O silêncio que se formou era denso. Lucas estava ofegante, o rosto vermelho de frustração. Eu o observei, buscando qualquer sinal de que aquela raiva fosse apenas um surto passageiro, mas só vi um abismo crescendo entre nós. As palavras dele eram lâminas, mas o pior era que continham uma verdade que eu me recusava a admitir para mim mesmo.
— Se tu tá tão descontente assim, por que continua, Lucas? Se é tão r**m, se é tão humilhante, por que você não pega o seu e vai embora?
Lucas parou, me encarando fixamente. O ódio em seus olhos foi substituído por uma mágoa profunda, quase infantil.
— Porque eu ainda sou um Navarro, p***a. Porque isso aqui é tudo que a gente tem. E porque, apesar de você ser esse monstro egocêntrico que esqueceu quem te ajudou a subir, eu ainda te amo. Mas esse amor tá morrendo, Benjamin. Tá morrendo cada vez que você me diminui na frente dos seus comandados. Cada vez que você me trata como um subordinado e não como um igual. Se você continuar me empurrando pra sombra, não se surpreenda se um dia você olhar pro lado e não encontrar nada. Você acha que eu não vejo o jeito que os caras me olham? Eles sabem que você não me respeita, e isso faz com que eles também não me respeitem. Você tá minando a minha autoridade, e quando eu precisar dessa autoridade pra salvar a sua pele, ela não vai estar lá. Você tá destruindo a única coisa que te mantém no trono: a lealdade da sua própria família.
Antes que eu pudesse responder, aquela voz cristalina ecoou pela escadaria:
— PAPAI!
Miguel surgiu como um raio, correndo com aquela energia inesgotável, seguido por um Jorge ofegante. O clima mudou instantaneamente. Lucas engoliu a raiva, deu um passo para trás e endireitou a postura, mas o brilho em seus olhos denunciava que a conversa não estava encerrada. O ódio dele não era apenas por ser o "segundo"; era uma ferida aberta pela minha própria negligência como irmão e líder.
— PAPAI! — O menino se jogou nos meus braços, me envolvendo com um abraço que parecia absorver toda a tensão acumulada na Fortaleza.
— E aí, fera? — Tentei soar natural, mas meu coração ainda estava acelerado pelo embate com Lucas. Eu sentia como se um vulcão estivesse prestes a entrar em erupção dentro de casa.
Lucas me olhou uma última vez, o desprezo agora misturado com um ciúme sombrio. Ele não disse mais nada, apenas virou as costas e desceu os degraus com passos pesados. O som das botas dele no concreto parecia marcar o ritmo de um fim que eu não conseguia mais evitar.
Jorge, observando tudo, encostou no corrimão, suspirando fundo.
— Esse garoto vai te deixar maluco, Benjamin. Ele é a única coisa que te dá paz, né?
— Já deixou, Jorge. Há muito tempo. Esse bagunceiro e a única coisa que importa.
Ficamos ali enquanto Miguel brincava, mas o peso das palavras de Lucas ainda pairava no ar como uma névoa. Jorge, cauteloso e observador como sempre, se aproximou.
— O que foi, Jorge? Tá com cara de quem viu fantasma.
— Sei lá, chefe. Você não acha o Lucas... estranho ultimamente? Ele tá com uma aura de quem tá sempre com raiva de alguma coisa, ou de alguém. Às vezes, quando ele acha que ninguém tá vendo, ele encara as costas da galera com um ódio gratuito. Eu vi ele hoje mais cedo, lá no pátio, conversando com uns caras que eu nem conheço bem. O papo tava fechado, estranho. Não era papo de comando.
Olhei para Miguel, depois para Jorge. A negação era minha única defesa.
— Tu tá viajando, Jorge. São fases. Ele tá sob pressão. O setor norte não é brincadeira e ele tem um temperamento explosivo.
— Pode ser — Jorge insistiu, firme. — Mas eu só tô falando o que eu vejo. A lealdade dele tá falhando, Benjamin. Abre o olho. Quem muito quer, acaba esquecendo quem deu a mão primeiro. O Lucas é sangue do seu sangue, mas o sangue também mancha o chão. Não deixa a sua cegueira de irmão destruir o que a gente levou uma vida inteira pra construir. O morro tem ouvidos e línguas soltas, e o que eles andam falando do Lucas... eu nem quero te contar agora, pra não te deixar mais doido do que já tá.
O sol banhava o Complexo em uma luz enganosa. "Lucas pode reclamar", pensei, tentando desesperadamente convencer a mim mesmo. "Ele pode ser difícil. Mas ele jamais faria algo contra mim. A lealdade dele é o meu alicerce."
Eu estava tão convencido disso, tão cego pela confiança, que ignorei o vento que trazia o cheiro de tempestade. As piores traições vêm de quem senta à nossa mesa. E a sombra de Lucas estava começando a se mover por conta própria. O dia apenas começava, mas o meu reino, pela primeira vez, parecia um castelo de cartas pronto para desabar. Eu precisava decidir se continuaria sendo o Rei que ignorava o próprio irmão ou se enfrentaria a escuridão que eu mesmo ajudei a criar. A paz era uma ilusão, e a tempestade, agora, era inevitável. A sombra já não estava apenas do meu lado; ela estava tentando me engolir.
Eu recordava do dia em que assumi o comando, o dia em que o "Velho" tombou. O cheiro de pólvora e o desespero nos olhos dos comparsas. A transição não foi suave, foi um banho de sangue. Eu tive que segurar as pontas. Eu prometi a mim mesmo que o protegeria, que ele nunca teria que sujar as mãos como eu sujei. Mas, na tentativa de protegê-lo, eu o escondi do poder, e foi essa mesma ocultação que alimentou o ressentimento dele. Eu o deixei à margem da verdadeira tomada de decisões, achando que estava dando a ele uma vida melhor. Que erro fatal.
O passado ainda ecoava em cada beco. A luta pelo Complexo Nova Esperança não foi apenas contra rivais de fora, mas uma batalha fratricida pela alma do morro. E agora, vendo Lucas subir as escadas com aquela raiva contida, percebi que o maior inimigo nunca foi quem estava lá embaixo, mas a sombra que eu mesmo criei dentro de casa. Eu era o Rei, sim, mas um Rei que construiu seu trono sobre uma rachadura que só aumentava. E o estrondo que viria seria insuportável. Se o sangue que corre nas minhas veias for o mesmo que se voltar contra mim, então a queda será monumental, e não haverá Fortaleza no mundo capaz de me proteger do ódio de um irmão que se sentiu esquecido.