Capitulo 2

690 Words
Passei a mão pela barba, sentindo a veia da têmpora pulsar. A audácia dele estava atingindo um nível perigoso, mas a verdade é que, no fundo, eu sabia que ele estava carregando uma carga que, sozinha, estava começando a quebrar suas costas. — Tu sabe qual é a tua função, Lucas. Ninguém aqui faz o que tu faz. Ninguém tem a minha confiança como você tem. — Confiança? — Ele cuspiu a palavra no chão. — Se fosse confiança, você me deixaria tomar decisões sem ter que te consultar a cada vírgula. Eu fechei aquele negócio com os caras do asfalto, lembra? O lucro triplicou, as armas novas chegaram antes do prazo. E qual foi o agradecimento? "Boa, Lucas, mas da próxima vez espera eu validar". Validar o quê? Você não pisa lá há semanas! Você tá trancado aqui nessa fortaleza, vivendo como um monge do crime, enquanto eu tô lá no meio da guerra, levando desaforo de olheiro, resolvendo B.O. de morador, mantendo essa p***a de paz podre que você tanto preza. Eu tô exausto, Benjamin. Eu não quero mais ser o seu "escudo". Eu quero ser o homem que lidera, porque eu sei que eu posso. Eu tenho a visão que você perdeu aqui no topo. O morro mudou, as pessoas mudaram, e você tá estagnado no mesmo jeito de governar de cinco anos atrás. — Estagnado? — Ri com desdém, dando um passo em direção a ele. — Tu acha que eu cheguei aqui por sorte, Lucas? Tu acha que o trono foi herdado de mão beijada? Tu nem tava lá quando o velho morreu. Tu tava lá fora, achando que o mundo era maior que o morro. Eu tava aqui, com o sangue dele nas mãos, enterrando o legado que quase se perdeu na ganância dos traidores. Quando o Velho caiu, o Complexo ia virar pasto para os rivais. Eu peguei os cacos, Lucas. Eu tive que varrer a sujeira, purgar o morro de quem não prestava e, pior, assumir a bronca de quem achava que a minha idade me tornava fraco. Eu ganhei essa p***a na bala e no suor, quando o seu único problema era saber que rua você ia frequentar. Eu não herdei um trono, eu herdei uma guerra contínua que eu jurei vencer todo santo dia. Lucas me encarou, o ódio oscilando. — É, você herdou. Mas herdou porque eu deixei, Benjamin! Porque eu era novo demais, porque eu não tinha a tua frieza! Eu vi você assumir o lugar do velho, vi você matar quem ousou questionar, vi você se tornar esse deus de concreto. Mas eu não sou mais aquele moleque. Eu ajudei a cimentar cada tijolo desse império. Eu não recebi o trono de presente; eu suei sangue pra manter o teu trono firme enquanto você se sentava confortavelmente no topo. E agora, você me cobra lealdade enquanto me trata como um subordinado qualquer? Eu sou o sangue desse morro tanto quanto você! — O sangue é o mesmo, mas a coroa é uma só, Lucas. E o peso dela não é pra qualquer um. Ele respirou fundo, parecendo que ia explodir a qualquer momento. — E quer saber o que mais? Eu vejo como você me olha. Você me olha como se eu fosse um traidor em potencial só porque eu tenho opinião própria. Cada vez que eu discordo, você fecha a cara e coloca a mão na arma, como se a nossa relação fosse só uma questão de quem puxa o gatilho primeiro. Você tá paranoia pura! Eu sou o cara que dormiu na mesma esteira que você quando a gente não tinha nem o que comer, e agora você me trata como uma ameaça? Isso dói, irmão. Isso corrói a alma. Eu tô cansado de lutar uma guerra onde, no final do dia, o meu próprio comandante não confia em mim. Você quer que eu seja o quê? Um robô? Um boneco sem vontade? Se é isso, pode me tirar da jogada. Mas não reclama quando a estrutura que eu seguro começar a ruir, porque você não aguenta o tranco lá embaixo sozinho como eu aguento.
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