Capítulo 1 - A Pergunta Que Não Era Para Mim
Hoje é o meu aniversário de dezoito anos.
Meu... e da minha irmã gêmea, Lea.
Apesar de termos nascido no mesmo dia, com apenas alguns minutos de diferença, somos completamente opostas. Quem nos vê andando juntas dificilmente acredita que somos gêmeas. Enquanto ela herdou os cabelos castanhos escuros da nossa mãe, os meus são claros e levemente ondulados. Os olhos também não poderiam ser mais diferentes. Os dela são castanhos; os meus, claros. Até a personalidade parece ter seguido caminhos diferentes.
Mesmo assim, nunca fomos de brigar.
Pelo contrário.
Somos melhores amigas antes mesmo de sermos irmãs.
Sempre fomos inseparáveis.
— Evy... — Lea entrou no meu quarto sem bater, já vestindo um biquíni azul-claro. — Você percebeu que esse é o nosso último aniversário antes da faculdade?
Sorri enquanto terminava de colocar um brinco.
— Eu estava pensando exatamente nisso.
Ela se sentou na minha cama.
— Será que ano que vem a gente consegue bolsa para a mesma universidade?
Suspirei.
Era impossível não pensar nisso. Desde pequenas sonhávamos em estudar juntas. A ideia de seguir caminhos diferentes me dava um aperto no peito.
— Espero que sim. Não consigo imaginar minha vida sem você por perto.
Lea fez cara de quem ficou ofendida.
— Como assim "espera"? A gente vai conseguir.
Ri da confiança dela.
— Tomara.
Ela passou o braço pelos meus ombros.
— Afinal, estamos juntas desde a barriga da mamãe. Não é uma faculdade que vai separar a gente.
Balancei a cabeça concordando.
— Você sempre sabe o que dizer.
— Eu sei. Esse é um dos meus inúmeros talentos.
Revirei os olhos, rindo.
Lá embaixo, já dava para ouvir meus pais organizando tudo para a festa.
Como de costume, decidiram comemorar nosso aniversário na piscina de casa. Alguns amigos da família apareceriam mais tarde, mas a maior parte dos convidados seria composta pelos nossos colegas da escola.
E isso significava que ele também estaria aqui.
Matheus.
Meu coração acelerou só de pensar.
Fazia quase dois anos que eu era completamente apaixonada por ele.
Dois anos escondendo aquele sentimento.
Nunca tive coragem de contar para ninguém.
Nem para a Lea.
Nem para o meu melhor amigo.
Tyler.
Talvez eu tivesse medo de ouvir que aquilo nunca daria certo.
Ou talvez simplesmente gostasse de guardar aquele sentimento só para mim.
Conheço o Tyler desde a quarta série.
No primeiro dia de aula, sentei ao lado dele porque era a única carteira vazia da sala.
Desde então, nunca mais nos desgrudamos.
Ele virou meu melhor amigo.
Meu porto seguro.
A pessoa que sempre aparecia quando eu precisava de ajuda, mesmo antes de eu pedir.
A campainha tocou.
Olhei pela janela do quarto e sorri sem perceber.
— Aposto que é o Tyler.
— Ele sempre chega primeiro — Lea comentou, levantando da cama.
Descemos juntas.
Assim que abri a porta, dei de cara com ele.
Tyler usava uma camiseta branca, bermuda bege e aquele cabelo preto perfeitamente bagunçado que parecia nunca precisar de pente. Seus olhos escuros encontraram os meus imediatamente.
Um sorriso apareceu em seu rosto.
— Feliz aniversário, Evy.
Não pensei duas vezes antes de abraçá-lo.
— Obrigada.
Ele estendeu uma sacola de presente.
— Espero que goste.
Olhei para ele, curiosa, antes de abrir.
Quando vi a bolsa, fiquei completamente sem palavras.
— Tyler...
Passei os dedos pelo material como se tivesse medo de estragar.
Era exatamente a bolsa que eu namorava toda vez que passávamos na vitrine do shopping.
Levantei os olhos para ele.
— Como você sabia?
Ele deu de ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Eu ando muito com você.
Continuei olhando para ele, esperando uma explicação melhor.
Ele riu.
— Toda vez que a gente passava naquela loja, você diminuía o passo.
Franzi a testa.
— Eu diminuía?
— Diminuía.
— Não fazia ideia.
— Fazia, sim. Você olhava para essa bolsa como se estivesse apaixonada por ela.
Acabei rindo.
— Você percebe essas coisas?
— Percebo mais do que você imagina.
Balancei a cabeça, admirada.
— Você é o melhor.
Ele apenas sorriu de volta.
Às vezes eu pensava como era bom ter um amigo como o Tyler.
Ele nunca reclamava quando eu o chamava para ir ao shopping.
Esperava pacientemente enquanto eu experimentava roupas.
Dava opinião sobre vestidos, bolsas, sapatos e até maquiagem.
Quando eu ficava em dúvida entre duas peças, era sempre ele quem escolhia a que mais combinava comigo.
Por isso, durante anos, uma ideia acabou se formando naturalmente na minha cabeça.
Eu nunca o ouvi comentar sobre alguma garota.
Nunca o vi interessado em ninguém.
E, sinceramente...
Sempre achei que ele fosse gay.
Ele nunca confirmou.
Mas, para mim, era quase uma certeza.
Afinal, que garoto passaria horas andando pelo shopping, ajudando a melhor amiga a escolher roupa, sem reclamar uma única vez?
Mais tarde, depois dos parabéns, a música voltou a tocar e a maioria dos convidados já estava espalhada pela piscina, conversando ou pegando alguma coisa para comer.
Respirei fundo algumas vezes.
Era agora.
Se eu não criasse coragem naquele momento, provavelmente nunca criaria.
Procurei Matheus com o olhar até encontrá-lo parado perto da cerca dos fundos, um pouco afastado da movimentação.
Passei a mão na barra do vestido tentando controlar o nervosismo antes de caminhar até ele.
— Oi, Matheus.
Ele virou na minha direção e abriu um sorriso.
— Oi, Evy. Feliz aniversário mais uma vez.
— Obrigada.
Por alguns segundos ficamos em silêncio.
Meu coração parecia querer sair pela boca.
— A festa está muito boa. Seus pais capricharam de novo.
Olhei rapidamente para a piscina.
Meu pai brincava com algumas crianças enquanto minha mãe organizava a mesa dos doces.
— Eles adoram inventar motivo para fazer festa.
Matheus deu uma risada.
— Dá para perceber.
Apertei os dedos um contra o outro.
Era agora.
— Eu queria te perguntar uma coisa.
Ele assentiu.
— Pode perguntar.
Respirei fundo.
— Você... gosta de alguém?
Assim que terminei a pergunta, vi a expressão dele mudar completamente.
Os olhos ganharam um brilho diferente.
Um brilho que fez meu coração disparar.
Meu Deus...
Será que...
Será que eu estava prestes a ouvir exatamente o que sonhei durante dois anos?
Ele passou a mão na nuca, parecendo um pouco sem graça.
— Na verdade... gosto, sim.
Meu coração acelerou tanto que achei que ele conseguiria ouvir as batidas.
Senti até minhas mãos ficarem geladas.
Matheus deu um pequeno sorriso.
— E, para falar a verdade... eu também queria te perguntar uma coisa.
Meu estômago virou.
Era isso.
Só podia ser isso.
Sorri sem conseguir esconder a expectativa.
— Pode perguntar.
Ele olhou rapidamente para os lados antes de voltar a me encarar.
— A Lea está solteira?
Por alguns segundos, tive a impressão de que o mundo inteiro ficou em silêncio.
Não ouvi mais a música.
Não ouvi mais as risadas vindas da piscina.
Não ouvi mais nada.
Apenas aquela pergunta ecoando dentro da minha cabeça.
A Lea está solteira?
Forcei um sorriso que nem eu mesma consegui acreditar.
— Está... sim.
O rosto dele se iluminou.
— Sério?
Assenti lentamente.
— Que bom.
Ele respirou fundo, como se tivesse tirado um peso enorme das costas.
— Eu queria falar com ela hoje, mas fiquei com medo de ela já estar namorando.
Sorri mais uma vez.
Ou, pelo menos, tentei.
— Então... boa sorte.
— Obrigado, Evy. Você não faz ideia do quanto isso me deixa feliz.
Feliz.
Engraçado.
Eu tinha acabado de descobrir que a pessoa por quem fui apaixonada durante dois anos estava feliz...
Porque gostava da minha irmã.