o início
Desde muito pequena, Sofia tinha uma voz incrível. Todos diziam que ela nasceu para cantar. Mas ninguém sabia o quanto ela sofria.
Seu pai, Henrique, era um empresário obcecado pelo sucesso da filha. Enquanto outras crianças brincavam no parque, andavam de bicicleta ou passavam as tardes com amigos, Sofia passava horas em estúdios, ensaios e desfiles.
— Mais uma vez! — gritava Henrique.
— Papai, eu estou cansada...
O t**a veio antes que ela terminasse a frase.
— Você vai cantar até ficar perfeito!
Sofia abaixava a cabeça e segurava as lágrimas. Aprendeu desde cedo que chorar só fazia seu pai ficar mais bravo.
O segurança de Henrique, Marcelo, via tudo em silêncio. Ele odiava assistir àquilo, mas precisava do emprego. Seu filho, Lucas, tinha a mesma idade de Sofia e frequentemente acompanhava o pai ao trabalho.
Lucas observava Sofia através das portas dos camarins e corredores dos estúdios. Via uma menina cercada de fama, roupas bonitas e aplausos, mas com os olhos sempre tristes.
Uma tarde, quando os adultos estavam distraídos, Sofia saiu escondida para o jardim da mansão.
Lucas estava ali chutando uma bola.
— Quer brincar? — perguntou ele.
Os olhos de Sofia brilharam pela primeira vez naquele dia.
— Eu nunca joguei futebol.
— Sério?
Ela assentiu.
— Meu pai diz que eu não tenho tempo para essas coisas.
Lucas ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então hoje você tem.
Pela primeira vez em muitos anos, Sofia correu, riu e se divertiu como uma criança normal.
Mas a felicidade durou pouco.
— SOFIA! — a voz furiosa de Henrique ecoou pelo jardim.
Ela congelou de medo.
Lucas percebeu imediatamente a mudança em seu rosto. Aquela não era a expressão de uma filha que tinha levado uma bronca. Era o olhar de alguém aterrorizado.
E naquele momento, Lucas prometeu a si mesmo que um dia tiraria Sofia daquele inferno, não importava o que acontecesse.
Era apenas o começo da história dos dois. Uma menina presa pela fama e um garoto que se recusava a fechar os olhos para o sofrimento dela.
Henrique atravessou o jardim com o rosto vermelho de raiva.
— O que você está fazendo aqui?
Sofia baixou a cabeça imediatamente.
— Eu só estava brincando um pouco...
— Brincando? Você tem uma apresentação daqui a dois dias! Enquanto você perde tempo, outras meninas estão treinando!
Lucas deu um passo à frente.
— Ela só estava jogando bola comigo.
Marcelo arregalou os olhos.
— Lucas!
Mas Henrique nem olhou para o garoto.
Ele segurou Sofia pelo braço com força.
— Para dentro. Agora.
Sofia tentou esconder a dor, mas Lucas viu seus olhos se encherem de lágrimas.
Ela foi levada para dentro da mansão e passou o resto da tarde ensaiando.
Naquela noite, Lucas não conseguia parar de pensar nela.
— Pai, por que ele faz isso?
Marcelo suspirou.
— Porque ele acredita que o sucesso vale mais do que qualquer coisa.
— Mas ela é só uma criança.
Marcelo concordava, mas não tinha resposta.
Os anos passaram.
Enquanto outras crianças cresciam fazendo amigos, comemorando aniversários e criando lembranças felizes, Sofia vivia entre palcos, programas de televisão e sessões de fotos.
Sua fama crescia a cada ano.
O que ninguém sabia era que, atrás dos sorrisos perfeitos, existia uma garota cada vez mais triste.
Lucas continuava vendo tudo.
Sempre que podia, deixava pequenos bilhetes para ela.
"Você canta muito bem."
"Não desista."
"Um dia você vai ser livre."
Sofia guardava cada um deles em uma caixa escondida.
Eram as únicas coisas que a faziam sorrir.
Quando completaram dezesseis anos, Sofia já era uma das cantoras adolescentes mais famosas do país.
Mas naquela noite, depois de um show lotado, ela voltou para o camarim tremendo.
— Eu não quero mais fazer isso.
Henrique fechou a porta.
— O que disse?
— Eu estou cansada. Eu quero estudar normalmente. Quero ter amigos. Quero viver.
O homem ficou furioso.
— Sua vida existe por minha causa!
— Não! — ela gritou pela primeira vez. — Minha vida é minha!
O t**a foi tão forte que ela caiu no chão.
Do lado de fora, Lucas ouviu o barulho.
Sem pensar, abriu a porta.
Henrique ainda estava com a mão levantada.
Lucas correu até Sofia.
— Não encosta nela!
O silêncio tomou conta do camarim.
Henrique encarou o rapaz.
— Você esqueceu quem é?
— Não. Eu sei exatamente quem eu sou.
Lucas ajudou Sofia a levantar.
Pela primeira vez em muitos anos, alguém tinha ficado ao lado dela.
E naquele instante, Sofia percebeu que não estava mais sozinha. Talvez, pela primeira vez na vida, existisse uma chance real de escapar do controle do pai.