodi.
— EU DISSE QUE NÃO!
Minha voz ecoou pelo corredor. Algumas portas se entreabriram. Alunos olharam. Ele não recuou. Só me observou. Como se estivesse testando limites.
— Interessante — murmurou. — Você prefere se afogar a aceitar uma bóia.
— Prefiro aprender a nadar do que ficar devendo ar.
Silêncio pesado. Nesse exato momento, a porta da sala 304 se abriu. O professor Álvaro saiu, expressão tensa.
— Senhor…
Ele parou ao ver o homem à minha frente. Mudou completamente o tom.
— Senhor Bittencourt.
O nome caiu no ar como pedra. Meu coração falhou uma batida. Bittencourt. O sobrenome martelou na minha cabeça. O professor ajeitou os óculos.
— Não sabia que o senhor estava na instituição hoje.
Ele respondeu sem tirar os olhos de mim:
— Eu costumo aparecer quando menos esperam.
O professor então se virou para mim.
— Mariana… este é o doutor Daniel Bittencourt.
O chão pareceu inclinar. Daniel. Bittencourt. Sete milhões. Meu estômago despencou. O professor continuou, quase solene:
— Ele é o principal mantenedor do nosso núcleo jurídico… e m****o do conselho administrativo da faculdade.
Eu fiquei imóvel. Lentamente, virei o rosto para ele. O sorriso dele não era mais só provocação. Era consciência.
— Agora você sabe com quem está falando — ele disse baixo.
Meu maxilar travou. Mas eu não abaixei os olhos.
— Ótimo — respondi. — Não muda nada.
O professor tossiu, desconfortável.
— Senhor Bittencourt havia se oferecido para intermediar a situação…
Eu cortei.
— Eu já disse que não preciso de ajuda.
Daniel ergueu uma sobrancelha.
— Você tem certeza?
Eu dei um passo à frente.
— Absoluta.
O corredor estava em silêncio total. O professor parecia dividido entre nervosismo e deferência.
— Mariana, talvez seja prudente reconsiderar—
— Prudente é não misturar avaliação acadêmica com influência administrativa — eu retruquei, firme.
Daniel soltou um riso baixo.
— Você realmente gosta de tornar as coisas difíceis.
— Eu gosto de manter as coisas limpas.
Os olhos dele escureceram um pouco. Não de raiva. De interesse.
— Muito bem — ele disse. — Vamos ver até onde você consegue sozinha.
O silêncio ficou espesso entre nós três. O professor claramente desconfortável. Ele claramente se divertindo. E eu claramente com vontade de incendiar aquele corredor inteiro. Daniel inclinou levemente a cabeça, analisando meu rosto como se estivesse memorizando cada traço.
— Mariana… — ele repetiu devagar, como se estivesse provando o nome. — Nome bonito.
Aquilo me irritou mais do que a oferta de ajuda.
— Não quero mais fazer a prova com interferência sua rondando — eu respondi seco. — Já ficou claro que qualquer coisa que aconteça agora vai parecer favorecimento.
O professor arregalou levemente os olhos. Daniel abriu um sorriso pequeno.
— Eu não preciso interferir para que as coisas aconteçam.
— Ótimo. Então não interfira.
Ele deu meio passo para frente.
— Você é orgulhosa demais para alguém que está em desvantagem.
Eu ri curto.
— E você é confiante demais para alguém que acabou de ouvir dois “nãos” seguidos.
O professor tentou intervir.
— Senhor Bittencourt, posso resolver isso com a coordenação…
Daniel ergueu a mão, sem olhar para ele.
— Não. Quero ouvir até onde ela vai.
Eu cruzei os braços.
— Eu vou até onde for necessário para não depender de você.
Os olhos dele ficaram mais atentos.
— Dependência te assusta?
Eu sustentei o olhar.
— Me enoja.
Pausa. Ele aproximou o rosto o suficiente para falar baixo, mas não íntimo.
— Você não faz ideia do tipo de portas que eu poderia abrir para você.
— Eu não faço ideia — respondi firme — e não quero fazer.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Ambição não é crime.
— Não. Mas vender dignidade é.
O professor pigarreou, visivelmente nervoso com a tensão crescente.
— Mariana, se quiser aguardar enquanto eu verifico uma excepcionalidade…
Eu virei para ele.
— Professor, eu só quero que a regra seja aplicada com coerência. Se a resposta for não, eu entro com recurso. Simples.
Daniel soltou um riso baixo.
— Você transforma tudo em batalha.
— Porque sempre tem alguém achando que pode decidir por mim.
Ele me encarou por longos segundos.
— Você fala como se estivesse sempre lutando.
Aquilo quase escapou da minha boca: porque eu estou. Mas eu não dei essa parte.
— Não é da sua conta.
O sorriso dele diminuiu.
— Você é diferente.
— Não me classifica.
— Eu classifico o que me interessa.
Eu dei um passo à frente, encarando.
— Então começa a se acostumar com frustração.
O professor voltou, respirando fundo.
— Mariana… a coordenação manteve a decisão. O limite de trinta minutos é inflexível.
Meu mundo fez um ruído surdo por dentro. Eu fechei os olhos por um segundo. Respirei. Quando abri, estava firme.
— Certo.
Daniel observava cada microexpressão.
— Vai aceitar assim? — ele perguntou.
Eu virei para ele.
— Não. Vou protocolar recurso formal ainda hoje.
Ele inclinou a cabeça.
— E se não deferirem?
Eu sustentei.
— Eu continuo.
— E se perder a bolsa?
Aquilo foi um golpe. Mas eu não deixei transparecer.
— Aí eu arrumo outro jeito.
Ele deu um sorriso lento.
— Você realmente acredita que consegue sozinha.
— Eu não acredito. Eu faço.
Silêncio. Ele se aproximou mais uma vez, agora sem ironia no olhar.
— Você vai descobrir que o mundo não é tão simples quanto seus códigos.
Eu respondi, sem hesitar:
— E você vai descobrir que eu não sou tão fácil quanto imagina.
Os olhos dele brilharam de novo. Não era deboche agora. Era desafio.
— Nós ainda vamos conversar, Mariana.
— Só se for em audiência.
Virei as costas. Dessa vez, ele não tentou me parar. Mas eu senti. Senti o peso do olhar dele nas minhas costas. Não como quem perdeu. Como quem decidiu que o jogo começou agora.
Eu caminhei pelo corredor gélido sem olhar para trás, sentindo o sangue martelar nas têmporas. O nome Daniel Bittencourt ecoava como uma sentença. O dono da dívida, o homem que meu pai temia como ao próprio d***o, era o mesmo que estava ali, brincando de ser magnata benevolente nos corredores da minha faculdade.