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1036 Words
Isabella. Minhas mãos ainda estão tremendo. Eu tento escondê-las apertando o casaco de Mikhail contra o corpo, mas não adianta. O tremor continua passando pelos meus dedos, subindo pelos braços, como se meu corpo ainda não tivesse entendido que eu estou segura. Ou talvez eu não esteja. O carro finalmente para diante da casa dele. Uma casa grande, isolada, cercada por árvores altas que balançam lentamente com o vento da madrugada. As luzes da varanda estão acesas, iluminando o caminho de pedra até a porta. Normalmente eu acharia o lugar bonito. Agora parece apenas silencioso demais. Mikhail desliga o motor. Por um segundo, nenhum de nós se move. Então ele olha para mim. Os olhos dele percorrem meu rosto outra vez, avaliando cada detalhe. A mandíbula dele se contrai. — Você sabe que você poderia ter sido sequestrada? — pergunta. A voz dele é dura e vem com um lembrete de: “ eu te avisei”. Eu balanço a cabeça devagar. — Me desculpa, eu deveria ter te ouvido. Ele solta um suspiro baixo pelo nariz. — Eu tenho idade para ser seu pai. Eu nunca iria querer o seu m*l, eu só tentei protegê-la e deixar você em casa em segurança. O silêncio volta. Mas agora ele é pesado. Carregado de perguntas. Mikhail apoia o braço no volante e se inclina um pouco na minha direção. — Isabella. Eu olho para ele. — Você contou a alguém onde estaria hoje? A pergunta faz meu peito apertar. — Não. Ele não desvia o olhar. — Pense bem. Engulo em seco. Minha mente começa a girar. O restaurante. O jantar. A discussão no estacionamento. — Eu… — começo. Mas paro. Porque uma lembrança surge. Uma mensagem. Eu levanto os olhos lentamente para ele. — Eu falei com uma pessoa. Os olhos dele se estreitam. — Quem? — Minha amiga Sofia — digo rapidamente. — Mas foi só uma mensagem. Nada demais. — O que você disse exatamente? — Só que eu estava indo jantar com você. O silêncio explode dentro do carro. Mikhail passa a mão pelo rosto lentamente. — Isabella… Meu coração dispara. — O quê? — Você mandou mensagem quando? — Antes de sair de casa. Ele fica em silêncio por alguns segundos. Pensando. Analisando. Então pergunta: — Essa sua amiga… confia nela? — Claro que confio. Mas minha resposta sai um pouco rápida demais. Ele percebe. — Confia mesmo? Minha garganta fica seca. — Ela é minha amiga desde a faculdade. — Isso não responde minha pergunta. Eu desvio o olhar para o para-brisa. A verdade é que… eu nunca pensei nisso. Nunca precisei pensar. Até hoje. Mikhail abre a porta do carro. — Vamos entrar. Eu saio logo depois dele. Assim que meus pés tocam o chão, o frio da madrugada me atinge. O vento passa entre as árvores, fazendo as folhas sussurrarem ao redor da casa. De repente, tudo parece grande demais. Escuro demais. Perigoso demais. Meu coração acelera novamente. Mikhail abre a porta da casa e entra primeiro, verificando o interior rapidamente antes de me deixar passar. A casa está silenciosa. Quente. Segura. Mas meu corpo ainda não acredita nisso. Eu paro no meio da sala. Sem saber o que fazer. Sem saber para onde ir. Mikhail tira a arma do coldre e a coloca sobre a mesa próxima, mas não parece relaxar nem um pouco. Ele volta a olhar para mim. — Seu pai precisa saber disso. Meu estômago afunda. — Ele não está na cidade. — O quê? — Ele viajou hoje à tarde. Os olhos de Mikhail ficam mais escuros. — Para onde? — Chicago. Ele passa a mão pelo cabelo, claramente irritado. — Quando ele volta? — Amanhã… talvez. O silêncio volta. Mas agora existe outra sensação crescendo dentro de mim. Medo. Um medo infantil. Ridículo. Mas impossível de ignorar. Porque cada vez que fecho os olhos… Pense naqueles caras. Sinto aquelas mãos me agarrando. Ouço a risada deles. Minha respiração começa a ficar irregular. Mikhail percebe imediatamente. — Isabella? Eu levanto os olhos para ele. — Eu… — minha voz falha. Droga. Eu odeio parecer fraca. Mas o medo está apertando meu peito. — Eu não quero ficar sozinha. A frase sai antes que eu consiga parar. Ele franze a testa. — Você não vai ficar sozinha. — Meu pai não está em casa. — Eu posso mandar homens para a casa dele. Eu balanço a cabeça rapidamente. — Não. Minha voz sai mais urgente agora. — Eu não quero ir para lá. Ele me observa com atenção. — Então o que você quer? O silêncio dura alguns segundos. Meu coração bate forte. Porque eu sei exatamente o que quero pedir. E também sei que ele não vai gostar. Mesmo assim, eu digo. — Posso dormir aqui? Ele fica completamente imóvel. — Isabella… — Eu sei que parece estranho — digo rapidamente. — Mas eu realmente não quero ficar sozinha hoje. Minha voz baixa um pouco. — Depois do que aconteceu… O olhar dele suaviza por um segundo. Mas logo fica tenso outra vez. — Isso não é uma boa ideia. Meu peito aperta. — Por quê? Ele passa a mão pela nuca, claramente frustrado. — Porque seu pai confia em mim. — E você está me protegendo. — Não é só isso. Eu cruzo os braços. — Então qual é o problema? Ele me encara por um longo momento. Como se estivesse lutando contra algo dentro dele. Finalmente, ele suspira. Pesado. — Você pode ficar. O alívio atravessa meu corpo tão rápido que quase me deixa tonta. — Sério? — Mas só por esta noite. — Obrigada. Ele aponta para o corredor. — O quarto de hóspedes é o segundo à esquerda. Eu começo a andar, mas paro no meio do caminho. Porque uma pergunta ainda ecoa na minha cabeça. Eu me viro para ele. — Mikhail. Ele levanta os olhos. — O que foi? — Você acha que eles vão tentar de novo? A expressão dele fica completamente fria. Perigosa. Ele pega a arma da mesa novamente. — Se tentarem… Ele verifica o carregador com um clique metálico. — Eles não vão sair vivos da próxima vez. — levarei roupa limpa pra você.
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