álvaro

1035 Words
O ónibus parou diante de uma pequena rodoviária no início da manhã. Dante desceu carregando apenas a velha mala e o envelope deixado por sua mãe. O endereço o levou por uma estrada cercada de árvores centenárias. Depois de quase meia hora caminhando, ele avistou finalmente os enormes portões de ferro. Nunca tinha visto uma propriedade daquele tamanho. Respirou fundo antes de tocar a campainha. Alguns instantes depois, um homem de aproximadamente sessenta anos apareceu do outro lado do portão. Vestia um terno escuro e mantinha a postura impecável. — Bom dia. Posso ajudá-lo? Dante assentiu. — Estou a procurar o senhor Álvaro Montenegro. O homem observou o rapaz dos pés à cabeça. — Quem deseja? — Meu nome é Dante. — O senhor Álvaro não costuma receber visitas sem aviso. — Eu sei. — Então o que o traz até aqui? Dante colocou a mão no bolso e retirou o envelope. — Minha mãe pediu que eu viesse. O administrador permaneceu sério. — E quem é sua mãe? — Rosalha. O homem franziu a testa. O nome parecia-lhe distante, quase esquecido pelo tempo. — Desculpe, rapaz... acho que houve algum engano. Dante abaixou os olhos por um instante. Então abriu o envelope. Retirou a fotografia cuidadosamente. — Talvez isto ajude. O administrador pegou a fotografia. Assim que os seus olhos pousaram sobre a imagem, o seu corpo enrijeceu. Virou lentamente a foto. Leu as palavras escritas no verso. "Seu pai." O seu coração acelerou. Voltou a olhar para Dante. Depois para a fotografia. Outra vez para Dante. Os mesmos olhos. O mesmo formato do rosto. A mesma expressão do patrão quando era jovem. A sua voz falhou. — Meu Deus... Dante permaneceu em silêncio. — Você... você é... — Sou o filho dele. O administrador levou a mão à boca. Durante anos ouvira o patrão repetir aqueles mesmos nomes. Rosalha. Dante. Os dois fantasmas que ele jamais conseguiu encontrar. Os olhos do velho encheram-se de lágrimas. — Espere aqui... não... Ele respirou fundo. — Venha comigo. Os enormes portões abriram-se lentamente. Enquanto caminhavam pela longa estrada de pedras, Dante observava tudo ao redor. Jardins impecáveis. Fontes. Cavalos de raça. Funcionários trabalhando em silêncio. Parecia outro mundo. Ao entrarem na mansão, o administrador pediu que aguardasse por alguns instantes. Subiu rapidamente as escadas. Parou diante da porta do quarto. Bateu duas vezes. — Entre. A voz do patrão estava fraca. Muito diferente da voz firme que um dia comandara aquela propriedade. O administrador entrou. — Senhor... há um rapaz lá embaixo. Álvaro fechou lentamente o livro que tentava ler. — Não quero receber ninguém. — Acho que o senhor vai querer recebê-lo. — Augusto... já disse que não. O administrador aproximou-se da cama. Sem dizer uma palavra, entregou-lhe a fotografia. Álvaro levou alguns segundos para entender. Então os seus olhos se arregalaram. As mãos começaram a tremer. Virou a fotografia. Leu as duas palavras escritas no verso. "Seu pai." Por um instante, pareceu voltar vinte anos no tempo. — Onde... onde conseguiu isso? — Foi o rapaz quem trouxe. A voz de Álvaro falhou. — Qual é o nome dele? — Dante. O quarto mergulhou em silêncio. Uma lágrima escorreu lentamente pelo rosto do velho. — Não... Outra lágrima caiu. — Não pode ser... Ele tentou levantar da cama. O corpo não respondeu. — Traga-o até mim. Augusto desceu as escadas quase correndo. Encontrou Dante exatamente onde o havia deixado. — Ele quer vê-lo. Dante respirou fundo. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Quando entrou no quarto, encontrou um homem completamente diferente daquele da fotografia. A doença havia levado quase toda a sua força. Mas os olhos... Os olhos eram os mesmos. Álvaro permaneceu encarando o rapaz durante vários segundos. Como se tivesse medo de que aquilo fosse apenas mais um sonho. — Qual ..., qual é o nome da sua mãe? — Rosalha. A voz do velho embargou. — Ela... ela está viva? Dante assentiu. Álvaro começou a chorar. Sem qualquer vergonha. Como uma criança. — Eu procurei vocês... Sua voz tremia. — Durante anos. Contratei investigadores. Viajei por cidades que nunca imaginei conhecer. Ofereci recompensas. Procurei em hospitais. Em igrejas. Em cartórios. Nunca deixei de procurar. Mas vocês desapareceram. Dante permaneceu calado. Álvaro levantou lentamente a mão. — Posso... Posso tocar em você? Após alguns segundos de silêncio, Dante deu um passo à frente. O velho segurou a sua mão com delicadeza. Como se tivesse medo de que o filho desaparecesse novamente. — Você é igual ao menino da fotografia... Dante respirou fundo. — Minha mãe disse que o senhor batia nela. Álvaro fechou os olhos. A dor daquela pergunta parecia maior que a doença. — Bati. Mais vezes do que consigo lembrar. E não existe um único dia em que eu não me arrependa disso. Rosália fez a única coisa que uma mãe podia fazer. Protegeu você de mim. Ela estava certa. Se pudesse voltar no tempo... Preferiria perder toda esta fortuna a levantar a mão contra ela uma única vez. O velho apontou para uma pasta sobre a mesa. — Tudo o que construí está ali. O meu testamento já foi registrado. Metade pertence à Rosália. A outra metade é sua. Também deixei recursos suficientes para que você estude nas melhores escolas. Quero que tenha todas as oportunidades que destruí quando deixei a violência dominar a minha vida. Não posso apagar o passado... Mas talvez consiga mudar o futuro. Dante olhou para o homem à sua frente. - A sua mãe, ela não veio com você? - não. - Podemos mandar buscá-la? Quero-me desculpar, sei que o que fiz e imperdoável! Mais quem sabe eu possa amenizar tudo o que causei a ela. - Não sei se ela gostaria disso, para ser sincero, nem sei porque eu vim até aqui. Os olhos do homem se encheram de lágrimas. — Não diga isso. Eu sei que falhei com vocês. Sei que fui um péssimo marido... e um pai ausente. Não posso mudar o passado, mas, se você permitir, deixe-me cuidar de vocês nos meus últimos dias. Dante permaneceu em silêncio. — Não estou pedindo perdão porque mereço. Estou pedindo porque não quero morrer sem tentar reparar o m*l que fiz.
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