11

2045 Words
Mikhail A casa está silenciosa quando a porta da frente se abre. O som da mala sendo arrastada pelo piso de madeira ecoa pelo corredor, seguido por uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar. — Pai? Solto o ar lentamente e tento disfarçar o que estava fazendo com Isabella no quarto de hóspedes. Mathew chegou. Passo a mão pelo rosto antes de sair do cômodo. Não estava exatamente esperando por ele tão cedo, mas também não posso dizer que estou surpreso. Meu filho sempre teve essa tendência de aparecer quando menos se espera — como se o mundo fosse apenas um conjunto de portas abertas para ele atravessar. Quando entro no hall, ele já está lá, alto, ombros largos, uma mochila pendurada em um dos braços e uma mala grande ao lado das pernas. Ele sorri ao me ver. — Achei que você ainda estaria no escritório — diz. Cruzo os braços. — Achei que você voltaria só amanhã. — Mudei de ideia. Isso é típico dele. Mathew sempre muda de ideia. Dou alguns passos até ele e o abraço rapidamente. Ele já não é mais o garoto que costumava correr pela casa, mas ainda há algo no jeito que me abraça — forte, direto — que me lembra daquele menino. — Como foi a viagem? — pergunto. Ele solta um suspiro cansado. — Longa. Muito longa. Ele passa a mão pelo cabelo. — Mas boa. — Onde você estava mesmo? — pergunto. — Barcelona primeiro. Depois Ibiza. Claro. Ibiza. Solto um pequeno riso. — Imagino que você tenha se comportado como um santo. Ele levanta as sobrancelhas. — Pai… eu nunca menti para você. — Não, nunca mentiu. — Então sabe que a resposta é não. Ele ri, e o som ecoa pelo hall. — Mas foram só duas semanas. — Duas semanas são suficientes para destruir um fígado e três relacionamentos. — Relacionamentos? — ele faz uma careta. — Você acha mesmo que eu teria algo tão sério assim? — Espero que não. Ele pega a mala novamente. — Eu trouxe algumas coisas. Posso deixar no quarto de hóspedes? Meu corpo fica rígido por uma fração de segundo. Quarto de hóspedes. O mesmo quarto onde Isabella está escondida neste exato momento. Debaixo da cama. Fecho os olhos por um instante. Perfeito. Absolutamente perfeito. — Claro — respondo, mantendo a voz calma. — Vá em frente. Ele já começa a andar pelo corredor. Eu o sigo. Enquanto caminhamos, ele continua falando. — Você devia ter ido comigo. — Não tenho vinte anos. — Nem eu — ele responde. — Mas você com certeza se divertiria mais do que fica aqui trabalhando o tempo todo. Ele me olha de lado. — Ou você já tem alguma distração nova? Ignoro a pergunta. Abrimos a porta do quarto de hóspedes. Mathew entra primeiro. Eu fico parado na porta. Meu olhar automaticamente se move para a cama. A cama perfeitamente arrumada. Impecável. Como se ninguém tivesse estado ali. Mas eu sei. Eu sei que Isabella está ali. A poucos centímetros do chão. Provavelmente prendendo a respiração. Mathew empurra a mala para dentro. — Ótimo. Ele olha ao redor. — Ainda é o mesmo quarto. — Sim. — Posso usar o banheiro daqui? — O seu não funciona? Ele suspira. — O chuveiro quebrou antes de eu viajar. Esqueci de pedir para consertarem. Claro que esqueceu. — Então vou tomar banho aqui. Meu coração bate mais forte. — Claro — respondo novamente. Ele joga a mochila na cama. E nesse momento… Eu escuto. Um som. Quase imperceptível. Um pequeno movimento vindo debaixo da cama. Meu estômago aperta. Mathew não percebe. Graças a Deus. Ele continua falando enquanto abre a mala. — Você deveria ver Ibiza à noite — diz. — É ridículo. — Ridículo como? — Mulheres lindas em todo lugar. Ele pega uma camisa. — Música alta. — Bebida, mulheres lindas. — Parece que você se encaixou bem no ambiente. Ele ri. — Talvez. Ele me olha novamente. — Você nunca fez isso quando tinha minha idade? Cruzo os braços. — Fiz coisas piores. — Eu sabia. Ele ri novamente. — Então não pode me julgar. — Não estou julgando. Ele se aproxima da porta do banheiro. — Só estou observando. Ele para antes de entrar. — Aliás… conheci uma russa lá. Meu corpo fica rígido. — Ah? — Sim. Ele sorri de lado. — Você deveria ter ido pai, Ela era linda, loira de olhos azuis. Ele abre a porta do banheiro. — Do jeito que você gosta. Eu não respondo. A porta se fecha. E segundos depois… O som do chuveiro começa. Eu olho imediatamente para a cama. E caminho até ela. Devagar. Ajoelho no chão. E levanto levemente a colcha. Os olhos de Isabella me encaram no escuro. Assustados. Mas também… brilhando de algo que parece muito com diversão. — Você está viva — sussurro. Ela faz uma careta. — Eu quase morri de susto. — Ele quase entrou debaixo da cama. — Eu ouvi. Ela solta o ar lentamente. — Seu filho fala muito. — Herdou isso da mãe. — E de você. — Eu não falo tanto assim. Ela arqueia uma sobrancelha. — Sério? O som do chuveiro continua. — Fique aí — murmuro. — Por quanto tempo? — Até ele terminar. Ela suspira. — Isso é humilhante. — Eu sei. — Estou escondida como uma criminosa. — Você invadiu minha casa. — Você me trouxe aqui. Ela tem razão. Solto o ar. — Só… fique quieta. Ela me encara. — Você me deve uma. — Eu sei. — Uma grande. — Isabella… — Shhh. Ela aponta para o banheiro. Ficamos em silêncio. Os minutos passam. Finalmente o chuveiro desliga. Eu me levanto rapidamente. Mathew sai do banheiro com uma toalha nos ombros. — Melhor banho da minha vida. — Ótimo. Ele pega algumas roupas. — Vou dormir cedo hoje. — Jet lag. — Faz sentido. Ele pega a mochila. — Boa noite, pai. — Boa noite. Ele sai do quarto. E quando o som da porta do quarto dele se fecha no corredor… Eu solto o ar. Levanto a colcha. — Pode sair. Isabella rasteja para fora. O cabelo está bagunçado. E ela parece… irritada. — Isso foi horrível. Ela se levanta e estica as costas. — Meu Deus. — Você sobreviveu. — Por pouco. Ela olha para mim. — Seu filho é bonito. Eu solto uma risada curta. — Não comece. — O quê? — Nada. Ela caminha até a cama. — Vou dormir. Eu estou no meu quarto quando a porta se abre. Sem bater. Claro. Levanto os olhos do celular. E lá está ela. Isabella. Usando minha camiseta rasgada. Grande demais para ela. O tecido cai até o meio das coxas. O cabelo ainda úmido. O cheiro do shampoo chega até mim antes mesmo que ela diga uma palavra. Meu estômago aperta. — O que você está fazendo? — pergunto. Ela entra no quarto como se fosse dona do meu quarto. — Vou dormir aqui. — Não. — Sim. Ela sobe na cama. — Isabella. — O quarto de hóspedes tem memórias traumáticas agora. — Você ficou debaixo da cama por quinze minutos. — Foi o suficiente. Ela puxa o cobertor. — Boa noite. Eu fico parado. — Você está falando sério? Ela me encara. — Muito. — Isabella… — Seu filho está no corredor. — E? — Você quer discutir isso gritando? Eu cerro os dentes. — Isso é uma péssima ideia. — Provavelmente. Ela vira de lado. — Boa noite. Fico olhando para ela por um longo momento. Depois passo a mão pelo rosto. — Inacreditável. Apago a luz. E deito. Mantendo uma distância cuidadosa. O quarto fica em silêncio. Mas não demora muito para eu perceber algo. O cheiro. O shampoo dela. Doce. Suave. Misturado com o calor do corpo dela sob o cobertor. Eu fecho os olhos. Erro. Erro enorme. Porque agora tudo que consigo sentir… É ela. A poucos centímetros de mim. O movimento lento da respiração. O calor. A presença. Meu corpo inteiro fica tenso. Eu encaro o teto no escuro. Droga. Não há mais distância suficiente no mundo para resolver isso. — Mikhail? — ela murmura. — O quê? — Você está acordado. — Estou. Silêncio. — Seu filho parece legal. — Ele é. — Ele falou de mulheres por dez minutos. — Ele tem vinte e quatro anos. — Isso explica. Mais silêncio. — Isabella. — Hm? — Isso não pode continuar. Ela não responde imediatamente. Depois se vira lentamente. Eu sinto o movimento do colchão. E então o rosto dela está perto do meu. Muito perto. Mesmo no escuro eu consigo ver os olhos dela. — O quê exatamente? — ela pergunta. Minha garganta fica seca. — Isso. Ela segura meu olhar por alguns segundos. Depois sorri. Suave. Perigoso. — Então durma, Mikhail. Ela se vira novamente. E segundos depois… A respiração dela fica lenta. Regular. Ela dorme. Mas eu continuo acordado. Sentindo o cheiro do shampoo dela no travesseiro. Sentindo o calor dela ao meu lado. E percebendo uma coisa que já deveria ter admitido há muito tempo. Não importa o quanto eu tente. Não importa quantas regras eu crie. Ou quantas paredes eu levante. Não existe mais controle quando se trata de Isabella. Nenhum O silêncio da casa finalmente se instala. Mathew está no quarto dele. Isabella dorme ao meu lado. E eu continuo olhando para o teto no escuro. Não é exatamente raro eu ficar acordado assim. O sono sempre foi algo… instável na minha vida. Mas hoje não é trabalho que ocupa minha cabeça. É meu filho. E talvez o fato de que, sempre que ele aparece nessa casa, algo dentro de mim aperta de um jeito estranho. Eu o amo. Isso nunca foi uma dúvida. Nunca foi um sentimento confuso. Mas amor… nem sempre significa proximidade. Fecho os olhos por um momento, lembrando da expressão cansada dele quando entrou pela porta hoje mais cedo. A mala, o jeito relaxado, a risada fácil quando falou da viagem. Ibiza. Mulheres. Festas. Vinte e quatro anos. Eu tinha menos quando tudo começou. Muito menos. Solto um suspiro lento. Eu era praticamente um garoto quando Mathew nasceu. Vinte e dois anos. Um diploma recém-conquistado. Uma empresa que existia apenas como um projeto em uma pasta cheia de papéis. E uma esposa. Jovem. Bonita. Impulsiva. Nós achávamos que estávamos apaixonados. Talvez estivéssemos. Ou talvez só fôssemos dois jovens tentando provar para o mundo que sabíamos o que estávamos fazendo. Spoiler: nós não sabíamos. Mathew chegou rápido. Mais rápido do que qualquer plano que fizemos. Eu lembro do hospital. Lembro do peso dele nos meus braços pela primeira vez. Pequeno. Frágil. Silencioso. E lembro do medo. Não aquele medo momentâneo. Mas aquele medo profundo que se instala dentro do peito quando você percebe que alguém depende de você para absolutamente tudo. Eu olhei para aquele bebê e pensei: Agora você não pode falhar. E então fiz a única coisa que eu sabia fazer. Trabalhar. Trabalhar como um condenado. A empresa precisava crescer. Precisava sobreviver. Eu passava dias inteiros fora de casa. Reuniões. Viagens. Negociações. Noites sem dormir. Tudo para construir algo sólido. Algo que garantisse um futuro para ele. Para nós. Mas o problema com trabalhar para o futuro… É que às vezes você perde o presente. Mathew cresceu rápido. Rápido demais. Quando penso na infância dele, as lembranças vêm em fragmentos. Ele correndo pelo jardim. Ele sentado no chão da sala com brinquedos espalhados. Ele esperando na escada quando eu chegava tarde. — Pai! A voz pequena. Animada. E eu sempre cansado demais. Sempre dizendo a mesma coisa. — Agora não, Mathew. O papai está ocupado. Sempre depois. Sempre amanhã. Sempre quando houvesse mais tempo. O problema é que tempo não espera. E então veio aquela noite. Eu ainda consigo ver tudo com uma clareza irritante. No escuro, consigo ver Isabella dormindo ao meu lado. O cabelo espalhado no travesseiro. A respiração tranquila. Ela não sabe da minha história. Quase ninguém sabe. Mas pensar em Mathew hoje… Adulto. Independente. Falando de viagens e mulheres… Me faz perceber uma coisa. Talvez ele tenha aprendido a viver exatamente da forma que a mãe dele queria viver. Sem raízes. Sem compromissos. Livre.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD