Eu cheguei no abrigo por volta de 2h30, com certeza todos estavam dormindo, mas eu não estava nem aí, iria acordar geral.
Toquei a campainha umas dez vezes, até que ouvi uma voz muito familiar pedindo para eu aguardar. Era Emilia.
- Mar? - Se surpreendeu ao me ver.
- Emilia! - A abracei e comecei a chorar.
- Hey, meu amor, o que houve? O que você está fazendo aqui? Cadê a sua amiga? - Olhou para os lados, procurando-a.
- Não tem amiga nenhuma. - Desfiz o abraço e tentei conter o choro. - Era mentira do Bernardo.
- Como assim? - Perguntou sem entender do que eu falara.
- Podemos acordar o Nico? Assim falo de uma só vez.
- Claro! - Falou parecendo preocupada.
Fomos até o quarto do homem e batemos à porta algumas vezes, na terceira tentativa, ele disse que já atenderia. Aguardamos uns minutos e ele logo abriu a porta, se surpreendendo ao me ver.
Fomos até a cozinha, onde Emilia me deu um copo d'água para eu me acalmar. E então, eu contei tudo, bom, quase tudo, não falei tudo o que Júlia e Bernardo faziam com a gente, mas falei sobre eles terem me mandado pra outro abrigo e também contei sobre o que aconteceu no abrigo do seu Valério.
- Mas por que Bernardo te transferiu? - Nico perguntou.
- Porque ele acha que eu gosto do Juan, e ele queria nos afastar.
- Não, eu não acredito que ele fez isso por uma bobagem. - Falou o homem enfurecido.
Nico foi até o quarto de Bernardo e de Júlia e acordou os dois. Pude ver o olhar furioso de ambos ao me verem. Fiquei com tanto medo.
Fomos até a sala, e pouco depois, todos os outros apareceram na sala, pois haviam acordado com o barulho, e eles também se surpreenderam ao me ver. Gastón, Euge e Tato me abraçaram, enquanto Juan ficou paralisado sem saber o que fazer direito.
Eu contei para eles o que havia acontecido e falei tudo que eu havia passado nas mãos do Valério, enquanto eu notava Júlia e Bernardo me fuzilarem com o olhar. Também notei Juan olhar decepcionado para o pai.
- Pai, isso é verdade? - O garoto perguntou.
- Nã… Nã… Nã… Não. Juan, meu filho, como você pode acreditar numa coisa dessas? Por que eu faria isso?
- Porque você acha que eu gosto do Juan. - Respondi.
- Você gosta de mim? - O garoto me olhou com um doce sorriso.
- Eu disse que ele acha, e não que eu gosto.
- Ah… - Falou desapontado.
Bernardo inventou uma desculpa qualquer, falou que foi tudo um m*l entendido, e blá, blá, blá, mas Nico e Emilia ficaram com uma pulga atrás da orelha, principalmente a loura, e os dois me garantiram que no dia seguinte iriam até o abrigo de Valério para se certificarem de tudo o que eu falei, tomara que eles ajudem a Caridade e todos os outros, pois eles não merecem ficar nas mãos do Valério.
Todos nós fomos dormir e eu estava com muito medo do que Bernardo e Júlia fariam comigo, pois eu tinha certeza de que eles não deixariam barato.
- Ai, estou tão feliz que você está de volta. - Disse Euge ao me abraçar. - Senti a tua falta.
- Eu também! - Dei um pequeno sorriso.
Euge e eu nos deitamos para dormir. Pouco depois, acabei pegando no sono.
Algum tempo depois eu acordei com uma voz que infelizmente eu conhecia muito bem, e me assustei ao vê-lo.
- Vem comigo. - Falou.
- Que horas são? - Perguntei.
- Você está s***a? Vamos…
O homem se retirou e eu o segui, temendo o que estava por vir. O que será que ele faria comigo?
Fomos até o escritório do homem. Ele se sentou em sua cadeira e eu fiquei em pé, esperando que ele dissesse ou fizesse algo.
- Você se acha muito esperta, né? Pois sinto informar, mas você não é. E pode ter certeza que isso não ficará assim. Já que você voltou, deve estar com saudade de trabalhar, então você vai passar a semana inteira trabalhando pra gente. Sozinha. O dia inteiro. Das 8h até às 20h. Esse será o seu castigo por se achar espertinha.
- Mas… - Tentei argumentar.
- Tem certeza que vai querer me desafiar? - Me olhou seriamente.
- Não, senhor. - Falei cabisbaixa.
- Agora vá se arrumar para iniciar os seus trabalhos.
Sai do escritório e fui em direção ao meu quarto, enquanto tentava conter o choro.
Euge acordou em seguida para a falsa escola, e me viu me arrumando.
- Já acordou? - Perguntou surpresa. - Desde quando você acorda cedo?
- Não acordei, fui acordada. - Falei.
- Como assim?
Contei para a loura o que havia acontecido e ela ficou chocada, queria me ajudar de alguma forma, mas não tinha nada que ela pudesse fazer, e o castigo era meu, eu tinha que cumprir sozinha.
(...)
Eu estava roubando há algumas horas e não aguentava mais, já havia conseguido dinheiro e celulares, e até um relógio, que um homem tirou e colocou em uma mesa de uma lancheria enquanto aguardava o pedido do seu lanche.
Já devia ser meio dia e estava me dando muita fome... Fui até Bernardo, que estava me vigiando e reclamei de fome.
- Consegui isso! - Lhe dei os pertences roubados. - Posso ir almoçar agora? Depois eu volto a roubar.
Ele riu, e eu não entendi qual era a piada, não havia falado nada engraçado.
- O que foi? - Perguntei.
- Você só vai comer às 20h quando terminar o seu horário de serviço.
- Quê? Mas eu vou morrer de fome.
- Oh, que peninha! - Falou de forma debochada. - Agora você irá fazer uma pausa pra me fazer outro servicinho.
O homem me entregou uma sacola com drogas e pediu para eu entregar para uma mulher, em um local que ficava perto do abrigo. Ai, como alguém consegue usar essas porcarias? Têm um cheiro h******l.
Eu fiz o que Bernardo havia mandado e depois voltei a roubar, até o horário que ele havia dito. Em seguida, entreguei para ele tudo o que eu havia roubado e entrei no abrigo.
- Ah, até que enfim você chegou. - Disse Nico ao me ver. - Como foi o trabalho?
- Quê? - Perguntei assustada com a pergunta do mais velho.
- O trabalho de escola que você foi fazer…
- Ah, tranquilo… E aí, foram no abrigo do seu Valério? Acharam o endereço?
- Achamos. - Ele disse. - Mas não vimos nada de errado, estava tudo bem, e todos falaram muito bem do dono.
Quê? Como assim? Não podia ser. Como isso era possível? Não fazia sentido nenhum.