Eu estava passando pela sala quando avistei Flor brincando sozinha de boneca e resolvi ir até a menina.
- Oi. - Falei.
- Oi. - Ela disse com um terno sorriso.
- Cadê os seus amigos? Por que não está brincando com eles?
- O Matteo é um chato e disse que boneca é coisa de menina. - Revirou os olhos. - O Tomás saiu com o Nico e a Lupita está tomando banho.
- Entendi… Hey, posso brincar com você?
- Claro! - Abriu um imenso sorriso. - Toma, você é essa. - Me entregou uma boneca.
- Oi, amiga. - Falei com uma voz fina.
- Oi. Você quer ir ao shopping?
- Eu quero!
Colocamos as bonecas dentro de um carro da Barbie, quando eu ouvi.
- Senhorita Mariana!
Me virei e a vi ali parada atrás da gente. Estava séria, parecia brava como sempre.
- O que fazes?
- Eu…
- Ela estava brincando comigo, mamãe. Algum problema?
- Não, meu amorzinho, mas agora a mamãe vai brincar com você.
- Podemos brincar nós três. - Disse a menina.
- É que a Mariana tem mais coisas para fazer, não é? - Me encarou.
- É sim. Tchau, pequena.
- Tchau. - Disse docemente.
(...)
Mais tarde, estávamos roubando há algum tempo quando resolvi sentar em um banco para descansar. Gas sentou ao meu lado.
- Quando será que isso vai acabar? - Perguntei.
- Também queria saber!
- O que fazem aqui? - Bernardo perguntou. - Andem, vão trabalhar, seus vagabundos.
"Trabalhar?" Como se isso fosse algum tipo de trabalho. E então, Gas e eu voltamos a roubar. Após algum tempo, fomos ao sótão para entregarmos tudo o que havíamos conseguido.
- O que é isso? - Júlia perguntou ao se referir a boneca que Lupita estava segurando.
- É uma boneca! Por favor, deixa eu ficar com ela. - Pediu a menina.
Júlia se aproximou da pequena, ficou da altura dela, e seriamente, falou:
- Você não tem bonecas!
Pegou com agressividade o brinquedo da mão da criança, levou até uma escrivaninha, que tinha no local, abriu uma gaveta, pegou uma faca e começou a dar facadas na boneca, estragando com ela, não sobrou um pedacinho para contar história. Lupita começou a chorar e abraçou o irmão.
Ai, como eu odeio essa bruxa da Júlia! O que custava deixar a menina ficar com a boneca? Como ela consegue ser tão má assim?
Assim que terminamos de entregar tudo para os dois, eu fui até o andar de cima e logo escutei alguém tocando violão, tocava muito bem. Em seguida, começou a cantar, e reconheci aquela voz, era Juan. Me aproximei do quarto do garoto e fiquei escutando-o, cantava incrivelmente bem.
Parei na porta do quarto dele e fiquei vendo-o tocar e cantar. Pouco depois, o garoto notou a minha presença e parou de cantar, colocando o violão em cima da cama.
- O que você faz aqui? - Perguntou.
- Hã… Desculpa. É que… Eu estava passando por aqui e escutei você, e… Que linda essa música, eu não conhecia.
- Acabei de compor.
- Devia estar inspirado. - Falei.
- Estava. Você é minha inspiração.
- Juan…
- Mar… - Se levantou e veio em minha direção. - Você pode falar o que for, pode até me bater se quiser, mas a verdade é que… Que eu te amo.
E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me beijou, e foi um beijão daqueles, a sua boca era como um imã, não conseguia me separar de seus lábios. E de repente…
- Mar? Juan?
Nos separamos e o vi parado em nossa frente. Era Gastón.
- O que você faz com ele? Vocês voltaram?
- E isso o que te importa? - Juan perguntou de forma agressiva.
- Cala boca, não estou falando com você, cérebro de minhoca.
- Como é?
Juan partiu para cima de Gastón e os dois começaram a brigar, me assustando, eu não sabia o que fazer. Sai do quarto em busca de alguém para pedir ajuda. Encontrei Tato no corredor e lhe contei o que havia acontecido. O garoto correu até o quarto de Juan e separou os dois.
- O que está havendo aqui? - O cabeludo perguntou.
- Esse i****a… - Disse Juan.
- Prefiro ser um i****a do que ser filho de um explorador de menores. - Disse o louro no calor da emoção.
- Quê? - Juan paralisou perplexo. - Do que você está falando?
- É isso mesmo! O teu querido papai nos obriga a roubar e a entregar drogas pra ele. Acho que é melhor ser órfão como eu do que ter um lixo de pai como o seu.
- É mentira! É mentira! Você está mentindo. Você está dizendo isso porque tem inveja de mim, porque a Mar gosta de mim e não de você, e porque eu tenho um pai e você não.
- Tato, Mar, digam se é mentira. - Disse Gastón.
Juan nos olhou esperando que disséssemos algo, mas Tato e eu ficamos em silêncio, e olhando para o chão, não conseguimos nem encará-lo.
- É mentira! - Começou a chorar. - Vocês são um bando de mentirosos. - Saiu correndo do quarto.
- O que você fez, cara? - Tato perguntou para Gastón.
(...)
Juan
Eu não conseguia crer no que Gas havia dito, meu pai era um homem bom, ele jamais faria isso. Eu não conseguia acreditar que ele fosse capaz disso, obrigar jovens a roubar e a entregar drogas? Esse não era o meu pai. Esse não era o homem que me criou todos esses anos. Mas… Se era mentira por que eu havia ficado tão mexido com isso? Eu precisava tirar essa história a limpo, então resolvi ir ao escritório do meu pai.
- Pai, podemos conversar? - Perguntei assim que entrei.
- Claro, filho! Aconteceu algo?
- É verdade que o senhor os obriga a roubar e a entregar drogas? Por favor, me diga a verdade! Não minta para mim! É verdade isso?