Era um sábado para minha alegria, pois assim a gente não precisaria ficar horas trancadas em um sótão fedido, em um tédio absurdo, quer dizer, a gente até tentava se distrair, mas nem sempre a gente conseguia.
Eu estava no meu quarto terminando de me arrumar, pois recém havia saído do banho. Estava amarrando os meus calçados quando Flor entrou correndo no meu quarto.
- Mar, Mar, me socorre. Eu não quero morrer. - Se escondeu atrás de mim.
- O que houve? - Perguntei apavorada.
Confesso que fiquei assustada, pois pensei que Bernardo podia estar querendo machucá-la, o que seria meio estranho por ela ser filha da Júlia, e eu sabia que se o homem machucasse aquela criança, a mulher faria picadinho dele, o que não seria nada m*l, acho que eu a agradeceria por isso.
- Ele quer me m***r. - A menina apontou na direção da porta.
E então, eu olhei para a direção que a garota havia apontado, e o vi. Era Matteo. Confesso que fiquei bem aliviada por isso. O menino parecia bem nervoso e estava ofegante, parecia ter corrido uma maratona, já a menina, estava bem assustada e ficou escondida atrás de mim e me agarrava pela blusa.
- Flor, eu vou te m***r. - O pequeno disse.
- Não vai, não senhor. - Falei. - Me conta, o que aconteceu?
- Ela quebrou o meu boneco do Homem Aranha, que o Nico me deu. - Me mostrou o boneco decapitado.
- Foi sem querer. - A loirinha disse.
- Então, vou quebrar as suas bonecas sem querer também.
- Hey! Foi um acidente. Desculpa.
Matteo parecia bem chateado, já Flor parecia estar sendo sincera, deu pra ver que ela realmente não teve intenção de quebrar o brinquedo do menino, e eu estava conversando com os dois, quando Tomás e Lupita entraram correndo. A menina abraçou Flor, ai, achava essas duas tão fofas, era tão bonitinho ver a amizade delas.
- Se você encostar um dedo nela, eu vou contar pro meu pai, e ele diz que um homem não deve jamais encostar um dedo em uma dama. - Disse Tomás para Matteo. Logo se dirigiu para Flor. - Vem, vamos brincar em outro lugar. - Pegou na mão da menina e saíram do meu quarto, sendo seguidos por Lupita.
Eu olhei para Matteo, que estava cabisbaixo, parecia triste. Conversei um pouco com o garoto, que parecia arrependido por ter ficado bravo com a amiga, então, consegui fazer ele ir se desculpar com ela para voltar a brincar com os demais.
Nisso, Juan apareceu em meu quarto. Não disse nada em um primeiro momento. Lembrei das palavras de Euge sobre o garoto, e fiquei me perguntando se ele era realmente diferente do pai, eu queria crer que sim, mas não tinha como ter certeza.
- Oi. - Falou com um leve sorriso.
- Oi.
- Hã… Eu… Eu preciso arrumar umas coisas no porão, o Nico ia fazer isso, mas como eu sou muito legal, me ofereci para fazer.
- Muito legal e muito convencido, né? - Ele riu.
- Estou zoando. Mas… Quer me ajudar?
- Por que eu?
- Porque… Ah, você chegou aqui e a gente m*l conversa, achei que… que seria uma boa pra gente poder se conhecer melhor. - Falou timidamente.
- Você quer me conhecer melhor? - Perguntei meio surpresa.
- Ah… - Deu de ombros meio sem graça. - Você quer me ajudar?
- Hã… Eu… - Lembrei do que Bernardo me disse sobre eu não ficar amiga de Juan. - Quero.
Ok, eu sabia que podia ser meio arriscado, mas eu já estava tacando o ‘’f**a-se’’, eu odiava o Bernardo e odiava tudo o que ele me fazia sentir, raiva, medo, ódio… E acho que essa seria uma boa ideia para afrontá-lo, pois eu estava cansada de fazer tudo o que ele manda por medo, e talvez se ele me fizesse algo, alguém poderia notar e ele poderia se ferrar, e era tudo o que eu mais queria, e acredito que isso faria a alegria de muita gente.
- Legal! - Falou com um singelo sorriso. - Vem…
Nós dois fomos até o porão, que estava bem bagunçado, cheio de caixas e coisas jogadas no chão, prateleiras bagunçadas, muita poeira, parecia que ninguém limpava e organizava aquele lugar desde os tempos das cavernas, não sei como ninguém havia dado um jeito naquele lugar antes.
- Bem que o Nico falou que isso estava precisando de uma boa limpeza. - Falou ao adentrarmos o lugar.
Eu fiz menção em fechar a porta quando rapidamente Juan disse:
- Não fecha, essa porta está com problema, só abre por fora.
-Ah, ok. - A deixei aberta.
Juan e eu começamos a organizar algumas coisas enquanto conversávamos um pouco. Eu contei sobre a minha vida, e ele também me falou sobre a sua vida, me disse que ele nunca chegou a conhecer a mãe, pois ela havia o abandonado pouco depois que ele nasceu, e que tinha vontade de conhecê-la só para saber o que a levou a não querer saber dele, e admito que fiquei um pouco m*l ao vê-lo falar, dava para ver que isso ainda mexia bastante com ele, ficou com o olhar triste ao falar da falta da presença materna em sua vida, me senti m*l por vê-lo triste, acho que ninguém merecia crescer sem pai ou mãe, isso faz tanta falta na vida de uma criança, e bom, eu até tive, mas foi a mesma coisa que não ter, e confesso que não sinto falta deles.
E então, eu me abaixei para pegar uma caixa que estava no chão, e Juan rapidamente fez o meu, no mesmo instante que eu, e sem perceber, acabamos tentando pegar a caixa ao mesmo tempo, e nisso, as nossas mãos se tocaram. Eu olhei para ele e ele olhou para mim, os nossos olhares ficaram se cruzando e eu não conseguia parar de olhá-lo, era como se o seu olhar me hipnotizasse, e fiquei um pouco fascinada com isso.
E então, escutamos um barulho de porta, olhamos ao mesmo tempo para a porta do porão e ela estava fechada. Corremos até a porta e tentamos abrir, mas não abria, estávamos trancados. Ai, meu Deus, e agora? Como iríamos sair daquele lugar?