capitulo 7 Continuação

1807 Words
Entrei na sala 304 tentando controlar a respiração. Ainda dava tempo. Eu repetia isso na cabeça como um mantra desesperado. Os alunos estavam curvados sobre as provas. O som das canetas riscando papel parecia um julgamento coletivo. O professor Álvaro levantou os olhos devagar. — Senhorita Mariana. A sala inteira virou para me olhar. Eu mantive a postura. — Bom dia, professor. Desculpa o atraso. Posso fazer no tempo restante. Ele olhou para o relógio na parede. Depois para o próprio pulso. — A prova começou às oito em ponto. — Eu sei. — São oito e quarenta e sete. Um murmurinho baixo atravessou a sala. — Ainda restam mais de duas horas — eu disse firme. — Eu entrego junto com os outros. Ele pousou a caneta sobre a mesa, cruzando as mãos. — O regulamento da instituição é claro. Após trinta minutos de atraso, o aluno não pode ingressar em sala de avaliação. Foi como levar um soco no estômago. — Professor, eu nunca faltei. Minha média é alta. O senhor sabe disso. — Não estou questionando seu desempenho. — Então por que me impedir de fazer a prova? — Porque regra não é sugestão. Minha mandíbula travou. — Regra também prevê análise de caso excepcional. Ele respirou fundo. — A faculdade não pode abrir precedentes. — Precedente não é privilégio. É aplicação de razoabilidade. Alguns alunos começaram a fingir que escreviam, mas estavam ouvindo tudo. Ele ficou em silêncio alguns segundos. — A senhorita teve algum imprevisto médico? Acidente? Boletim de ocorrência? Aquilo doeu. Eu poderia dizer a verdade. Que passei a madrugada segurando minha mãe para que ela não apanhasse. Que a casa ainda cheirava a uísque e ameaça. Mas violência doméstica não vira atestado. — Não — respondi seco. Ele assentiu. — Então infelizmente não posso permitir. Infelizmente. A palavra mais covarde da língua portuguesa. — O senhor está me reprovando por dezessete minutos acima do limite? — Estou aplicando o regulamento. O sangue começou a subir. — O regulamento serve para manter ordem, não para destruir trajetória acadêmica. Ele manteve a calma irritante. — Controle o tom. Eu dei um passo à frente. — Eu estou controlando. Minha voz estava firme, mas meus dedos tremiam. — Essa prova vale quarenta por cento da média final. O senhor sabe o que isso significa para mim. Ele me encarou de um jeito diferente agora. Observando algo além da aluna. — Todos aqui têm responsabilidades. — Nem todos aqui voltam para casa com medo. O silêncio ficou pesado. Eu tinha falado demais. Ele estreitou os olhos. — A sala não é espaço para dramatizações. Aquilo foi o limite. — Não é dramatização. É realidade. Ele ficou rígido. — Senhorita Mariana, retire-se. O segurança pode acompanhá-la se necessário. Alguns alunos arregalaram os olhos. Eu ri sem humor. — Vai chamar segurança porque eu pedi para fazer prova? — Estou mantendo a ordem. Eu respirei fundo. Devagar. Se eu explodisse, ele teria razão. Se eu implorasse, eu perderia. — Certo — eu disse, endireitando a postura. — Então formalize por escrito que o senhor me impediu de realizar avaliação mesmo com presença dentro do horário institucional e sem perturbar a ordem. Ele piscou. — Como? — Quero por escrito. Para anexar ao recurso administrativo. Agora a sala estava em silêncio absoluto. Ele avaliou. — A senhorita está ameaçando? — Estou exercendo direito. Pausa longa. — Aguarde do lado de fora — ele disse por fim. — Vou verificar com a coordenação. Eu assenti. Saí da sala com o coração explodindo no peito. Quando a porta fechou atrás de mim, o corredor parecia mais frio. E adivinha quem estava encostado na parede, braços cruzados, como se o mundo fosse entretenimento particular? — Você de novo. Ele descruzou os braços devagar. — Parece que a sua manhã não está colaborando. — Não é da sua conta. — Talvez possa ser. Eu dei um passo para o lado, tentando ignorar. — Eu posso te ajudar a fazer a prova. Eu parei. Virei devagar. — O quê? Ele deu de ombros, tranquilo demais. — Tenho influência suficiente para resolver um atraso insignificante. Meu estômago virou. — Não quero tua ajuda. Ele inclinou levemente a cabeça. — Mas eu posso. — Eu disse que não. Ele se aproximou um pouco. — Você está prestes a perder uma avaliação importante por orgulho. Aquilo acendeu tudo. — Eu não vou dever favor a homem nenhum pra fazer prova. Ele manteve a calma irritante. — Não seria um favor. Considere… uma intervenção estratégica. Eu senti o sangue subir. — Eu disse que não quero. — Você prefere perder? Eu explodi. — EU DISSE QUE NÃO! Minha voz ecoou pelo corredor. Algumas portas se entreabriram. Alunos olharam. Ele não recuou. Só me observou. Como se estivesse testando limites. — Interessante — murmurou. — Você prefere se afogar a aceitar uma bóia. — Prefiro aprender a nadar do que ficar devendo ar. Silêncio pesado. Nesse exato momento, a porta da sala 304 se abriu. O professor Álvaro saiu, expressão tensa. — Senhor… Ele parou ao ver o homem à minha frente. Mudou completamente o tom. — Senhor Bittencourt. O nome caiu no ar como pedra. Meu coração falhou uma batida. Bittencourt. O sobrenome martelou na minha cabeça. O professor ajeitou os óculos. — Não sabia que o senhor estava na instituição hoje. Ele respondeu sem tirar os olhos de mim: — Eu costumo aparecer quando menos esperam. O professor então se virou para mim. — Mariana… este é o doutor Daniel Bittencourt. O chão pareceu inclinar. Daniel. Bittencourt. Sete milhões. Meu estômago despencou. O professor continuou, quase solene: — Ele é o principal mantenedor do nosso núcleo jurídico… e m****o do conselho administrativo da faculdade. Eu fiquei imóvel. Lentamente, virei o rosto para ele. O sorriso dele não era mais só provocação. Era consciência. — Agora você sabe com quem está falando — ele disse baixo. Meu maxilar travou. Mas eu não abaixei os olhos. — Ótimo — respondi. — Não muda nada. O professor tossiu, desconfortável. — Senhor Bittencourt havia se oferecido para intermediar a situação… Eu cortei. — Eu já disse que não preciso de ajuda. Daniel ergueu uma sobrancelha. — Você tem certeza? Eu dei um passo à frente. — Absoluta. O corredor estava em silêncio total. O professor parecia dividido entre nervosismo e deferência. — Mariana, talvez seja prudente reconsiderar— — Prudente é não misturar avaliação acadêmica com influência administrativa — eu retruquei, firme. Daniel soltou um riso baixo. — Você realmente gosta de tornar as coisas difíceis. — Eu gosto de manter as coisas limpas. Os olhos dele escureceram um pouco. Não de raiva. De interesse. — Muito bem — ele disse. — Vamos ver até onde você consegue sozinha. O silêncio ficou espesso entre nós três. O professor claramente desconfortável. Ele claramente se divertindo. E eu claramente com vontade de incendiar aquele corredor inteiro. Daniel inclinou levemente a cabeça, analisando meu rosto como se estivesse memorizando cada traço. — Mariana… — ele repetiu devagar, como se estivesse provando o nome. — Nome bonito. Aquilo me irritou mais do que a oferta de ajuda. — Não quero mais fazer a prova com interferência sua rondando — eu respondi seco. — Já ficou claro que qualquer coisa que aconteça agora vai parecer favorecimento. O professor arregalou levemente os olhos. Daniel abriu um sorriso pequeno. — Eu não preciso interferir para que as coisas aconteçam. — Ótimo. Então não interfira. Ele deu meio passo para frente. — Você é orgulhosa demais para alguém que está em desvantagem. Eu ri curto. — E você é confiante demais para alguém que acabou de ouvir dois “nãos” seguidos. O professor tentou intervir. — Senhor Bittencourt, posso resolver isso com a coordenação… Daniel ergueu a mão, sem olhar para ele. — Não. Quero ouvir até onde ela vai. Eu cruzei os braços. — Eu vou até onde for necessário para não depender de você. Os olhos dele ficaram mais atentos. — Dependência te assusta? Eu sustentei o olhar. — Me enoja. Pausa. Ele aproximou o rosto o suficiente para falar baixo, mas não íntimo. — Você não faz ideia do tipo de portas que eu poderia abrir para você. — Eu não faço ideia — respondi firme — e não quero fazer. Ele arqueou a sobrancelha. — Ambição não é crime. — Não. Mas vender dignidade é. O professor pigarreou, visivelmente nervoso com a tensão crescente. — Mariana, se quiser aguardar enquanto eu verifico uma excepcionalidade… Eu virei para ele. — Professor, eu só quero que a regra seja aplicada com coerência. Se a resposta for não, eu entro com recurso. Simples. Daniel soltou um riso baixo. — Você transforma tudo em batalha. — Porque sempre tem alguém achando que pode decidir por mim. Ele me encarou por longos segundos. — Você fala como se estivesse sempre lutando. Aquilo quase escapou da minha boca: porque eu estou. Mas eu não dei essa parte. — Não é da sua conta. O sorriso dele diminuiu. — Você é diferente. — Não me classifica. — Eu classifico o que me interessa. Eu dei um passo à frente, encarando. — Então começa a se acostumar com frustração. O professor voltou, respirando fundo. — Mariana… a coordenação manteve a decisão. O limite de trinta minutos é inflexível. Meu mundo fez um ruído surdo por dentro. Eu fechei os olhos por um segundo. Respirei. Quando abri, estava firme. — Certo. Daniel observava cada microexpressão. — Vai aceitar assim? — ele perguntou. Eu virei para ele. — Não. Vou protocolar recurso formal ainda hoje. Ele inclinou a cabeça. — E se não deferirem? Eu sustentei. — Eu continuo. — E se perder a bolsa? Aquilo foi um golpe. Mas eu não deixei transparecer. — Aí eu arrumo outro jeito. Ele deu um sorriso lento. — Você realmente acredita que consegue sozinha. — Eu não acredito. Eu faço. Silêncio. Ele se aproximou mais uma vez, agora sem ironia no olhar. — Você vai descobrir que o mundo não é tão simples quanto seus códigos. Eu respondi, sem hesitar: — E você vai descobrir que eu não sou tão fácil quanto imagina. Os olhos dele brilharam de novo. Não era deboche agora. Era desafio. — Nós ainda vamos conversar, Mariana. — Só se for em audiência. Virei as costas. Dessa vez, ele não tentou me parar. Mas eu senti. Senti o peso do olhar dele nas minhas costas. Não como quem perdeu. Como quem decidiu que o jogo começou agora. Eu caminhei pelo corredor gélido sem olhar para trás, sentindo o sangue martelar nas têmporas. O nome Daniel Bittencourt ecoava como uma sentença. O dono da dívida, o homem que meu pai temia como ao próprio d***o, era o mesmo que estava ali, brincando de ser magnata benevolente nos corredores da minha faculdade.
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