Capítulo 3 - Cecília Monteiro

855 Words
O que foi que eu acabei de fazer? Saí do quarto dele com as pernas bambas, o coração em disparada e uma pergunta martelando dentro da minha cabeça: Cecília, você enlouqueceu? Aceitei o convite de um homem que m*l conheço. Um homem com uma aura intensa, dominadora... perigosa.
E mesmo assim, aceitei. Não foi medo o que senti quando o vi. Foi curiosidade.
Era como se aquele olhar dele, sombrio e certeiro, enxergasse até o que eu mesma escondia de mim. Ele era lindo. Alto, com uma presença que ocupava todo o ambiente. A voz grave, o olhar escuro... E havia algo nele — algo no jeito como me observou, como falou — que me puxava para perto. 
Um ímã de mistério e perigo. Hoje é minha última noite no hotel. Amanhã, eu volto para a rotina, para os livros, para a correria da universidade e o aluguel atrasado.
Então, por que não? “É só um jantar, Cecília. Nada demais.” — eu repetia para mim mesma. Quando o turno terminou, fui com Zoe para o refeitório dos funcionários. Pegamos nossos pratos e nos sentamos como sempre, dividindo comida, risadas e reclamações sobre hóspedes barulhentos. Foi então que soltei, como quem não quer nada: — Acho que vou sair hoje à noite. Zoe me olhou com a boca cheia, quase engasgando com o suco. — Sair? Com quem? — Com um hóspede… o da suíte presidencial. Aquele que chegou no domingo. Dante. Ela largou o garfo com um baque. — Dante? — repetiu, arregalando os olhos. — Dante Morelli?! — É… ele se apresentou assim. Por quê? Zoe quase gritou. — CE-CÍ-LI-A! Você tá me dizendo que o homem que te convidou pra jantar é o Dante Morelli? — Eu não sei quem ele é. Só sei que é... muito bonito. — "Muito bonito?" — ela me imitou, escandalizada. — Amiga, você conheceu o homem mais perigoso e desejado da Itália! O Don da máfia italiana! O comandante da Camorra! O homem que manda nesta costa inteira com um estalar de dedos! Eu pisquei, confusa. — Espera. Você tá dizendo que aquele homem é da máfia? — Não da máfia qualquer, querida. Ele é o chefe da máfia! O nome dele é tipo lenda. Rico, poderoso, assassino, frio... c***l. E um verdadeiro deus grego! Arregalei os olhos. A imagem que eu tinha dele não combinava com "assassino". Tudo bem que havia uma arma no quarto, mas... ele parecia tão calmo. Quase gentil. — Ele não me pareceu c***l — murmurei. Zoe me encarou, chocada. — Claro que não! Ele usa o charme como arma! É assim que ele domina tudo — com aquele olhar fatal, aquele cabelo penteado de propósito e aquela voz... ai, aquela voz... — Zoe! — interrompi, rindo. — Para de babar! — Me deixa! Eu tô emocionada! — Ela se abanava com o guardanapo. — Você não tá entendendo. Você não só conheceu o Dante Morelli. Você vai jantar com ele. — Só um jantar. Só isso. — Cruzei os braços, tentando parecer firme. — Só um jantar? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Amiga... você é virgem. Gelei. — E daí? — E daí? — ela repetiu. — E SE ele te convidar pro quarto e depois? — Ele só convidou pro jantar. Não pro sexo. — Digo. Zoe bufou. — Cecília... você é tão inocente que às vezes eu duvido que somos amigas. O homem te convidar pra jantar já é o aviso. Não é jantar… é preliminar. Ele vai querer muito mais. — Zoe! — Olha só — ela se inclinou, baixando o tom como se estivesse me contando um segredo precioso —, se é pra perder a virgindade, que seja com o Dante Morelli! Não é todo dia que você pode dizer que foi deflorada pelo homem mais cobiçado da Itália. Você tem noção do currículo desse homem? Se existe uma chance de fazer história, é essa. — Você é completamente louca. — E você é completamente cega! — Ela riu. — Mas é por isso que nos damos tão bem. Ela segurou minha mão, com aquele sorriso traquina de sempre. — Agora levanta. Vamos pro quarto. Você vai estar deslumbrante hoje. O Dante nem vai te reconhecer. Vai te ver e cair de joelhos. — Zoe… — Shhh… Não discute. Hoje você vai brilhar. E eu vou te ajudar a ficar mais gata do que nunca. No quarto, Zoe virou uma verdadeira estilista de emergência. Revirou malas, achou um vestido que nunca usei — justo, mas elegante —, passou maquiagem em mim com mãos experientes, e ainda fez um penteado improvisado com os grampos que viviam perdidos no fundo da bolsa. Quando olhei no espelho, quase não me reconheci. — Uau… — sussurrei. Zoe me abraçou por trás, sorrindo. — Cecília Monteiro… essa noite, você vai parar o coração do Don da máfia. Eu ri nervosa, o estômago já cheio de borboletas. Mas dentro de mim… havia algo mais. Uma faísca. Uma sensação de que aquela noite não seria apenas um jantar. 
Seria o começo de algo que eu ainda não sabia nomear.
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