Mikhail
A casa finalmente está em silêncio.
Mas minha cabeça não.
Ando de um lado para o outro na sala, a arma ainda pesada na minha mão, enquanto cada segundo da noite volta à minha mente como um filme maldito.
O estacionamento.
Os homens.
Isabella gritando.
Minha mandíbula se contrai.
Eu fecho os olhos por um instante, empurrando o pensamento para longe.
Não.
Ela está segura.
Está na minha casa.
No quarto de hóspedes.
Mas mesmo assim algo dentro de mim não relaxa.
Talvez seja o instinto.
Solto um suspiro pesado e passo a mão pelo rosto.
Preciso ter certeza de que ela está bem e levar roupa limpa pra ela.
Subo as escadas em silêncio, cada passo ecoando levemente no corredor escuro. A luz fraca do abajur no fim do corredor ilumina a porta do quarto de hóspedes.
A porta está entreaberta.
Franzo a testa.
Isabella deve ter esquecido de fechar.
Eu bato levemente.
— Isabella?
Nenhuma resposta.
Talvez ela tenha adormecido.
Empurro a porta um pouco mais.
— Eu só vim ver se…
E paro.
Ela está de costas para mim.
No meio do quarto.
Completamente nua e úmida.
Por um segundo, meu cérebro simplesmente trava.
A pele pálida dela é iluminada pela luz suave do abajur ao lado da cama. Os cabelos loiros caem soltos pelas costas enquanto ela termina de se enrolar em uma toalha de banho.
Eu desvio o olhar imediatamente.
— Merda.
Dou um passo para trás.
— Desculpa — digo rápido. — Eu devia ter batido.
Minha voz sai mais rouca do que deveria.
Atrás de mim, eu ouço o movimento rápido dela se virando.
— Mikhail?!
Eu ainda estou olhando para o corredor, tentando dar a ela privacidade.
— A porta estava aberta — digo. — Eu só queria ver se você estava bem e trazer uma roupa pra você.
Silêncio.
Por um segundo, acho que ela vai me mandar sair.
Mas então ela fala, a voz um pouco nervosa atrás de mim.
— Eu… estou bem.
Eu assinto, mesmo sabendo que ela não pode ver.
— Certo.
Minha mão já está na maçaneta para fechar a porta quando ela fala de novo.
— Espera.
Eu paro.
Mas continuo olhando para o corredor.
— Você… veio me trazer uma camisa sua? — ela pergunta, um pouco sem jeito. — Eu não tenho nada para vestir.
Eu entro no quarto e a entrego uma camisa minha.
— Aqui.
Ela pega a camisa da minha mão.
— Obrigada.
— Quer que eu saia?
— Não… só… — ela limpa a garganta — se vira um pouco.
Eu solto um pequeno suspiro e me viro completamente para o corredor, encarando a parede.
— Pode se trocar.
Atrás de mim, ouço o farfalhar do tecido e o som suave da camisa sendo vestida.
— Não olha — ela diz rapidamente.
— Eu não estou olhando.
Alguns segundos passam em silêncio.
— Pronto.
Eu espero mais um momento.
— Posso me virar?
— Pode.
Eu me viro devagar.
Eu deveria ir embora do quarto.
Essa seria a decisão certa.
Isabella está sentada na beira da cama usando uma camisa minha que claramente é grande demais para ela. O tecido cai frouxo pelos ombros, revelando a pele pálida do pescoço e parte da clavícula.
Meu olhar sobe imediatamente para o rosto dela.
Erro.
Porque aqueles olhos azuis me encaram de volta.
Silenciosos.
Pensativos.
— Você não vai dormir — ela diz.
Cruzo os braços.
— Eu disse que ia ficar acordado.
— Eu não quis dizer isso.
Franzo a testa.
— Então o quê?
Ela inclina um pouco a cabeça.
— Você está pensando demais.
Solto uma pequena risada sem humor.
— Faz parte do meu trabalho.
— Não… — ela murmura. — Você está pensando em mim.
Meu maxilar trava.
— Isabella.
— Eu vi como você ficou naquele banheiro — ela continua, a voz baixa. — E agora também.
Ela se levanta da cama.
Um passo.
Dois.
Para muito perto de mim.
Perto demais.
— Você está tentando agir como se nada estivesse acontecendo — ela diz suavemente.
Eu consigo sentir o calor do corpo dela agora.
O perfume leve.
Meu corpo inteiro fica tenso.
— Nada está acontecendo.
— Mentira.
Ela levanta o rosto um pouco para me encarar.
— Você está com medo.
Eu solto uma respiração lenta.
— Eu não tenho medo de muita coisa.
— Tem sim.
Os olhos dela não se desviam dos meus.
— De mim.
Uma corrente de tensão percorre meu peito.
— Você é filha do Romero.
— Eu sei.
— Ele é meu melhor amigo.
— Eu também sei.
— Eu tenho idade suficiente para ser seu pai.
Ela dá de ombros.
— E mesmo assim você continua olhando para mim daquele jeito.
O silêncio entre nós fica pesado.
Perigoso.
Meu autocontrole está por um fio.
— Isabella… — minha voz sai baixa — você deveria voltar para a cama.
Ela não se move.
— Por quê?
— Porque isso não é uma boa ideia.
— Talvez eu não queira boas ideias hoje.
A frase paira no ar entre nós.
Minha mão sobe automaticamente, passando pelo rosto como se eu pudesse recuperar algum tipo de controle.
Mas quando volto a olhar para ela…
Ela está ainda mais perto.
Eu sinto o coração dela batendo.
Ou talvez seja o meu.
— Você me salvou hoje — ela murmura.
— Eu faria isso de novo.
— Eu sei.
Os olhos dela descem brevemente para minha boca.
E isso é o suficiente para quebrar o último pedaço de resistência dentro de mim.
— Isabella…
Mas ela já está perto demais.
E quando ela inclina o rosto para cima…
Eu perco a guerra dentro da minha cabeça.
Minha mão sobe até o rosto dela quase por instinto.
Segurando levemente a mandíbula dela.
E então eu a beijo.
No começo é um beijo duro.
Controlado.
Como se eu ainda estivesse tentando provar para mim mesmo que posso parar quando quiser.
Mas quando ela segura minha camisa…
Quando seus dedos se fecham no tecido como se ela estivesse se segurando em mim…
O beijo muda.
Fica mais profundo.
Mais quente.
Toda a tensão da noite explode naquele momento.
Quando finalmente me afasto, minha respiração está pesada.
A dela também.
Nós ficamos parados ali por um segundo.
Muito perto.
Perto demais.
Eu encosto a testa na dela e fecho os olhos.
— Isso… — digo com a voz rouca — é uma péssima ideia.
Ela solta uma pequena respiração.
— Eu sei.
Mas ela não se afasta.
E isso é exatamente o problema.