CAPÍTULO 8

1572 Words
ANANDA GURGEL O mar sempre foi meu melhor amigo, quando eu estava triste e solitária era para as águas agitadas que eu corria. Sendo filha de pescador, aprendi a nadar desde muito nova. Quando pequena matava aula só para fugir pra praia e treinar meu nado, havia uma esperança infantil dentro de mim que se eu passasse muito tempo na água criaria calda de sereia. Era bobo, mas eu amava vir até aqui e olhar para o mar. Dei tanto perdido em mamãe por conta dessa minha ilusão secreta que sua única saída era me castigar, me deixava trancada no quarto e só saía para fazer refeições em família e necessidades fisiológicas, o castigo sempre acontecia no fim de semana, porque assim eu não perderia as aulas. Eu chorava, esperneava e fazia drama até sua paciência ceder, mas não tinha tanta sorte quando era papai o meu algoz, ele nunca caia nas minhas encenações ou retrocedia com sua palavra, mesmo eu sendo sua preferida me fazia cumprir todo o castigo. Fecho os olhos e sinto a brisa marítima, o vento forte traz o cheiro da água salgada e relaxo ao sentir as ondas baterem contra minhas coxas nuas. Prendo a respiração e me deixo levar pelo meu antigo eu, acredito que sou um ser marinho e mergulho na água por longos minutos. — Ei, sereia. Será que tem como fazer uma cara sexy e olhar para cá. — Darlene grita da areia, assim que volto a superfície. Reviro os olhos, contrariada, lembrando que não estou sozinha na praia e sim em uma sessão de fotos comandada pela minha melhor amiga/ sócia. Odeio fotos. — Da próxima vez, você será a modelo! — Respondo com o tom elevado para que escute. Ela me dá um sinal de legal com o dedo polegar da mão direita e volta a focar no aparelho celular. — Faça carão. — Ela grita. Bufo. Eu não nasci pra ser modelo, sou empresária. — Não sei ser modelo, Darlene. — Apelo para seu lado racional, tentando convencê-la que sou uma péssima escolha. — Você está ótima, a câmera te ama. Olhe para o nada e finja que está em um grande momento reflexivo. — Bufo para seu conselho. Como se finge está pensando em algo profundo sem estar? — Fique no meu lugar, é óbvio que sabe o que fazer melhor do que eu. — Resmungo, alto o suficiente para que escute. — Não posso, lavei meu cabelo noite passada e sabe o quanto é difícil domar esses cachos. Não estou podendo lidar com totó esse sal, mas prometo ser a nossa garota propaganda na próxima. — Ah, você será. Pode apostar nisso, bonitinha. — Maravilhosa! — Ela grita quando incorporo a top model que há em mim e sigo seus conselhos de poses. Batemos diversas fotos, dando uma pause para que eu trocasse o modelo de biquínis e maiôs. Perdemos quase a manhã toda nas fotografias e se Deus quiser poderemos usar todas para nossa rede social, nós voltamos para a lojinha depois e almoçamos por lá mesmo. — Gostei dessa. — Darlãn fala, erguendo a tela do celular rente ao meus olhos , onde mostra uma foto minha sentada na ponte dos corações partidos, vestindo um dos biquínis. — É, ficou legal. Principalmente porque não tem como visualizar meu rosto. — Ele estala a língua e balança a cabeça em negativa. — Eu faria uma exposição com essas fotos, acho a modelo uma tremenda gata e esses biquínis serão um sucesso de venda. — Paro a colher de arroz no meio do caminho, sem reação com seu flerte claro e direto. Darlene já insinuara haver um interesse dele em mim, mas achei que era balela dela. Ele me conhece desde sempre. Que diabos. O que mudou? — Não precisa me olhar assim, minha Deuza do mar. Foi só um elogio sincero. — Garoto, tu não tem entrega pra fazer, não? — Sua irmã gêmea entra na cena, me salvando de um momento estranho. Ele dizia que eu era magrela e catarrenta na infância, porque diabos ele está me elogiando? — Você conhece a palavra descanso, maninha? Estou no meu horário de almoço e as entregas só começam a partir das 14:00 da tarde. — Hum... Sou sua chefe, você sabe que posso acabar com essa sua folga, né? — Eu também sou sócio. — Ele revida. — Minoritário. Eles parecem crianças. — Ainda assim, não venha cantar de g**o pra cima de mim. — Dona galinha pra você, queridinha. — Parem, santo Cristo. Como a mãe de vocês sobreviveu todos esses anos? — Calmantes. — Minha amiga fala, tomando um grande gole do seu suco de maracujá. — Eu sou um anjo. — Darlãn pisca pra mim, revelando os dentes brancos e alinhados em um sorriso malandro, cheio de palavras não ditas. Os pelos dos meus dois braços se arrepiam e sinto uma pontada na nuca ao constatar a beleza do homem. Muita beleza. Tipo, muitíssimo mesmo. A pele possui mais melanina que a minha, mas é idêntica ao da irmã. Seu jeito maroto o faz parecer mais jovem do que é, no entanto, os olhos escuros são expressivos e possuem uma malícia explícita. O corpo alto é composto por músculos, e apesar de sua barriga está coberta por uma camisa de algodão azul, sei que existem cominhos ali. — Não caia nessa, amiga. — Darlene me puxa dos pensamentos, me cutucando no braço com seu garfo de metal. Balanço a cabeça, constrangida por ter sigo pega em flagrante pelos dois. — Só vem, Alana. — Ele diz, sorrindo de orelha a orelha, ignorando completamente a irmã ao nosso lado. Limpo a garganta e tento não demonstrar que fiquei afetada. — Eu não tenho interesse em romances rápidos, meu foco é ficar rica e sair dessa ilha. — Te ofereço casa, cama e roupa lavada. Pode usar meu tanquinho se quiser. — Insinua e meus olhos descem para sua barriga, arqueio a sobrancelha com a sua resposta, quase pedindo para dar uma olhada no produto antes de comprar. — Passo. — Falo, me levantando da mesa improvisada nos fundos da nossa lojinha e jogando as sobras da comida no lixo. — Você que sabe, linda. Preciso ir nessa, estou levando as encomendas já feitas, se tiver mais, me mandem uma mensagem. — Ele beija o rosto da irmã e depois o meu, aproveitando para sussurrar um linda no pé do meu ouvido. Eu rio porque sua respiração acaba provocando cócegas na minha pele do pescoço. Depois que ele se vai, Darlene se aproxima, cantarolando uma canção qualquer. — O que foi? — Nada. — Eu te conheço, sócia. Pode ir falando. — Nada para declarar aqui, sócia. — Diz, pegando as últimas caixas fechadas e rasgando a fita adesiva com as unhas. Nossa. — Não vou ter nada com seu irmão, Lene. Ela suspira, abandona as embalagens com as peças da nossa nova coleção que tirou da caixa no chão e me olha. — Não estou preocupada com isso, Ananda. Você e meu irmão são grandinhos e se quiserem ficar de rala e rola por mim não tem problema, o que me preocupa é que acabei de perceber algo. — O quê? — Indago, curiosa. Ela suspira, meio inquieta. Mordendo os lábios cheios repetidas vezes. — Não existiu ninguém na sua vida desde o... Bom, ninguém além do ex da Glória Maria. O ex da Glória Maria é de fato ninguém. — O que quer dizer? — Quanto tempo faz que você não beija na boca, criatura? — Sou pega de surpresa com a pergunta. Eu beijo na boca. Muito. Só tô dando um intervalo. — Não tenho tempo pra isso, amiga. Minha mãe está tendo dificuldade para superar a morte de Nataniel, a loja está no começo e... — Você está enrolando. — Me interrompe. — Não estou, não. — Está. — Que seja, não estou entendendo onde quer chegar. Estou bem do jeito que estou, macho só traz preocupação e estresse. Não tô afim de perder minha paz. — Hum... — Não venha com essa cara, você sabe da minha situação. — Existem estudos que comprovam a eficácia do seco contra o estresse, sabia? Uma boa dose de bota bota te ajudaria muito. — Fala sem rodeios. Às vezes me esqueço da sua falta de filtro. — Dispenso. — É porque você ainda não provou, amiga. Depois que sentar não vai querer outra vida. — E com quem você sugere que eu perca minha virgindade nessa ilha? Todo mundo se conhece, criatura. — É mentira, eu mesma conheço um diferente toda semana. Santo Cristo. — Não vou perder o lacre por perder, não estou falando de romantismo e blá blá blá... Só precisa ser com alguém legal, confiável. — Eu falaria sobre meu irmão, mas talvez exista outro candidato na jogada. — Sugere e franzo o cenho. Outro jogador? — Do que você está falando? — Pedro gostoso Cavallari estava hoje na praia, acompanhou sua sessão do início ao fim, mesmo tentando se esconder das suas vistas eu o peguei no flagra. O outro bonitão estava com ele, só não fui dizer um oi porque estava concentrada no nosso sucesso. Meu estômago embrulha com a menção do nome dele, faz uma semana desde a nossa discussão em minha cozinha. Eu achei que tivesse deixado claro o suficiente para ele naquela noite. O que ele quer?
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