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Entre Promessas e Silêncios

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Blurb

Na pequena cidade de Santa Serena, onde o vento parecia carregar segredos antigos e o pôr do sol tingia o céu com tons de despedida, duas almas estavam destinadas a se encontrar,mesmo que o destino insistisse em separá-las.Isadora Monteiro sempre acreditou que o amor era um luxo para quem não tinha cicatrizes. Filha de uma mulher forte e marcada por um passado de abandono, cresceu aprendendo que depender de alguém era o primeiro passo para se perder. Tornou-se advogada, construiu muralhas ao redor do próprio coração e fez da razão sua maior aliada.Do outro lado da cidade, Gabriel Alcântara retornava após anos longe. Médico respeitado, trazia no olhar a serenidade de quem salva vidas, e a culpa de quem não conseguiu salvar a própria história. Ele partiu sem se despedir. Ela nunca perdoou.O reencontro acontece no momento mais inesperado: uma audiência delicada que envolve a família de ambos, trazendo à tona feridas antigas, cartas nunca enviadas e uma promessa quebrada sob a chuva de um adeus mal explicado.Entre olhares que dizem mais do que palavras e silêncios que gritam arrependimentos, Isadora e Gabriel descobrirão que o amor não desaparece, ele se transforma, resiste… e às vezes espera.Mas quando a verdade vier à tona, será que o sentimento será forte o suficiente para sobreviver às mentiras do passado?Porque algumas histórias não terminam. Elas apenas aguardam coragem para recomeçar.

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Capítulo 1 — A Chuva da Última Promessa
Naquela noite, o céu de Santa Serena não apenas anunciava tempestade,ele parecia pressentir o reencontro. Isadora Monteiro segurava os autos do processo contra o peito como se fossem um escudo. O salto ecoava firme pelo corredor do fórum, denunciando uma segurança que ela treinou durante anos. Por dentro, porém, cada passo era um confronto com lembranças que jamais foram devidamente arquivadas. Ela não esperava vê-lo ali. Gabriel Alcântara estava parado próximo à janela, observando a chuva cair com a mesma intensidade do dia em que partiu. O tempo havia sido generoso com ele, mais maduro, postura serena, olhar ainda profundo. Mas havia algo diferente: um peso silencioso que só quem carrega arrependimentos conhece. Quando os olhos deles se encontraram, o mundo pareceu hesitar. Não houve sorriso. Não houve cumprimento. Apenas o impacto cru de dois corações que fingiram ter esquecido. — Você voltou — ela disse, sem emoção aparente. — Eu nunca quis ir — ele respondeu, baixo demais para ser firme, alto demais para ser ignorado. A frase caiu entre eles como uma confissão tardia. Do lado de fora, a chuva engrossava. Dentro daquele corredor estreito, o passado começava a escorrer pelas frestas da memória: a carta nunca entregue, a promessa feita sob a antiga ponte da cidade, o adeus sem explicação. Isadora havia aprendido a sobreviver sem respostas. Gabriel havia aprendido que o silêncio também é uma escolha, e talvez a mais cruel. Mas naquela noite, a tempestade não seria apenas do lado de fora. Algumas promessas são feitas para serem quebradas. Outras… para serem finalmente cumpridas. E, pela primeira vez em anos, o destino parecia cansado de esperar. O chamado para a audiência ecoou pelo corredor, interrompendo o instante suspenso entre eles. Isadora foi a primeira a desviar o olhar. Ajustou a postura, recompôs a expressão e vestiu novamente sua armadura invisível. — Temos uma audiência, doutor — disse formalmente. A distância no tratamento doeu mais do que qualquer acusação. Gabriel assentiu, mas antes que ela se afastasse completamente, arriscou: — Isadora… você nunca leu a carta, não é? Ela congelou por um segundo. Um único segundo que revelou mais do que qualquer lágrima poderia revelar. — Algumas coisas não precisam ser lidas para serem entendidas — respondeu, sem se virar. Mas a verdade era outra. Ela tinha esperado. Esperado na varanda de casa, contando os minutos. Esperado na ponte onde juraram que nada os separaria. Esperado uma ligação que nunca veio. Esperado que ele voltasse correndo, arrependido, antes que o orgulho construísse um muro definitivo entre eles. Ela não leu a carta porque ela nunca chegou. Dentro da sala de audiência, o ar parecia pesado demais para ser respirado. As famílias estavam ali. Olhares desconfiados. Mágoas antigas. A cidade inteira parecia ter opinião sobre aquela história que começou como um conto de amor e terminou como um escândalo silencioso. Isadora falava com firmeza técnica, argumentos precisos, postura impecável. Gabriel observava. Não a advogada — mas a mulher que ele conheceu aos dezoito anos, sentada na escadaria da igreja, sonhando em mudar o mundo. Ela ainda tinha o mesmo brilho quando defendia algo em que acreditava. E ele ainda a amava com a mesma intensidade imprudente de antes. Quando a audiência terminou, a chuva havia diminuído. Restavam apenas pingos tímidos, como se o céu estivesse exausto de chorar. Isadora saiu apressada, mas a energia acumulada de anos parecia vibrar entre eles. — Você me deve a verdade — ela disse, finalmente se virando. Não havia grito. Havia dor. Gabriel respirou fundo. Pela primeira vez, não parecia médico, nem homem seguro. Parecia apenas alguém que tem medo de perder pela segunda vez. — Eu fui embora porque seu pai me ameaçou — ele confessou, a voz rouca. — Disse que acabaria com a minha carreira antes mesmo de começar. Que você merecia alguém maior, melhor… não um bolsista cheio de sonhos. O mundo de Isadora oscilou. — Você escolheu acreditar nele. — Eu escolhi proteger você. — Me proteger de quê? De amar? O silêncio que veio depois foi mais ensurdecedor que qualquer tempestade. As certezas dela começaram a rachar. O vilão que ela criou na própria memória talvez não fosse exatamente quem ela imaginava. Mas havia algo mais. — E por que nunca voltou? — ela perguntou, a voz agora quase um sussurro. Gabriel aproximou-se um passo. — Porque quando tentei… você já estava noiva. O choque atravessou o peito dela como um estilhaço. — Eu esperei por você durante dois anos. — Eu também voltei durante dois anos — ele rebateu. — Sempre tarde demais. Sempre vendo você de longe. Sempre acreditando que eu tinha perdido o direito de lutar. A verdade era imperfeita. Confusa. Cheia de desencontros. Não houve traição. Houve silêncio. Orgulho. Medo. Interferências que nenhum dos dois teve coragem de enfrentar. O vento soprou mais frio. A cidade parecia pequena demais para tanto sentimento represado. Isadora sentiu a lágrima que se recusou a derramar por anos finalmente escapar. Não era fraqueza. Era libertação. — Eu te odiei para conseguir sobreviver — ela confessou. Gabriel fechou os olhos, absorvendo cada palavra como sentença. — Eu me odiei todos os dias por ter ido embora. Entre eles, não havia mais apenas passado. Havia possibilidade. Mas o amor, quando ferido, não se reconstrói apenas com explicações. Ele exige coragem. E naquela calçada molhada, sob o cheiro de terra recém-molhada, dois corações machucados entendiam que amar novamente seria mais assustador do que ter amado uma vez. Porque agora eles sabiam o que poderiam perder. E, ainda assim, nenhum dos dois conseguiu dar o próximo passo para ir embora. Talvez porque, no fundo, a última promessa ainda estivesse viva. Esperando ser cumprida.

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