Capitulo 8 Mariana

1800 Words
Saí da faculdade sem olhar para trás. O mármore frio dos corredores ficou para trás, mas a humilhação veio comigo, grudada na pele como suor seco e tóxico. O sol da manhã já estava alto, castigando o asfalto e fritando a pouca paciência que me restava. Atravessei o portão com passos largos, cada pisada no chão era um palavrão engolido, uma promessa de vingança contra um sistema que prefere a regra à justiça. Eu não ia chorar. Não ali, sob a luz impiedosa do dia. Não por causa de um regulamento mofado ou de um homem que usa terno de três peças para esconder uma alma de tubarão. Meus dedos ainda tremiam, não de medo, mas daquela adrenalina corrosiva que fica quando você segura um grito por tempo demais. — Mariana! A voz cortou o barulho dos carros. Beatriz atravessou a rua quase correndo, a mochila pendurada em um ombro só, o cabelo preso num coque desfeito que denunciava a pressa e o cansaço. Quando ela chegou perto e viu o estado da minha cara a mandíbula travada e os olhos faiscando ela parou de uma vez, prendendo a respiração. — O que foi que aconteceu? Mari, você está pálida. Soltei uma risada sem um pingo de humor, um som seco que arranhou minha garganta. — Eu perdi a hora. Simples assim. O despertador da vida real não tocou, Bia. Ela piscou, tentando processar a gravidade da situação. — Só isso? Por causa de um atraso? — "Só isso"? — repeti, sentindo a raiva subir como febre. — Só isso, Bia? A prova de Civil. Quarenta por cento da média. Eu cheguei dezessete minutos além do limite ridículo deles e o professor Álvaro me barrou como se eu fosse uma invasora. Ele desfilou o manual de conduta na minha frente enquanto eu tentava não vomitar de ansiedade. Beatriz levou a mão à boca, os olhos escurecendo. — Ele não deixou você fazer? Nem com o seu histórico? — Não. Regulamento inflexível. Ordem. Disciplina. O teatrinho de sempre. Ele me olhou de cima para baixo e disse que regra não é sugestão. Como se a vida fosse um código limpo, sem sangue e sem drama. — Você tentou explicar? Falou que... as coisas em casa... Passei a mão no rosto, sentindo a pele arder. — Ele perguntou se eu tinha atestado, boletim de ocorrência, acidente. Como se violência doméstica viesse com carimbo, firma reconhecida e assinatura. Como se o roxo no braço da minha mãe fosse um anexo válido para a coordenação. Eu não contei, Bia. Não vou expor a Arlete para virar fofoca de corredor ou nota de rodapé em ata de coordenação. Se eu fizesse isso, o Francisco vencia. Beatriz respirou fundo. Ela conhecia aquele silêncio. Ela mesma o carregava nas cicatrizes que tentava esconder. — E aquele cara no corredor? Eu vi você discutindo com um engomado quando eu estava chegando. Senti o estômago apertar, uma náusea física. — Um i*****l de terno que achou que podia “me ajudar”. Um parasita de luxo que apareceu do nada oferecendo influência como se estivesse me fazendo um favor divino. — Ajudar como? — Influência, Bia. O cara é m****o do conselho, principal mantenedor do núcleo jurídico. Nome bonito, sorriso cínico e aquela certeza irritante de que pode resolver qualquer coisa estalando os dedos. Ele olhou para mim como se eu fosse um projeto interessante de caridade. — E você… — Mandei ele se f***r. Ela soltou um “Mari!” meio chocado, mas vi o brilho de orgulho nos olhos dela. A gente não tem muita coisa, mas a nossa dignidade é a única propriedade que esses caras não conseguem confiscar sem luta. — Eu não vou dever favor para homem nenhum, Bia. Muito menos para um que olha para mim como se eu fosse uma peça em um tabuleiro que ele já domina. Ele foi curioso demais. Confiante demais. Como se já tivesse decidido que eu ia aceitar a ajuda dele em algum momento. — E você vai? Mesmo se isso custar a bolsa? Eu parei na calçada, olhando o fluxo incessante de carros, sentindo o peso do mundo nos ombros. — Não. Eu entro com recurso. Eu brigo. Eu cito o princípio da razoabilidade, a função social da educação, o raio que o parta. Vou protocolar cada linha de defesa que eu aprendi naqueles livros caros. — E se negarem? Dei de ombros, mas o gesto não convenceu nem a mim mesma. O medo estava lá, gelado, logo abaixo da raiva. — Aí eu trabalho. Dou aula particular. Vendo resumo na porta da faculdade. Faço estágio em três lugares. Mas eu não vou me curvar para ele. Caminhamos um pouco em silêncio, o calor do asfalto subindo pelas nossas pernas. — Como ele se chama? — Beatriz perguntou baixo. Demorei para responder. O nome era pesado demais para ser dito no meio da rua. — Daniel Bittencourt. Beatriz congelou. Literalmente parou no meio da calçada, fazendo um pedestre esbarrar nela. — Bittencourt? — Você conhece o sobrenome? — Mari… esse sobrenome não é o mesmo do… Ela não terminou a frase, mas não precisava. O nome martelou na minha cabeça com a força de um veredito. Sete milhões. Meu pai. Minha casa fedendo a álcool barato e desespero. — É — eu cortei, a voz saindo como uma lâmina. — É o mesmo. O vento levantou meu cabelo, mas não levou o peso do que aquilo significava. Senti uma náusea nova. O homem que me ofereceu "ajuda" no corredor era o dono da dívida que estava destruindo a minha família. — Eu preciso saber como meu pai conhece esse cara — eu disse, sentindo o sangue pulsar nas têmporas. — E por que ele deve sete milhões para um homem daquele nível. Dívida de jogo não chega nesse valor para um coitado como o Francisco. Isso não é só azar, Bia. É estratégia. — Sete milhões, Mariana? — os olhos dela estavam arregalados. — Ninguém entrega milhões para alguém como seu pai sem ter uma garantia. O que ele deu em troca? Eu engoli seco. O pensamento era tenebroso demais para ser formulado. — É isso que eu vou descobrir. Nem que eu tenha que revirar cada lixo que o Francisco esconde. Começamos a andar novamente, mas o ar parecia ter ficado mais denso. O barulho da rua parecia distante, como se estivéssemos dentro de um aquário. — Talvez seja empréstimo de agiota de luxo — Bia arriscou, tentando aliviar o clima. — Meu pai não tem crédito para comprar fiado na padaria, Bia. Você acha que alguém entrega milhões para ele assinar papelzinho? Tem algo muito mais sujo aí. O silêncio voltou, pesado e sufocante. Antes que eu pudesse formular a próxima pergunta, o som seco de uma freada brusca cortou o ar. Um carro da polícia entrou rápido demais na nossa frente, atravessando a pista quase na diagonal, bloqueando a nossa passagem. Parei automaticamente. Beatriz congelou ao meu lado, a mão dela cravando as unhas no meu braço. O vidro do motorista desceu devagar, num movimento calculado para causar medo. E o mundo da Bia desmoronou no mesmo segundo. O rosto que apareceu ali tinha farda, distintivo e um sorriso torto, assimétrico, que exalava uma maldade contida. O ex-marido dela. O homem que deveria proteger, mas que escolheu destruir. Os olhos dele estavam fixos em Beatriz. Ele nem olhou para mim. Para ele, ela era propriedade recuperada. — Que coincidência — ele disse, a voz mansa, quase um sussurro. — Eu sabia que te encontraria por aqui. A cidade é pequena para quem não tem para onde ir, não é? Beatriz deu um passo para trás. Eu sentia o tremor dela, uma vibração de terror que passava pelo meu braço. — Não chega perto — falei, a voz saindo mais firme do que o meu coração permitia. Ele ignorou completamente minha existência. — Fugindo de novo, Bia? — o tom dele era quase carinhoso, o que era mil vezes pior que um grito. — Eu disse que a gente precisava conversar. Eu fico preocupado, você some assim... Preocupado. Eu senti o ódio subir como fogo. — Preocupado? — eu cuspi as palavras. — Você chutou ela até ela perder o filho, seu desgraçado. Você devia estar atrás das grades. Os olhos dele finalmente vieram para mim. Frios. Mortos. — Quem é você? — Alguém que não tem medo de você. Ele deu um sorriso pequeno, sem dentes. — Todo mundo tem medo de mim. Só ainda não descobriu o porquê. Ele abriu a porta do carro e saiu devagar. O couro da farda rangeu, o som metálico das algemas batendo no cinto ecoou como uma sentença. Ele se postou na nossa frente, usando a farda como escudo para a sua covardia. — Você vai entrar no carro — ele disse para a Beatriz, como se desse uma ordem de serviço. — A gente tem assuntos pendentes. Eu me coloquei fisicamente entre os dois. Senti o cheiro de suor e autoridade barata que ele emanava. — Ela não vai a lugar nenhum com você. Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço. — Você está obstruindo um agente da lei. Saia do caminho, garota. — Você não está em ocorrência. Está em obsessão — rebati, sustentando o olhar. — Você está usando viatura e farda para cometer assédio. Quer que eu cite os artigos do Código Penal ou prefere que eu chame a Corregedoria agora mesmo? O maxilar dele travou. A veia no pescoço pulsou. — Cuidado com o que fala. Estudante de Direito não tem imunidade. — E policial não tem licença para ser monstro — retruquei. — Assédio é crime. Violência doméstica é crime. Quer mesmo testar a minha memória para os artigos? Beatriz apertou meu braço com tanta força que doeu. — Mari, vamos embora… por favor… Ele baixou o tom de voz, tornando-a venenosa, um sibilo de serpente. — Você acha que pode me enfrentar? No meu território? Com o meu distintivo? — Eu não preciso te enfrentar fisicamente — eu disse, pegando o celular do bolso. — Eu só preciso gravar. Apontei a câmera para o rosto dele. — Ótimo. Vamos lá. Identifique-se, oficial. Diga o motivo da abordagem. Explique por que está coagindo uma cidadã civil sem suspeita de crime. O mundo todo está assistindo. O sorriso dele desapareceu instantaneamente. O ódio brilhou puro nos olhos dele. Homens que usam o Estado como máscara odeiam a luz da verdade. — Sai da frente — ele disse, a voz agora rouca de fúria. Eu não saí. Minhas pernas eram gelatina, mas meu tronco era uma muralha. Pela primeira vez naquela manhã, o medo não era sobre a faculdade ou sobre o Daniel Bittencourt. Era sobre sobreviver àquele homem.
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