- Como assim? Como não viram nada? - Perguntei.
- Estava tudo em ordem, o Valério nos recebeu muito bem, e falamos com todos a sós, e eles falaram muito bem do dono.
- Falaram com a Caridade?
- Falamos, Mar, e ela falou as mil maravilhas do lugar.
O homem me fez um leve carinho no rosto e saiu, em direção ao segundo andar.
Como isso podia ter acontecido? Eu não estava louca, eu não havia alucinado, eu sabia muito bem o que eu havia visto e vivido.
Nisso, avistei Bernardo me olhando com um imenso sorriso, e resolvi ir até ele.
- Isso tem dedo seu, né?
- Bingo! - Respondeu com um sorriso sarcástico. - Ou você pensou que eu ficaria quieto e não avisaria o Valério? E ele se encarregou de ter uma enorme conversa com os internos.
- Eu te odeio! - Falei.
- Oh, que peninha. - Debochou.
Dei as costas para ele e subi as escadas, bufando de raiva, como esse ser consegue ser tão desprezível assim?
Fui para meu quarto e avistei Euge deitada na sua cama, sentei ao lado da garota e contei para ela o ocorrido com o infeliz do Bernardo, e a loura ficou chateada pelas coisas não terem saído como eu esperava.
Nisso, Juan apareceu na porta do nosso quarto.
- Oi. - Falou parecendo meio tímido. - Posso entrar?
- Claro! - Disse Euge.
O garoto entrou, e se sentou em minha cama, ficando meio cabisbaixo, parecia triste.
- Eu vi que vai ter um concurso de bandas. - Disse Juan.
- Que legal! - Minha amiga falou empolgada.
- Eu queria participar, mas meu pai me mataria se soubesse, ele acha essas coisas nada a ver, e não entende que eu amo cantar.
- Podíamos participar em segredo, ninguém precisa saber. - Falei. - Quando vai ser?
- Bom, as inscrições vão até o fim dessa semana, mas o concurso é dentro de dez dias.
- Que bacana! - Disse minha amiga. - Vou contar pro Gastón e pro Tato.
A garota saiu em disparada do nosso quarto, me deixando sozinha com Juan, o que fez o meu coração dar uma leve acelerada.
- Eu… Eu fiquei muito preocupado com você. - Falou. - Fico feliz que estejas de volta.
- Valeu. - Dei uma leve coçada na nuca. - E a Dolores? - Desconversei.
- O que tem?
- Ela tem vindo muito aqui?
- Mais ou menos. Por quê? - Me lançou um olhar curioso.
- Por nada…
Juan ficou em silêncio, sem tirar os olhos de mim. De repente, Euge voltou e estava acompanhada de Gastón e Tato, que estavam super empolgados com o concurso de bandas. Juan ficou de nos inscrever no dia seguinte.
E com tudo isso, eu havia esquecido que eu estava há um pouco mais de 12 horas sem comer, deixei meus amigos e Juan no quarto e fui em direção à cozinha, porém, ao sair do quarto, avistei Nico subir as escadas com Gimena no colo, ao subir o último degrau, ele a colocou na cadeira de rodas, que já estava devidamente posicionada.
"Deve ser h******l ficar sem andar." - Pensei.
Desci as escadas e fui direto para a cozinha, onde avistei Emilia preparando o jantar.
- Falta muito pro jantar? - Perguntei.
- Um pouco. Está com fome?
- Aham, mas eu me viro aqui.
Peguei duas bananas, me sentei à mesa e as comi, enquanto olhava Emilia cozinhando. Após terminar de comer, joguei as cascas no lixo e me aproximei da mulher.
- Quer ajuda? - Perguntei.
- Você quer me ajudar? - Sorriu docemente.
- Quero!
- Bom, por aqui está tudo sobre controle, mas se você quiser, pode arrumar a mesa.
- Tá bem!
Arrumei toda a mesa, como Emilia havia pedido. Ah, eu gostava de ajudar e a loura era tão legal, era como uma mãe pra gente e era bom ficar um minuto que fosse a mais perto dela.
- Terminei! - Falei.
- Uau! Onde você aprendeu a arrumar a mesa tão bem? - Perguntou ao me arrancar um sorriso tímido. - Obrigada pela ajuda.
- Ah, foi um prazer.
- Você tá bem?
- Aham.
- Que bom! Qualquer coisa, pode contar comigo, viu? - Falou.
- Eu sei!
Sorri e dei um beijo na testa da mais velha, que acariciou o meu rosto suavemente.
Me retirei da cozinha e subi as escadas, para ir ao meu quarto, no entanto, ao passar pelo quarto da Gimena, notei que a porta estava entre aberta e resolvi ir falar com ela para ver se a mulher precisava de algo, porém, vi quando Gimena levantou da cadeira de rodas e sentou na cama, logo se ajeitou, esticando as pernas.
Não podia ser, eu não conseguia crer naquilo que os meus olhos estavam vendo, não era possível que ela estivesse enganando todo mundo esse tempo todo, certeza que ela estava fazendo isso só pra ficar perto do Nico e pra afastar ele da Emilia, essa mulher não presta, assim como o irmão dela. Ah, mas o Nico precisa saber disso…
Fui até o meu quarto e contei para Euge o que eu havia visto.
- Você tem certeza? - Perguntou.
- Claro, eu vi. Eu juro.
- Não precisa jurar, eu acredito em você. Mas precisamos contar pro Nico.
- Claro, ele precisa saber. - Falei.
(...)
No dia seguinte, Juan fez a nossa inscrição para o concurso de bandas, ai, eu estava tão empolgada, seria tão legal participar de algo assim.
Eu estava em meu quarto após mais um dia cansativo de "trabalho" quando Gastón entrou.
- Oi. - Falei.
- Oi. Eu queria ter falado com você ontem, mas estava meio sem graça.
- O que foi? Aconteceu algo? - Perguntei preocupada.
- É que… Você me fez muita falta, fiquei com muito medo de nunca mais te ver.
- Ai Gas! - Falei ao abraçá-lo.
- Prometo que não vou mais deixar o Bernardo te levar para nenhum outro lugar.
- Hey, não esquenta, tá tudo bem, viu?
- Mar?
- Sim?
- Hã… Nada. Eu… Vou ao banheiro, depois nos falamos, tá?
- Claro!
O garoto me deu um delicado beijo no rosto e saiu. Nisso Juan entrou, os dois passaram um pelo outro e se encararam, acho que não se davam muito bem.
- Mar…
- O que foi? - Perguntei com indiferença.
- Eu queria te dar uma coisa.
- Pra mim? O que é?
Ele me entregou uma caixa e quando eu abri tive uma tremenda surpresa. Era um celular super moderno. Esse garoto é louco!